
Bunker
Os “bunkers” estão em alta, mas são “para quem pode”: apenas bilionários. É o que vem dizendo o noticiário, como se vivêssemos às vésperas de uma guerra nuclear, o que talvez seja verdade.
Conta uma velha e irônica anedota que Albert Einstein, questionado como seria uma terceira guerra mundial, teria respondido que não sabia dizer, mas sobre a quarta previa que seria a pau e pedra. Mas essa anedota esconde um relativo otimismo: a sobrevivência da espécie humana. Se o linguarudo Einstein estiver certo, poderemos dizer: vão-se os anéis e ficam os dedos. Dedos estropiados, é verdade, mas que agarram qualquer esperança. Só não sei se pau e pedra seriam algo útil e agradável para bilionários.
O fato é que há empresas vendendo “bunkers” de luxo, com spa, suítes, serviços médicos e outros seletos penduricalhos. Uma experiência única, deliciosa e… vital. Sim, pois é da vida que se trata. Não da vida em geral, mas da “minha vida”, que preciso salvar a todo custo! A morte fica para os pobres, a classe média e os patriotas, o que não deixa de ser uma ideia interessante. É só fazer um ótimo investimento. A guerra é “lá em cima”, para os pobres-coitados que não podem arcar com uma mansão subterrânea. Nunca foi tão bom ficar por baixo!
Eis as novas arcas de Noé. Eis a salvação possível. Quem sabe cada casal de bilionários, na calma intimidade dos “bunkers”, poderá gerar novos bilionários e assim garantir uma descendência produtiva e eterna! Disse o perfil da BBC no Instagram que a empresa Safe está construindo “mil santuários” (que santa e oportuna metáfora) em diversos países do mundo. E tudo muito seguro como já indica o próprio nome da organização: “Safe”!
Atento que sou a tendões de Aquiles, desconfio desse tão justo quanto luxuoso investimento. Pergunto-me para que “bunkers” se o dia seguinte a um embate nuclear não será dos mais amenos, devendo ser provavelmente bem nublado. Ansioso com essa imaginação meteorológica, invoquei o santo espírito da Inteligência Artificial. Eis aqui sua luminosa resposta: “O dia seguinte será marcado por destruição generalizada, radiação, tempestades de fogo, inverno nuclear, doenças e perda de tecnologia”… Bobaginhas e exageros, dirão os corretores de “bunkers” e os consultores do fim do mundo.
À vista de tal cenário, receio, talvez com uma ingenuidade mortal, que uma desejada sobrevivência poderá ser um triste desapontamento, um sonho literalmente enterrado. Mas, por favor, me entendam: não quero botar água no champanhe de ninguém. Nem se trata de inveja (do mundo abastado), pecado sobre o qual Dom Quixote deixou estas palavras imortais: “Todos os vícios, Sancho, trazem em si um não sei quê de deleite, mas o da inveja somente traz desgostos, rancores e raiva”.
Torço para que tudo termine bem e que, nas firmes portas dos “bunkers”, venham pousar, como na passagem do Gênesis, novas pombas da paz com verdes raminhos de oliveira.
Paulo Gustavo
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