FHC

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A história costuma ser mais generosa do que a política. No calor das disputas, governos são julgados pelas crises do momento, pelos embates partidários e pela popularidade circunstancial. Com o passar dos anos, porém, as paixões arrefecem, os fatos ganham perspectiva e o que permanece são as transformações efetivamente produzidas. Poucos exemplos ilustram melhor esse fenômeno do que Fernando Henrique Cardoso, que completou recentemente 95 anos.

Ao deixar a Presidência, em 2003, Fernando Henrique era alvo de críticas intensas. Seus adversários atribuíam-lhe desemprego, privatizações, dependência do Fundo Monetário Internacional e dificuldades enfrentadas nos últimos anos de seu governo. Durante muito tempo, essa narrativa prevaleceu no debate político, principalmente porque o governo Lula que o sucedeu difundiu a ideia de que havia recebido uma ‘herança maldita’.

Três décadas depois do Plano Real, a percepção mudou e seu legado tornou-se mais visível. A história passou a distinguir aquilo que era disputa política daquilo que efetivamente mudou o país.

Seu maior feito foi consolidar a estabilidade monetária. Para quem viveu os anos da hiperinflação, isso jamais será um detalhe. O Plano Real devolveu previsibilidade à economia, permitiu que famílias e empresas voltassem a planejar o futuro e criou as condições para um ciclo de crescimento institucional que seria preservado por governos de diferentes orientações políticas. Algumas das políticas sociais mais importantes das décadas seguintes só se tornaram viáveis porque o país voltou a ter uma moeda estável.

Mas seu legado vai muito além da economia. Foi durante seus dois mandatos que se consolidaram instituições fundamentais para o funcionamento do Estado brasileiro, como a Lei de Responsabilidade Fiscal, as agências reguladoras e um conjunto de regras que ampliou a previsibilidade da administração pública. Reformas verdadeiramente estruturantes são justamente aquelas que sobrevivem aos seus autores.

Na educação, as contribuições também foram profundas, embora recebam menos atenção do que merecem. O fortalecimento do INEP, a consolidação do SAEB, a criação do ENEM e a implantação do FUNDEF mudaram a forma como o Brasil passou a avaliar, financiar e organizar sua educação básica. A universalização do ensino fundamental, colocando quase todas as crianças na escola, foi outro grande avanço. Muitas dessas políticas foram aperfeiçoadas por governos posteriores, o que apenas confirma sua relevância como políticas de Estado.

Existe, porém, um aspecto menos lembrado e que talvez explique parte da reavaliação histórica de Fernando Henrique: seu comportamento como homem público.

A política brasileira mudou muito nas últimas décadas. O debate tornou-se mais agressivo, a polarização mais intensa e as redes sociais passaram a estimular o confronto permanente. Nesse ambiente, características que antes pareciam apenas traços de personalidade passaram a ser vistas como virtudes institucionais.

Fernando Henrique nunca confundiu adversário com inimigo. Tratava a política como espaço de argumentação, não de destruição pessoal. Valorizava o conhecimento técnico, respeitava a imprensa, cultivava o diálogo e preservava a liturgia do cargo. Não era apenas uma questão de estilo. Era uma forma de compreender a democracia.

Fernando Henrique sabia que governos são passageiros, mas instituições permanecem. Por isso, trabalhou para construir um Estado mais previsível, fortalecer suas instituições e reafirmar a convicção de que a democracia se fortalece quando os governantes aceitam limites ao próprio poder.

Isso não significa transformar seu governo em objeto de idealização. Houve erros, limitações e decisões discutíveis, mas a história não exige unanimidade. Exige perspectiva.

As recentes notícias sobre seu estado de saúde também merecem uma breve reflexão. É natural que a sociedade acompanhe a situação de um ex-presidente da República. Menos compreensível é transformar a fragilidade de um homem de 95 anos em espetáculo. A grandeza da democracia também se revela na forma como trata aqueles que ajudaram a construir sua história.

O tempo costuma ser o juiz mais severo dos governantes. Também pode ser o mais justo. Ao completar 95 anos, Fernando Henrique Cardoso começa a ocupar um lugar cada vez mais sólido entre os presidentes que deixaram marcas duradouras na organização do Estado brasileiro. As disputas políticas pertencem ao passado. Permanecem as instituições, as reformas e o exemplo de que governar é pensar para além do próximo mandato.

Alguns líderes vencem eleições. Outros conquistam um lugar permanente na história. Fernando Henrique parece pertencer, cada vez mais, à segunda categoria.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente do Conselho de Educação da FIESP.