A direita na AL

A direita na AL

Em poucos anos, o mapa político da América do Sul mudou de forma surpreendente. As recentes vitórias de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e de Keiko Fujimori, no Peru, confirmam uma tendência observada nos últimos anos: a maior parte dos governos da região passou a ser comandada por partidos identificados com a centro-direita ou com a direita. Mais importante do que registrar essa nova configuração política é compreender por que ela ocorreu.

Durante os primeiros anos deste século, a principal preocupação dos latino-americanos era reduzir a pobreza, ampliar programas sociais e promover maior inclusão econômica. O crescimento acelerado da China e o boom das commodities forneceram recursos para que diversos governos expandissem gastos públicos e políticas redistributivas. Esse ambiente favoreceu a ascensão de partidos de esquerda e centro-esquerda em grande parte do continente.

O cenário, porém, mudou de forma significativa.

Com o fim daquele período de expansão, surgiram novos desafios. O baixo crescimento econômico, o aumento da violência, a expansão do narcotráfico, a imigração em larga escala, a deterioração fiscal e o desgaste das estruturas estatais alteraram profundamente as prioridades da sociedade.

A segurança pública voltou ao primeiro plano. O crescimento econômico recuperou protagonismo. A capacidade de resposta do Estado passou a ser cobrada com mais intensidade. Em muitos países, esses temas superaram questões que, durante anos, dominaram o debate político.

Não significa que temas como desigualdade, meio ambiente ou direitos civis tenham perdido importância. Significa que segurança, crescimento econômico, combate ao crime organizado e qualidade dos serviços públicos passaram a ocupar os primeiros lugares na escala de preocupações do eleitor.

A mudança também foi impulsionada por transformações na comunicação política e na organização social. As redes sociais reduziram o peso dos intermediários tradicionais da informação como partidos, sindicatos ou imprensa e favoreceram lideranças de perfil mais direto e personalista. Ao mesmo tempo, o crescimento das igrejas evangélicas ampliou a relevância de pautas relacionadas à família, aos costumes e à segurança no debate público. Esses fatores ajudam a compreender como a nova agenda ganhou força, mas não substituem a explicação principal: foi a mudança das prioridades dos eleitores que alterou o mapa político sul-americano.

Não é por acaso que lideranças tão diferentes entre si quanto Javier Milei, Nayib Bukele, Daniel Noboa e Keiko Fujimori tenham conseguido dialogar com parcelas expressivas do eleitorado. Eles não representam o mesmo projeto político. O ponto comum é outro: responderam, cada um à sua maneira, às novas inquietações da sociedade.

A desaceleração econômica explica parte dessa transformação, mas está longe de ser a única causa.

O avanço do crime organizado tornou-se um dos principais fatores que passaram a influenciar o comportamento eleitoral. Equador, Peru, Chile e Colômbia experimentaram deterioração significativa dos indicadores de segurança, enquanto organizações criminosas ampliaram sua influência sobre territórios, fronteiras e instituições públicas. A política de “Paz Total”, adotada pelo presidente Gustavo Petro, ilustra bem essa realidade. Os resultados ficaram muito aquém das expectativas, e a percepção de perda de controle do Estado contribuiu para modificar o comportamento do eleitorado.

Outro elemento importante foi a imigração. A crise venezuelana provocou um dos maiores deslocamentos populacionais da história recente da América Latina, pressionando mercados de trabalho, sistemas de saúde, escolas, habitação e serviços públicos. Em vários países, a questão deixou de ser apenas humanitária para tornar-se também uma preocupação política.

A esse quadro somou-se o desgaste das elites tradicionais. Escândalos de corrupção, crescimento econômico insuficiente e dificuldades para responder às novas demandas da população abriram espaço para lideranças que se apresentaram como alternativas ao sistema político estabelecido, independentemente de sua orientação ideológica.

Por isso, reduzir o momento atual a uma simples vitória da direita significa enxergar apenas parte do fenômeno.

Mais do que uma mudança ideológica, a América do Sul vive essa mudança de agenda. Os eleitores passaram a valorizar mais segurança, estabilidade econômica, controle das fronteiras, combate ao crime organizado, capacidade de gestão e respostas concretas para problemas cotidianos do que os discursos ideológicos que marcaram boa parte do debate político nas últimas décadas.

A história política latino-americana é marcada por alternâncias. E nenhuma dessas mudanças deve ser interpretada como definitiva. Seria precipitado interpretar esse movimento como uma vitória definitiva da direita ou uma derrota permanente da esquerda. O que parece evidente é que as forças políticas que pretendem governar precisarão compreender que a sociedade mudou e que respostas formuladas para os desafios do início dos anos 2000 já não dialogam, necessariamente, com as inquietações do presente.

Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição singular. Nenhum outro país sul-americano possui peso comparável em território, população, economia e influência diplomática. Por isso, a eleição presidencial de 2026 terá repercussões muito além das fronteiras nacionais.

Se a tendência observada nos últimos anos se confirmar também no Brasil, a atual configuração política da América do Sul ganhará novo impulso. A eleição presidencial de 2026 mostrará se essa mudança de prioridades também se consolidará por aqui. Mais do que definir quem governará o maior país da região, ela indicará quais projetos conseguem responder às novas demandas da sociedade. Quem conseguir dialogar com elas terá maiores chances de liderar o próximo ciclo político brasileiro.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente do Conselho de Educação da FIESP.