Eleições no Chile

Eleições no Chile

Trinta e cinco anos depois da redemocratização, com a posse do presidente Patricio Aylwin, democrata-cristão (1990) apoiado por uma aliança de centro-esquerda — a Concertación — o fantasma do ditador Augusto Pinochet volta a assombrar o Chile. O primeiro turno das eleições presidenciais, realizadas no último domingo, mostrou uma contundente inclinação para a direita no país de Allende, sinalizando para um segundo turno com a provável derrota da frente político-partidária liderada pelo atual presidente Gabriel Boric.

Embora a candidata Jeannette Jara, apoiada pelo presidente Boric e reunindo todas as tendências de esquerda, tenha sido a mais votada, obteve apenas 26,8% dos votos, superando o direitista José Antonio Kast em menos de três pontos percentuais. Kast é um político de direita que costuma ressaltar “certos avanços” da ditadura de Pinochet e que, no plebiscito de 1988 — que determinou o fim do regime — fez campanha aberta pela sua manutenção. Todo o restante dos candidatos que concorreram no primeiro turno é de direita ou de extrema-direita, alguns dos quais já declararam apoio a Kast no segundo turno, incluindo Evelyn Matthei, representante da centro-direita tradicional. A direita conseguiu maioria nas duas casas do parlamento chileno, e a primeira pesquisa da UDD Citizen Panel indica que Kast, candidato do Partido Republicano, pode ter 61% dos votos contra 39% de Jara.

Com uma das economias mais estáveis e dinâmicas da América Latina e alguns dos melhores indicadores do subcontinente, os chilenos se ressentem da persistência das desigualdades sociais depois de décadas de sistema democrático e parecem assustados com o crescimento da violência e da insegurança no país. Pode parecer estranho que a segurança tenha ocupado o centro do debate eleitoral, considerando que o Chile tem uma taxa de homicídios de apenas 6 por cem mil habitantes (2024), muito abaixo do Brasil, com 20,8 por cem mil. A sensação de insegurança decorre do aumento dessa taxa em menos de dez anos, saltando de 2,3 para 6 homicídios por cem mil habitantes em 2024, acentuada por episódios de grande violência associada a imigrantes venezuelanos.

De forma semelhante à Europa e aos Estados Unidos, a imigração tornou-se um problema social e político, com os chilenos rejeitando a entrada em massa de venezuelanos (mais de 700 mil vivem atualmente no Chile), a quem responsabilizam pela crescente violência no país.

Nada como um “inimigo externo” para alavancar as bandeiras reacionárias e populistas. E embora tenha havido violência associada à gangue venezuelana Tren de Aragua, segundo a socióloga Lucía Dammert, “a maioria das pessoas presas é chilena, e a maioria das gangues também é comandada por chilenos”. Mesmo assim, o líder da direita — com grande chance de ser o futuro presidente do Chile — promete, em sua campanha, expulsar todos os imigrantes venezuelanos sem documentos e implantar o chamado “Escudo da Fronteira”, com um muro de 5 metros, trincheiras de 3 metros e cercas elétricas ao longo da divisa norte do país.

Amargo descaminho para um país que se declara “la tumba de los libres o el asilo contra la opresión” (letra do hino do Chile).