Fux

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O voto do ministro Luiz Fux, condenando apenas Mauro Cid e o general Braga Netto, trouxe surpresa e provocou reações diversas. Mas, mais do que um gesto isolado, ele reafirma a vitalidade do Estado Democrático de Direito e derruba o argumento de que o julgamento da Trama Golpista seria um teatro de “cartas marcadas”. O dissenso interno mostra que o Supremo Tribunal Federal é, de fato, uma instância plural, sujeita às contradições inerentes à justiça humana.

Essa contradição, longe de fragilizar, legitima o processo. Como em toda instituição, o STF é composto por homens que, assim como nós, carregam virtudes e imperfeições. Não é uma instância sacra, mas um órgão do Estado com a missão de aplicar a lei e garantir a vida em sociedade. Tribunais onde impera unanimidade absoluta são próprios de regimes autocráticos e totalitários; em uma democracia, a divergência é sinal de vitalidade.

Há ainda um aspecto mais profundo: a tendência humana de projetar em líderes e instituições valores idealizados, como se fossem perfeitos substitutos da figura paterna. Esse narcisismo necessário sustenta nossa constituição como sujeitos, mas nos torna vulneráveis à frustração quando a realidade não corresponde à imagem idealizada. O voto de Fux expôs justamente essa tensão — entre o desejo de coerência absoluta e a realidade contraditória da vida institucional.

No fim, o que se revela é que não existe justiça perfeita. Existe a justiça possível, capaz de lidar com as paixões, interesses e desejos humanos. Ao surpreender, o voto de Fux nos lembra de que a democracia se fortalece quando aceita a diversidade de pensamento e quando suas instituições funcionam sem unanimidades forjadas. É nesse espaço de contradições que o Estado Democrático de Direito se consolida e se estrutura, mantendo viva a esperança de uma justiça sempre em construção.