Trump desolado

Trump desolado

O governo brasileiro não vai recorrer à lei de reciprocidade frente ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos a um grande número produtos importados do Brasil. Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, numa disputa “olho por olho, os dois podem ficar cegos” e o Brasil sairia prejudicado no caso de uma guerra tarifária com os Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que evita o confronto externo, o governo Lula da Silva atua no plano interno para moderar os impactos do tarifaço nos setores atingidos pelas altas taxas alfandegárias. Retomando o Plano Brasil Soberano, o governo alocou agora 18,5 bilhões de reais para crédito subsidiado às empresas e setores atingidos pelo tarifaço.

A moderação do governo pode ser justificada pela fragilidade do Brasil no enfrentamento às agressões comerciais de Donald Trump, como fez a China e, em parte, a União Europeia. Será? Na contramão do senso comum que tem exaltado o comedimento do governo brasileiro, a economista Mônica de Bolle propõe uma resposta do Brasil à altura do tarifaço, explorando as vulnerabilidades dos Estados Unidos. A economista afirma que, ao isentarem mais de 2.100 setores e produtos da sobretaxa alfandegária (café, suco de laranja, celulose, ferro gusa, peças de aeronave, entre muitos outros), os Estados Unidos evidenciaram aspectos da dependência dos fornecedores brasileiros. A retirada desses setores do tarifaço era necessária, segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, para evitar a “indisponibilidade de oferta doméstica”, que provocaria inflação, e “perturbações na economia americana”.

A economista Monica de Bolle propõe que o Brasil explore a vulnerabilidade dos Estados Unidos que decorre dessa dependência de importações dos produtos brasileiros. Um terço do café, 50% do suco de laranja e cerca de 80% da celulose de fibra curta consumidos nos Estados Unidos são provenientes do Brasil. O Brasil não tem o poder da China, mas pode provocar “perturbações na economia americana” se implantar taxas sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos nos setores e produtos que foram poupados pelo governo estadunidense. Em vez de retaliar com a imposição de tarifas alfandegárias sobre os produtos importados dos Estados Unidos, que provocaria inflação no país, Monica de Bolle recomenda a imposição de taxa alfandegária às exportações precisamente dos produtos que foram isentos do tarifaço (entrevista a Daniel Buarque publicada na Bloomberg Linea).

Assim, os Estados Unidos iriam sentir a “indisponibilidade de oferta doméstica” e possíveis “perturbações na economia americana”. Poderia levar a uma escalada na guerra tarifária (olho por olho), mas provocaria pressões internas que obrigariam o arrogante e insensato presidente Trump a sentar-se à mesa para negociar e chegar a acordos comerciais favoráveis para os dois lados. Essa é a linguagem que Trump entende.

De qualquer forma, para além do conflito comercial, o tarifaço dos Estados Unidos está ocupando uma posição relevante no debate político e eleitoral do Brasil. O Secretário de Estado, Marco Rúbio, utiliza a guerra tarifária como arma eleitoral de apoio ao senador Flávio Bolsonaro, atacando o presidente Lula. E Lula aproveita para responsabilizar o adversário pela agressão dos Estados Unidos, brandindo discursos nacionalistas de forte apelo eleitoral. E la nave vá!