
Eleições no Chile
A eleição chilena não antecipa o que ocorrerá no Brasil em 2026, mas oferece sinais relevantes sobre o humor atual das democracias da América Latina, afetadas por uma onda disruptiva que levou a ascensão de governos de direita, após o fim da onda rosa do início do século. Bolsonaro no Brasil, Milei na Argentina, Daniel Naboa no Equador, Bukele em El Salvador foram beneficiários dessa onda. O Chile pode ser o próximo. Desde o estallido social de 2019 -a onda de protestos massivos que sacudiu o país-, o Chile vive um ciclo de instabilidade que desorganizou o centro político, corroeu a confiança nas instituições e ampliou a ansiedade social. Essa onda vitimou os partidos de centro-esquerda – Partido Socialista e Democracia Cristã – mas também o partido tradicional da direita democrática que por duas vezes elegeu Sebastián Piñera presidente chileno.
Em 2021 essa energia levou à eleição de Gabriel Boric, um jovem proveniente dos movimentos estudantis. Agora produziu um segundo turno entre José Antonio Kast, da direita radical, e Jeanette Jara, do Partido Comunista. Kast surge como franco favorito uma vez que a soma dos votos da direita e centro-direita supera 70% dos votos válidos.
O primeiro recado -diretamente ligado ao ambiente que moldará a eleição brasileira- é a segurança como grande preocupação da população. A sensação de descontrole tornou-se o eixo do debate chileno, alimentada pelo avanço do narcotráfico, pelos casos de violência extrema e pela imigração irregular. Os chilenos não se moveram pela ideologia dos dois contendores, prevaleceu o desejo de recuperar previsibilidade na vida cotidiana. Em contextos tensos, candidatos que prometem restabelecer a ordem largam na frente.
Esse fenômeno não é exclusivo do Chile. A ascensão de forças de direita nos Estados Unidos, Itália, França, Alemanha, Holanda, Suécia e Argentina indica um pêndulo internacional que se move para respostas mais rígidas em temas como segurança, fronteiras e identidade nacional. Democracias pressionadas avançam menos por convicção ideológica e mais pela busca de estabilidade. O Brasil votará dentro desse clima e a repercussão do recente episódio onde morreram mais de cem criminosos no RJ é um indicador deste clima.
Desde já, a disputa presidencial do ano que vem contaminou o debate sobre a segurança, reproduzindo a polarização que tem ditado a política brasileira, desde 2018. Em vez de buscarem um patamar comum para enfrentar os graves problemas da segurança, como a recuperação do território sobre o controle do narcotráfico, o bolsonarismo e o petismo se digladiam e não convergem em quase nada, com olho em 2026.
O segundo recado é a erosão do centro político. Durante três décadas, a Concertación foi o eixo estabilizador do Chile, combinando reformas econômicas com ampliação de direitos. Esse arranjo se rompeu após 2019. Sem um polo moderador capaz de organizar consensos, extremos ocuparam o espaço vazio. O Brasil conhece essa dinâmica. Desde 2014, a disputa nacional estreitou o campo da moderação, empurrado para a irrelevância por polos ruidosos e organizados. Se o centro não reconstruir uma identidade, projeto nacional e uma liderança de apelo popular, corre o risco de repetir o esvaziamento chileno.
Há também uma lição sobre governabilidade. A coalizão de centro-esquerda chilena entregou sua candidatura ao Partido Comunista, cuja identidade histórica limita o diálogo com segmentos moderados. Com isso, ofereceu à direita o contraste entre “ordem” e “radicalismo”. Em ambientes polarizados, hegemonias partidárias estreitas reduzem a capacidade de formar maiorias.
No Brasil, alianças excessivamente fechadas — à direita ou à esquerda — podem produzir o mesmo efeito. Projetos vitoriosos exigem amplitude política, não apenas convicções programáticas. Dificilmente o “centro” se reorganizará a tempo, em condições de ofertar ao Brasil uma candidatura que rompa a camisa de força da polarização estéril. Nem por isso pode-se abrir mão de se construir um campo estabilizador da democracia brasileira, papel que o MDB desempenhou na resistência democrática e o PSDB por um bom período.
Outro ensinamento vem da rejeição sucessiva das duas Constituintes chilenas. A sociedade sinalizou esgotamento com reformas de largo alcance e com processos institucionais complexos. Busca normalidade, não refundação. A dupla derrota dos textos constitucionais revela fadiga com promessas disruptivas e reforça a demanda por estabilidade. É um ponto que interessa ao Brasil, onde discursos com promessas mirabolantes continuam presentes em diferentes espectros.
Por fim, talvez o recado mais importante: sociedades cansadas passam a valorizar a competência de governar. A experiência chilena mostra que promessas de transformação sustentadas apenas por mobilização inicial não resistem à dificuldade de entregar resultados. A frustração com o processo constituinte e com limitações administrativas do governo Boric pesou de forma decisiva. No Brasil, cresce a expectativa por clareza de rumos, capacidade de gestão, organização do Estado e previsibilidade — critérios que tendem a pesar no cálculo do eleitor médio.
O Chile não determina o Brasil. Mas ajuda a ler o ambiente político que se aproxima. Em democracias que buscam maturidade institucional, propostas percebidas como arriscadas perdem fôlego, enquanto projetos que oferecem estabilidade ganham terreno. Cabe aos protagonistas da eleição brasileira interpretar esses sinais — não como profecias, mas como advertências de um tempo em que o eleitor parece demandar menos rupturas e mais capacidade efetiva de governar. O Brasil não precisa repetir o Chile — mas faria bem em aprender com ele.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice presidente da Câmara Brasileira do Livro.
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