Globalização

Globalização

É uma grande ironia que o presidente da nação líder do capitalismo mundial seja agora o grande inimigo da globalização, acelerada integração da economia mundial num ciclo de expansão comercial sem precedentes, surfando na onda da revolução científica e tecnológica. Até o início do século passado, a globalização foi muito atacada por movimentos sociais que denunciavam, com razão, os seus impactos negativos de “destruição criativa”, para usar a expressão do economista Joseph Schumpeter. Nos anos recentes, é a extrema direita, nacionalista e xenófoba, que se vinha opondo à integração econômica e comercial, com o Brexit, na Grã-Bretanha, e os partidos eurocéticos na Europa. Mas agora, o inimigo número um da globalização é o presidente Trump, que está atacando o modelo com poderosos instrumentos protecionistas, que vão desarticular os fluxos comerciais e as cadeias globais de valor. 

No anúncio das elevadas taxas alfandegárias, Donald Trump afirmou que “por décadas, nosso país tem sido explorado por várias nações, amigas e inimigas”, países que teriam enriquecido às custas dos Estados Unidos, roubando a sua riqueza. Seria uma piada de péssimo gosto, uma encenação cínica, se não fosse acompanhada da assinatura das taxas que terão efeito devastador na economia mundial: um retorno ao protecionismo. Nem é preciso lembrar a longa história do imperialismo norte-americano explorando as riquezas das nações subdesenvolvidas, roubando, conspirando e, muitas vezes, intervindo militarmente para implantação de ditaduras que servissem aos seus interesses. Não é necessário ir tão longe, embora não se deva esquecer esta parte da história dos yankees. Ocorre que os Estados Unidos têm sido um dos maiores beneficiados pela globalização, concentrando 25% de todas as trocas internacionais, e assumindo as partes mais lucrativas das cadeias globais de valor, porque domina o conhecimento, a tecnologia, o design, o marketing e o sistema financeiro. 

Apesar da sua estreita relação com os milionários do Vale do Silício, Trump vai no caminho inverso ao da revolução tecnológica e da nova economia digital, no seu esforço para restaurar a velha economia dos Estados Unidos: indústrias siderúrgica, automobilística e petrolífera. Curioso que, para restaurar a velha economia, mesmo sem saber, Trump está copiando as velhas teses cepalinas, formuladas nos anos 50 e 60 do século passado, que defendiam o protecionismo, como um instrumento para a substituição de importações que viabilizaria a industrialização dos países da América Latina. Quem diria…

A guerra tarifária de Trump vai provocar uma retração na economia mundial e, ao contrário do que pretende, alimentar a inflação, reduzir a competitividade da economia dos Estados Unidos, e desorganizar o seu sistema econômico. Será o declínio do império norte-americano? A China agradece.