
Brasil e Democracia
É notório que o mundo e o Brasil têm se modificado muito no século XXI, e devem se modificar ainda mais nas próximas décadas. Algumas mudanças são novidades, enquanto outras são o aprofundamento de tendências pretéritas, que cresceram e se transformaram de configuração.
As mudanças recentes são de tal monta que muito comumente dizemos que políticos, e grande parte dos intelectuais, não compreendem o mundo atual. Particularmente em relação aos políticos e partidos de esquerda nacionais comenta-se: não entendem o Brasil contemporâneo. Quais são essas mudanças que transformaram tanto o Brasil nas últimas três décadas, perturbam tanto a compreensão das novas relações sociais, e tornaram certos comportamentos e atitudes humanas surpreendentes? Vou fazer uma abordam inicial e simples, convidando leitores e amigos a ingressarem nesta reflexão, com novos aspectos ou maior precisão.
A mudança é a marca maior da sociedade moderna, cujas origens datam do final do século XVIII. Nos séculos XIX e XX elas ocorriam na sucessão das gerações. Hoje ocorrem na mesma geração. O último quadriênio do século passado foi marcado pela aceleração das mudanças. Velocidade que gera incômodo e mal-estar aos humanos, cujos cérebros não foram preparados para tal situação. É esta velocidade que nos põe atônitos.
Os últimos 25 anos do século XX prepararam o caminho das mudanças aceleradas de hoje. Na segunda metade da década de 1975 criava-se o computador pessoal, lançando em 1981 pela IBM, e que se alastrou pelo mundo inteiro. Nessa mesma década surgiram os primeiros processadores de textos com a IBM, Microsoft e Apple. A World Wide Web (WWW), rede mundial de computadores, criada por Tim Berners-Lee em 1989, começou a se espalhar no mundo na década seguinte. O primeiro smartphone foi lançado pela IBM em 1994, na mesma década o GPS revolucionou a navegação, permitindo a localização precisa em qualquer lugar do mundo. Surgiram o Playstation e o Discman, mudando a prática do entretenimento. Em seguida, as inovações não pararam: internet das coisas, impressora 3D, automação, robotização, Inteligência Artificial etc.
Além das mudanças tecnológicas, novos fenômenos sociais chamam atenção. A concepção de família e matrimônio mudou, e o lazer também. Os jogos ganharam uma relevância antes inexistente, ao ponto de se falar de “gamificação” do mundo. Bilhões de pessoas passam mais de cinco horas em frente a telas – computador, smartphone, TV. A noção de propriedade não é a mesma. O mundo do trabalho é outro, a desindustrialização percorre o mundo, muda o papel dos sindicatos. A demografia mostra novas facetas, com a queda da natalidade e o aumento da população idosa. O Brasil deve parar de crescer demograficamente em meados deste século. A expectativa de vida é hoje mais sombria do que antes, provocando ansiedades e depressões. As mudanças climáticas, com seus eventos críticos, tiram o sono de muitos, assim como o crescimento da extrema-direita negacionista. Essa mudança climática, com seus eventos críticos mais frequentes e mais intensos, provocada sobretudo pelas atividades econômicas dos humanos, era um conhecimento de poucos na década de 1990. Basta dizer que Bill Gates, um dos maiores CEOs do mundo, conhecido por sua cultura, foi se dar conta plenamente desse fenômeno apenas em 2006, segundo suas próprias declarações em Como evitar um desastre climático (Cia das Letras, 2021), 18 anos depois que nasceu o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC).
Essas são apenas algumas das tantas mudanças que não cabem aqui arrolar. Deve-se ter presente que essas mudanças, como outras, não são isoladas. Ao contrário, estão estreitamente imbricadas entre elas, em processo de retroalimentação, para usar uma expressão cara a Edgar Morin.
É preciso ter presente que, apesar das mudanças, o Brasil conserva traços estruturais do Brasil colonial. Ainda se tem uma forte concentração de renda, desigualdades sociais, racismo e machismo. Além da corrupção endêmica nos mundos político e empresarial.
No século XXI, como se diz popularmente, o mundo virou de ponta-cabeça. Vou abordar apenas uma das grandes mudanças que modificaram a nossa forma de viver: o acesso às informações, com o consequente processo decisório. Embora sua base material resida no século passado, assumiu configurações substantivas apenas neste.
