
Gilberto Freyre
Num de seus livros menos conhecidos, “A propósito de frades” (cuja importância foi destacada no ensaio “‘A Propósito de Frades’: Gilberto Freyre, Max Weber e o Franciscanismo’”, de nosso amigo o antropólogo Roberto Motta), Gilberto Freyre, numa passagem pouco lembrada, nos instiga a refletir sobre um tema sempre curioso: o das relações de escritores e artistas com a doença. Lembra-nos ele que frades e místicos, principalmente espanhóis, “louvaram a doença pelo bem que às vezes faz” ao ser humano. E cita Hildegarda de Bingen (1098–1179), monja beneditina, mística, escritora, teóloga, uma das santas mais sábias e eruditas da Igreja, que chegou a afirmar que “Deus não habita um corpo são”!…
Freyre, como se sabe, nunca foi um materialista. Encantavam-no os mistérios e as setas que apontam para a transcendência. Aliás, num modesto e já remoto ensaio, “‘Tempo morto e outros tempos’: obra viva todo o tempo”, apontei como sua escritura de certa forma nascia, como ele próprio insinuou, do mistério cristão “da palavra que se faz verbo”. Mistérios à parte, mas não apagados ou negados, Freyre, como logo veremos, nos evoca autores e artistas célebres que foram grandes enfermos.
O agnóstico Marcel Proust, um dos lembrados pelo autor de “Nordeste” e uma de suas declaradas influências, foi um desses renomados enfermos. Filho e irmão de dois médicos notáveis (Adrien e Robert Proust, respectivamente), o francês, desde menino, teve inúmeros problemas de saúde, sendo o mais grave deles uma asma, que o martirizou ao longo da vida. Não por acaso, em sua invalidez de superalérgico e asmático irrevogável, escreveu, em certo momento de “Em busca do tempo perdido”, que “O corpo é a grande ameaça que paira sobre o espírito”, sendo que, nessa frase, “espírito” não tem qualquer conotação mística ou religiosa, mas, digamos assim, tão somente um sentido mental e cultural, praticamente materialista.
Freyre, realçando que “[…] somos um estranho mundo em que os homens de gênio que mais altas e puras obras-primas têm criado têm sido, de ordinário, os prostrados pela doença […]”, logo nos fala da surdez de Beethoven, da sífilis de Schumann, da loucura de Nietzsche, dos desarranjos intestinais de Miguel Ângelo, das “furunculoses renitentes” de Marx, da epilepsia de Machado de Assis e da cegueira de Milton, anotando que deste “[…] se sabe que só depois de cego e necessitado de quem cuidasse dele como de uma criança grande, produziu suas melhores obras: inclusive o ‘Paraíso Perdido’”.
No campo da música, além dos citados Beethoven e Schumann, Freyre nos recorda o caso de Tchaikovski, que, após os 22 anos, quando teve uma doença que quase o matou, tornou-se “[…] frágil, necessitado de grandes cuidados e de longos repousos”; e o caso de Paganini, que, por ser muito doente, foi “[…] como um menino sempre próximo da morte”.
A lista prossegue: “Ibsen sofreu terrivelmente de diabete; Heine foi tuberculoso; Molière tinha os pulmões fracos e sofria de úlcera gástrica; Poe foi como Verlaine outro doente da vontade; Cervantes e Loyola só se realizaram, um como o grande místico e ao mesmo tempo homem de ação que foi, outro como o autor de Dom Quixote, depois de feridos, mutilados, doentes e necessitados de quem por algum tempo cuidasse deles como de homens que pela doença tivesse voltado a ser meninos […]”. Freyre ainda registra que “Erasmo sofria de pedras nos rins; [e] Joyce dos olhos […].
Observem que, no texto citado, esses artistas, ao serem tomados por seus males físicos, transformam-se, segundo Freyre, em eternos “meninos”. No subtexto, essa estranha “infância” os faz mais próximos da Arte, mais livres e desimpedidos para criar. Numa perspectiva um tanto mística, já sugerida pela evocação inicial de Santa Hildegarda de Bingen, o tão cristão sofrimento do corpo deixaria suas vítimas perto de poderes demiúrgicos, como num efeito de compensação.
Para Proust, essa compensação é quase nada. O protagonista e narrador Marcel, de “Em busca do tempo perdido”, discordaria de Freyre assim como discorda de seu admirado Bergotte, o escritor que tanto admira, quando este lhe diz: “Você é doente, mas não o lamento porque tem as alegrias do espírito”. Marcel ironicamente reflete: “Eu via quanto ele se enganava a meu respeito. Como havia pouco de alegria nessa lucidez estéril!”. Como quer que seja e a despeito de inúmeros gênios terem sido e serem saudáveis, o trecho freyriano, explicitamente inspirado por Thomas Mann, a quem o tema igualmente seduziu, estimula-nos a refletir sobre a passagem sempre “alquímica” do sofrimento pessoal à criação artística.
A questão é simples: o sofrimento leva à introspecção, e esta à criação artística ou literária.
A euforia é quase sempre infecunda. Mas nós outros estamos aqui para apreciar as obras de arte e da literatura.