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A COP 30 está sendo uma grande festa da comunidade internacional, cientistas, governos, instituições multilaterais e organizações da sociedade civil preocupados com as mudanças climáticas e negociando as medidas necessárias para deter a elevação da temperatura média do planeta. Com todas as dificuldades operacionais e logísticas, o Governo, que preside a COP 30, – acertou quando decidiu realizar o evento na Amazônia, o mais rico espaço de biodiversidade, floresta e recursos hídricos do mundo e com enorme diversidade cultural, dezenas de etnias indígenas e comunidades da floresta.

Entretanto, no meio dos muitos discursos e intensas negociações, da bela festa cultural, os avanços da COP – 30 são limitados. O governo comemora, com razão, é certo, a criação do fundo das florestas tropicais (Tropical Forests Forever Fund), que visa compensar financeiramente países que mantêm florestas tropicais em pé como pagamento pelos serviços ambientais que oferecem ao clima mundial. Considerando que o Brasil tem a maior floresta tropical do mundo e que mais de 42% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa decorrem do desmatamento e das queimadas, a conservação e recuperação das florestas têm um peso significativo na contribuição brasileira para o equilíbrio global do clima.

A COP 30 fracassa na questão central do equacionamento das mudanças climáticas, a definição de metas ousadas de redução das emissões de gases de efeito estufa pelos países que participam do evento. Dez anos depois da assinatura do Acordo do Clima, quando foram definidas metas não cumpridas, as emissões continuam crescendo e a temperatura do planeta se elevando; de 2010 a 2022, as emissões globais aumentaram mais de 10,5%. Como consequência, já não é possível impedir que o aquecimento global supere em 1,5º a temperatura da era pré-industrial (no ano passado, já superou em 1,55º). O grande encontro de Belém não vai acrescentar nada mais consistente e robusto de redução das emissões de gases de efeito estufa, a julgar pela ausência ao evento dos grandes emissores de GEE e indisposição para assumir compromissos de metas ambientais.

Os presidentes e chefes de Estado dos quatro países que mais jogam gases poluidores na atmosfera – China, Estados Unidos, Índia e Rússia – não vieram a Belém, evidenciando o pouco interesse que o evento desperta nas autoridades destas nações. Alguns governos mandaram representantes, mas os Estados Unidos, o segundo maior emissor, ignorou completamente a COP 30. Embora sejamos todos responsáveis pelo desastre ambiental que se anuncia, estes quatro países, três deles do BRICS, jogam na atmosfera 47,7% do total das emissões de gases de efeito estufa do mundo, com a China liderando com 22% destas emissões, o dobro dos Estados Unidos (dados do Climate Watch). Maiores emissores continuam aumentando as suas emissões. Excetuando os Estados Unidos (anterior ao negacionista Trump), China, Índia e Rússia registraram crescimento das emissões nas últimas décadas. De 2010 a 2022, as emissões da China se elevaram em quase 30%, as da Índia subiram 42,2% e da Rússia, em torno de 26,8% no período.

Se estes países não reduzirem drasticamente as suas emissões, todo o esforço realizado pelo resto do mundo será insuficiente para deter a elevação da temperatura média do planeta. Alguns países, mesmo que não estejam entre os maiores poluidores, têm conseguido sucesso parcial na realização de metas ambientais. Mesmo com o total das emissões mundiais subindo 10,5%, a União Europeia reduziu em 17,4%, de 2010 a 2022, com a Alemanha, em particular, diminuindo em 20,8% as suas emissões, e o Brasil diminui os gases jogados na atmosfera em cerca de 26,6%.

O desempenho destes países mostra que é possível conter a pressão antrópica que leva ao desequilíbrio do clima com medidas que reestruturem a base econômica, promovam inovações tecnológicas e avancem na transição energética.

O futuro do planeta depende de um esforço excepcional dos países que mais poluem a atmosfera e que até agora, infelizmente, seguem elevando as emissões de gases de efeito estufa. Por isto, a proposta, liderada pelo Brasil, de mobilização de 1,3 trilhões de dólares por ano para financiar projetos ambientais em países em desenvolvimento, não terá impacto relevante, na medida em que eles têm uma participação muito pequena no total de gases jogados na atmosfera (China e Índia não são países em desenvolvimento, por mais malabarismos que se faça na conceituação). Os dólares podem ser muito úteis para que os países de menor desenvolvimento, social e economicamente vulneráveis, se adequem e se protejam dos impactos das mudanças climáticas, com pouca relevância na busca do objetivo geral de contenção da elevação da temperatura média do planeta. Não, para a redução das emissões.

Quando se fala de transição energética, apontada pela COP 30 como a grande prioridade global, o Brasil deve voltar as atenções para o sistema de transporte alimentado pelo combustível fóssil (pouco menos de 20% das emissões brasileiras). Mesmo que a exploração de petróleo tenha pouco impacto ambiental, o que tem sido questionado no projeto da Margem Equatorial, é sempre uma contradição aumentar a produção de petróleo quando se propaga a necessidade de superar a dependência do combustível fóssil.

Ao contrário do Brasil, nos quatro maiores emissores de gases de efeitos estufa, o setor energético é o grande vilão das emissões, tanto na geração de energia elétrica quanto nos transportes. A China tem investido na busca de energia renovável e na expansão da frota de veículos elétricos, atacando o principal vetor de liberação de gases de efeito estufa, liderando a produção mundial de veículos elétricos, mas o resultado é limitado, na medida em que a eletricidade que abastece os carros é oriunda de termelétricas.

Para que a COP 30 tenha algum sucesso, mais do que a definição de recursos para os fundos em negociação, é necessário que os países se comprometam com metas ousadas de redução das emissões de gases de efeito estufa. A União Europeia anunciou uma redução em 90% das emissões até 2040 (em relação aos níveis registrados em 1990). Cabe aos grandes poluidores mostrarem ao mundo que estão dispostos a assumir a responsabilidade pelo futuro da humanidade. Enquanto Trump estiver no poder, não existe qualquer expectativa de os Estados Unidos definirem metas ambientais. E dos outros? O que se pode esperar?