A forma como as pessoas se comunicam, acessam informações, participam do processo comunicativo, e assim tomam suas decisões, era distinta no século passado. Ao par das noticias locais (do bairro, da escola, da empresa), o acesso às notícias mais gerais era efetivado por meio das TVs, rádios e jornais. No século XXI, sofre uma mudança radical. O grau de confiança nesses veículos cai, ao mesmo tempo em que surgem as redes sociais. Estas, por sua vez, geram espaços paralelos, onde autores diversos criam conteúdos informativos, nem sempre com respaldos factuais. As informações (muitas Fake News) circulam a partir de iniciativas individuais, por vezes sem que se conheça precisamente seu autor, suas fontes e grau de veracidade, assim como suas motivações e intenções. Fechados nessas redes, grupos sociais se retroalimentam em suas opiniões e crenças. Essas redes lhes fornecem o sentimento de pertencimento e de conformidade. Com isso, renunciam a outros veículos de informação, constituindo grupos fechados, que ignoram o resto do mundo. Constroem suas próprias verdades, e desclassificam ou renegam quaisquer argumentos contrários. O relevante para seus membros é a conformidade com o grupo ou com seu líder. Toda afirmação contrária às suas crenças é inverídica. É nesses espaços que circulam o negacionismo da ciência e da democracia, os discursos anti-imigrantes e autoritários da extrema-direita, a defesa dos valores mais tradicionais e excludentes. Seus membros em grande parte negam o valor das vacinas e dos direitos humanos, negam a causa humana das mudanças climáticas e repudiam os princípios democráticos, como a separação dos poderes e a livre expressão da oposição. Seus líderes políticos, quando ascendem ao poder, como Trump nos EUA e Orban na Hungria, subjugam os tribunais, cerceiam a imprensa e perseguem, prendem e, por vezes, matam seus opositores. Colocam em risco a democracia, como ocorreu recentemente no Brasil.
A psicologia social, segundo Eliot Aronson (O animal social, editora Goya, 2023), demonstra que o comportamento de conformidade ou obediência a uma autoridade ou grupo dá-se de três formas: observância, identificação e internalização. No primeiro caso (observância) agimos de uma forma determinada em função de ameaças de punição ou premiação. Neste caso, o grau de conformidade é fraco, pois quando desaparecem os riscos de punição ou as promessas de recompensa o comportamento tende a mudar. No segundo caso (identificação), agimos de uma determinada maneira porque é a forma de sermos aceitos e reconhecidos pelo grupo ao qual aderimos, ou a que queremos pertencer. Neste caso, o grau de conformidade é mais sólido, mas tende a desaparecer no caso de o indivíduo mudar de contexto social ou de grupo de vivência. A solidez e duração da obediência ou conformidade é maior no terceiro caso, a internalização. Neste, o indivíduo age de determinada maneira porque esta é a forma correta de agir segundo suas convicções. Ele está certo de que suas crenças e atitudes são as únicas corretas e admissíveis, e todas as outras são condenáveis. Quando se casa a identificação com a internalização, constitui-se a base da formação de grupos fanáticos, como os que se suicidam com o líder, ou cumprem ordens irracionais e desumanas, como ocorreu no nazismo.
Ora, a conformidade por internalização, pelo menos no Brasil, é mais comum em grupos de extrema-direita do que em outros grupos de diapasão distinto. Notícias recentes em nossos jornais falam de pesquisas entre defensores de Lula e de Jair Bolsonaro, e mostram como os respectivos grupos são infensos a notícias que contrariem suas convicções em relação aos seus lideres. O “fanatismo” é muito maior, contudo, entre os bolsonaristas. Nessas situações, o que sustenta as convicções de cada uma das pessoas são valores, argumentos (com ou sem base empírica) e eventos emocionais. Pessoas nesta situação não mudam de posição quando um adversário mostra que seus argumentos não correspondem aos fatos. Podem dizer, graciosamente, “ele tem seus fatos e eu tenho os meus. que são os verídicos”. “Afinal, os meus fatos e argumentos estão respaldados pelos meios de comunicação que acesso, e consensuadas pelo grupo que frequento”. Ponto final.
Situações de ensimesmamento de grupos, com exclusão de exogrupos, torna o diálogo impossível. Aquele que pensa diferente é julgado como inimigo, ao inverso de adversário. Ora, no regime democrático, aquele que pensa diferente é considerado adversário, e o debate é o caminho da busca de soluções benéficas para a maioria. No regime autoritário ou ditatorial é o inverso: quem pensa diferente é um inimigo a ser abatido. Os espaços do debate ou da contestação são malvistos, e os divergentes são execrados e perseguidos. Todo discurso diferente ou desagradável é tido como abusivo e, portanto, deve ser proibido.
As pessoas, nessas situações, vivem em um mundo de certezas, de dogmas, que não podem ser contestadas. Ora, o valor da incerteza é um dos fundamentos da democracia. Como dizia Przeworski – “Ama a incerteza e serás democrático”.
Como mudar uma situação semelhante, tão adversa à boa convivência social e ao fortalecimento da democracia? Este é um enigma a ser decifrado, e que merece o máximo de atenção das ciências sociais.
* A redação desse pequeno artigo encontra-se em um pequeno texto propositivo que me enviou Sergio Buarque.
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