
Derrota de Orban
O que mudou no tabuleiro europeu e internacional com a derrota de Victor Orban? Quem saiu perdendo foi a Rússia de Putin, quem saiu ganhando foi a Otan e por tabela o presidente Zelensky da Ucrânia. Sobrou até um pouco dessa derrota para o vice-presidente norte-americano Vance, que foi a Budapeste dar apoio a Orban, e para Donald Trump e seu MAGA. O autocrata Trump jogou no conservador anti-europeu pró-Rússia e perdeu. Para a Rússia ficou a mensagem de que os húngaros se reconhecem dentro da União Europeia.
Seria um primeiro recado para Trump, antes das eleições de novembro, nas quais os democratas poderão recuperar a maioria na Câmara e no Senado?
Até onde irão as vagas da maré alta contra o extremista de direita, homofóbico, racista e antissemita Orban, fragorosamente derrotado?
Até Paris já chegaram, encharcando o partido da extrema-direita de Marine Le Pen, e levantando uma dúvida – chegou ao fim o crescimento e expansão da extrema-direita? Orban não poderá beber uma taça de champagne com Marine Le Pen como prometera. Vai sobrar também para Milei na Argentina? Chegará também com força no Brasil diminuindo a força e expansão do populismo religioso de extrema-direita ou aqui serão só marolas?
Ainda é cedo para avaliações corretas, mas a Europa do francês Macron e do alemão Merz e da presidente da Comissão europeia, Ursula van der Leyen saiu reforçada. Orban mantinha uma duvidosa aproximação com a Rússia, sua derrota depois de 16 anos de governo, significa, como disse van der Leyen, que “a Hungria escolheu ou optou pela Europa”.
De nada adiantou a campanha governamental de Orban acusando Peter Magyar, o vencedor, como “marionete de Kiev e Bruxelas”. Mas isso tem um custo: Magyar anunciou, no seu discurso de posse, que irá suspender os programas de informação audiovisuais tão logo assuma como primeiro-ministro.
A derrota fragorosa do temido Orban, deixou claro não ser tão importante o risco de uma intervenção norte-americana nas eleições brasileiras de outubro. De nada adiantou o apoio declarado de Trump nem a presença do vice-presidente Vance às vésperas das eleições.
Se Flávio recorrer ao MAGA e ao apoio de Trump poderá ver o eleitorado brasileiro reagir como o eleitorado húngaro.
Não se pode esquecer ter havido a tentativa indireta russa de influir no voto do eleitorado húngaro. Ou seja, Putin, assim como Trump e certamente por outros motivos, preferia a vitória de Orban. Por sua vez, Orban mantinha contatos com o Kremlin, tendo sido divulgadas conversas de seus ministros com o ministro russo Sergei Lavrov.
Mas não pode também esquecer um pormenor brasileiro nessa história húngara ou magiar (lembrando o sobrenome do novo primeiro-ministro húngaro): o ex-presidente Jair Bolsonaro dormiu duas noites na embaixada húngara em Brasília, em 2024, durante o Carnaval, num ensaio de tentativa de fuga, revelado pela imprensa. Bolsonaro imaginava, nesse momento, se refugiar na embaixada da Hungria, para escapar ao processo que o levou à prisão.
Bolsonaro podia contar com o apoio de Viktor Orban, segundo o qual “a definição mais adequada de democracia cristã moderna pode ser encontrada no Brasil, não na Europa”. Quando ainda presidente, Bolsonaro visitou a Hungria em 2022, e declarou para a imprensa considerar Orban como um irmão. Realmente, ambos têm um ponto comum são próximos de Israel e Netanyahu, com uma diferença: Orban é antissemita.
O Esquerda Online, órgão do PSol, num texto publicado antes das eleições húngaras, com foto mostrando juntos Orban e Bolsonaro, tem por título Hungria: Trump e Putin unidos em defesa do fascismo.
Esse texto é duramente criticado pela extrema esquerda do POC, Partido da Causa Operária, talvez o único, no Brasil, a apoiar Orban, criticando Esquerda Online como “falência da esquerda pequeno-burguesa, que passa de armas e bagagem para o lado da democracia liberal, mais conhecida como imperialismo”.
Não tenho certeza de que as entendo, mas as perguntas lançadas pelo jornalista me parecem hiperbólicas. As consequências da vitória eleitoral, que faz de Péter Magyar o futuro Primeiro Ministro da Hungria, não vão ser tudo isso não. Até porque o país não chega a 10 milhões de habitantes. E não esquecendo que Magyar é um antigo protegé de Orban. Orban era, digamos, um “problema europeu”, porque implantou reformas que estavam enfraquecendo a democracia e a União Europeu, coisa que não se altera rapidamente. Achar que a grande diferença entre Bolsonaro e Orban é que este é “antissemita” é uma superficialidade também hiperbólica. De fato, surgiu essa afirmação de que Orban é antissemita durante sua briga com George Soros, vinda dos defensores de Soros, mas os ataques de Orban a Soros nada tinham a ver com o fato de que este é judeu. Bem que tem razão a Tábata Amaral de que estamos precisando discutir “o que é antissemitismo?” Mas não precisamos de mais lei, que a microregulação do comportamento individual neste governo já está hiperbólica também.