Comilança

Comilança

Tempos de muita angústia. Guerras irracionais, preconceitos explícitos, destruições inconseqüentes. O mundo em polvorosa. O humano que menospreza o mundo em sua beleza. 

No nosso País, isso está se refletindo, quiçá se ampliando. Corrupção tornando-se coisa natural, descaminhos antidemocráticos, opressão e desinformação, todos os dias, o dia todo, a cada momento. Tornam-se tormento. Nos indivíduos, descrença é a palavra, desilusão também.

Todos precisam de fugas. Marx disse que a religião é o ópio do povo. Verdade. Na classe média intelectualizada não tenho dúvida que é outro. Comilança é o caminho. Aproveitando a frase de minha companheira, “Em Estado de Tristeza Macia”, nada melhor que um bom restaurante para abstrair, para fingir que nada ocorre, para, por minutos ou horas, poder se alienar.

Num período de muito recolhimento e sofrimento interior procuro esse caminho. Ainda bem que moro em Recife, opções não falta, a possibilidade de fazê-lo com qualidade nos consola. Uma semana, quatro experiências gastronômicas.

Recebo a visita de uns sobrinhos queridos. Nada melhor que apresentar o Restaurante mais antigo em funcionamento no País, o mais charmoso sem dúvida, vamos ao Leite. 

Teve uma reforma recente. Ficou mais amplo, mais bem estruturado, sem perder sua identidade, sem deixar de nos propiciar a música de fundo do piano de calda. Conhecemos alguns garçons que devem trabalhar na casa faz mais de trinta anos. Sentimo-nos a vontade.

Tem pratos fantásticos. Os bolinhos de bacalhau, a entrada inigualável, o arroz de carneiro, a pescada com legumes, o polvo a lagareiro, o ossobuco que chamamos de chambaril, tudo perfeito. Imperdíveis as sobremesas, o pastel de natas, a maravilhosa cartola, feita com banana frita, queijo manteiga, açúcar e canela. Sai-se em êxtase.

Precisava trocar algumas idéias com meu guru e filho. Ele sempre me incentiva e faz com que tenha outro olhar para a realidade. Nada melhor que um bom restaurante numa noite chuvosa. Vamos ao Burgogui aproveitar o que há de esplêndido na culinária coreana. 

Ficamos nas entradas e muito satisfeitos. Pedimos uns enroladinhos, tipo suchi, de vegetais, espetaculares, umas panquecas apimentadas e uns pasteis recheados, similares a guiozas, que chamam de Mandu. A boca se enche de sabores exóticos, o apimentado, o gengibre. 

Como acompanhamento vem Kimchi, acelga apimentada e fermentada. Nada melhor para acompanhar cerveja e chung ha, um tipo de saquê gelado. Horas se passam e nem se apercebe. Os sabores são potencializados com molhos a base de shoyu. Muito bom, noite muito prazerosa.

É a época da chuva em Recife. Domingo, como dizemos aqui, caiu um toró. Nosso costume é reunir a família na casa da filha. Não dava, água demais. Resolvemos comer massas perto de casa. 

O restaurante escolhido foi o Fabrique, na Dezessete de Agosto. Ambiente sempre agradável com atendimento de primeira. A taça de vinho branco, chardonnay, geladinha ao ponto, passando com suavidade pelas mandíbulas gustativas. 

Os pratos primorosos. Três nos foram servidos: Tornedor de filé mignon grelhado, roti de vinho tinto e fettuccine ao molho de queijo prima Donna; Camarão ao Pesto, composto por camarões grelhados, fettuccine grano duro, molho pesto com tomates cereja, manjericão e farofa crocante; Camarões grelhados com fettucine ao grano duro, salsa, molho prima donna finalizado com parmesão maçaricado. Lambendo os beiços ficamos. Tudo muito bem preparado.

Todo mês tenho um almoço. Com quem foi meu orientador de mestrado faz quarenta e cinco anos, sempre um grande companheiro, com uma grande amiga com a qual trabalho desde os idos de 1980. 

Somos tradicionalistas, não mudamos muito de local. Vamos ao Oma (avó em alemão), onde a comida e os preços são muito honestos. Uma casa agradável, um garçom muito atencioso. Tem um cardápio executivo maravilhoso. 

Uma entradinha de caponata de berinjela, uma posta de peixe com uma crosta de castanha, um arroz de gergelim, um molho de limão e queijo. De sobremesa, pavlova de morangos, com suspiros que se desmancham, um merengue espetacular, uma geléia caseira muito bem preparada e morangos frescos.  Um cafezinho e saímos como se o mundo fosse outro.

Quatro experiências que mudam o astral, que fazem esquecer as agruras que somos forçados a viver. 

Estou quase tomando uma decisão, um novo rumo na vida. Deixarei de me preocupar com a Economia e a Sociedade, virarei apreciador e degustador da alta culinária. O difícil é encontrar quem queira me financiar. Ter orçamento para tal não é fácil.