
Paris, maio de 1968
Quem nos apresentou foi Homero Fonseca, após uma conversa no Café do Paço da Alfândega, onde refletíamos com entusiasmo sobre as crises do mundo atual.
— Rapaz, vocês têm muita coisa em comum, precisam se conhecer.
E assim foi. Sérgio, à época, tinha o restaurante O Banquete, que, inspirado nos gregos, promovia encontros frequentes com intelectuais sobre os mais diversos temas relacionados à sociedade, política e economia. O restaurante não sobreviveu, mas sua curiosidade intelectual e seu desejo de pensar e refletir sobre as questões da contemporaneidade mantiveram-se firmes e persistentes.
Eu havia, nos anos noventa do século passado, criado um portal chamado Política e Democracia, para agregar intelectuais e militantes na América Latina, trocando práticas e saberes sobre os desafios da democracia no continente. O portal, assim como o restaurante de Sérgio, não foi adiante por falta de capital.
Mas Sérgio, sempre curioso, foi lá em casa e pediu para conhecer como eu organizara esse portal. Tinha os arquivos no computador, e ele navegou, interessado, tentando compreender o potencial de uma experiência de difusão de ideias pelas vias periféricas da internet.
Uma semana depois, ele veio com o projeto da Revista Será?, cujo mote cartesiano, criado por ele, era: “Penso, logo duvido”.
A partir da ideia de Sérgio, desenvolvi o design e o site, e colocamos no ar a Revista Será? Em outubro de 2012. Junto com Teresa Sales, Cláudio Marinho e Luciano Oliveira, nasceu a Será, que desde então vem, semanalmente e de forma ininterrupta, publicando artigos sobre as questões mais relevantes do mundo contemporâneo.
Em 2021, fundamos, juntamente com vários políticos e intelectuais amigos, o IEPfD — Instituto de Estudos e Pesquisas para o Fortalecimento da Democracia, um “filhote” da Revista Será?, que vem promovendo debates online com vários vídeos de qualidade em seu canal no YouTube.
Sérgio, autor do romance “Geração D”, no qual relata as lutas, inquietações intelectuais e sonhos da sua geração durante os anos de chumbo da Ditadura Militar de 1964, é também o nosso editorialista que, semanalmente, enriquece as edições da Revista Será? Com textos precisos e equilibrados. Por meio da crítica, ele nos ajuda a elucidar e identificar caminhos pela via da democracia, nesses tenebrosos e angustiantes labirintos em que a história, sorrateiramente, nos situou, com a polarização ideológica e o avanço da extrema-direita ameaçando os valores civilizatórios construídos pela humanidade, a duras penas, nos três últimos séculos.
Conceituado economista, consultor com vários trabalhos voltados ao desenvolvimento econômico, brilhante (embora deteste elogios) e inquieto intelectual, completou esta semana 80 anos.
Eu, montado nos meus 70, caminho junto com ele e com os valiosos colegas da Revista e do Instituto — alguns também octogenários — tendo-o como uma importante fonte de referência e inspiração. Sabemos todos da finitude da vida, mas não nos curvamos ao peso dos anos, que naturalmente abatem o vigor do corpo, mas não, necessariamente, o do espírito.
Lembro, diante de pessoas como Sérgio e outros ativos colegas, do grito de Gal, em 1968, cantando a música “Divino, maravilhoso”, de Caetano e Gil, no 4º Festival da Música Popular Brasileira da TV Record:
“É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte!”
Parabéns, Sérgio! Sigamos!
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Linda e merecida homenagem ao grande Sérgio! Vida longa e feliz ao amigo!
Bela homenagem, João!
Viva Sérgio!
Parabéns pelo aniversário, Sergio C. Buarque. Espero que continue sendo o bastião de racionalidade e sobriedade da revista na linha do lema que você inventou: “Penso, logo duvido”. Mais ainda em momentos meio caóticos… Quem me apresentou a Sérgio foi a revista, e quem me apresentou à revista foi Teresa Sales, e o que me atraíu mais foi o lema, que contém alguma ironia. Valeu a calorosa homenagem de João Rego com um pedacinho de história da “Será?”.
João Rego é muito generoso, e vocês, que comentaram a homenagem dele, me deixam comovido e alegre por tê-los como amigos.