Paulo Freire - painting

Paulo Freire – painting

Energia, aviação, saúde e agronegócio revelam um país com ilhas de excelência, tecnologicamente sofisticado, que permanece ausente na formação das novas gerações.

O debate educacional brasileiro costuma concentrar-se, legitimamente, em déficits: aprendizagem insuficiente, desigualdades persistentes, infraestrutura escolar limitada e desafios recorrentes na formação docente. São problemas reais e incontornáveis. Menos frequente, porém, é uma pergunta igualmente decisiva: até que ponto a escola brasileira ajuda os estudantes a compreender o país que produz riqueza, ciência e tecnologia em escala global.

O Brasil não sofre apenas de déficits educacionais; sofre também de desconhecimento sobre si mesmo. Talvez parte do desafio brasileiro resida no fato de que ainda ensinamos às novas gerações uma imagem incompleta do próprio país. Persiste entre nós a narrativa de que o país seria essencialmente atrasado, exportador de commodities e dependente de inovação estrangeira.

 A imagem contém parte da verdade e tem muito a ver com o modelo de desenvolvimento brasileiro, pautado no protecionismo a uma indústria que se instalou no país como substitutiva das importações. Mas  há outra o dimensão igualmente relevante: nas últimas décadas, o Brasil construiu competências tecnológicas sofisticadas em setores situados na fronteira do conhecimento contemporâneo. Assim, o país combina baixa produtividade média com núcleos tecnológicos altamente sofisticados; o desafio nacional é ampliar e difundir essas capacidades. E a realidade produtiva e científica raramente se converte em referência formativa para os nossos estudantes.

Essa coexistência de excelência tecnológica com baixa produtividade média constitui, aliás, um dos principais paradoxos da economia brasileira. O país produziu ilhas de inovação altamente competitivas, mas ainda enfrenta dificuldades históricas para difundir conhecimento, elevar a qualificação média da força de trabalho e ampliar a produtividade em escala sistêmica.

A exploração de petróleo em águas profundas é um exemplo eloquente. O pré-sal brasileiro constitui uma das operações industriais mais complexas do mundo. Milhões de barris são produzidos diariamente a partir de reservas localizadas a milhares de metros abaixo do nível do mar, em condições geológicas extremas. Essa capacidade resulta de décadas de investimento em engenharia, pesquisa aplicada e formação científica nacional, envolvendo universidades, centros de pesquisa e empresas que constituíram um dos ecossistemas tecnológicos mais sofisticados do país.

Na indústria aeronáutica, a Embraer consolidou o Brasil entre o restrito grupo de países capazes de dominar integralmente o ciclo de desenvolvimento de aeronaves comerciais. Cada aeronave produzida sintetiza milhares de horas de engenharia, integração digital, certificação internacional e conhecimento acumulado ao longo de décadas.

Na área da saúde, instituições como a Fiocruz e o Instituto Butantan demonstraram, especialmente durante a pandemia, a capacidade nacional de estruturar redes científicas complexas, produzir imunizantes e responder a emergências sanitárias em escala continental, articulando ciência biomédica, inovação tecnológica e políticas públicas.

O agronegócio brasileiro talvez seja o exemplo mais expressivo dessa transformação. Frequentemente associado apenas à produção extensiva, o setor tornou-se um dos ambientes mais intensivos em ciência aplicada do planeta. Representa, hoje o principal segmento da economia com ganhos de produtividade e  inserido de forma competitiva nas cadeias produtivas globais. A pujança do agro provocou a “urbanização do interior” e provoca modificações significativas na identidade dos brasileiros, a ponto de a música sertaneja ser hoje a mais ouvida em todo o país, mesmo nos seus grandes aglomerados urbanos.

Quando se aponta  a necessidade da reindustrialização do Brasil para que ele agregue valor nas suas exportações e se insira nas cadeias produtivas de ponta de forma competitiva, há que se pensar de onde virá a acumulação capitalista para dar esse salto de qualidade. Hoje, o grande setor da economia brasileira  que pode gerar  o excedente de capital necessário para o financiamento da reindustrialização é o agronegócio. Em certo sentido, isto aconteceu nos primórdios da industrialização brasileira, que foi financiada pelo excedente de capital gerado pela lavoura cafeeira.

Grande parte dessa transformação decorre de décadas de pesquisa científica tropical conduzida por instituições como a Embrapa e universidades públicas, responsáveis por adaptar biotecnologias e sistemas produtivos às condições ambientais brasileiras.

Agricultura de precisão, genética tropical, biotecnologia e sistemas avançados de manejo permitiram que o país seja hoje o maior exportador mundial de soja, café, açúcar, suco de laranja e carnes, além de um dos principais produtores globais de milho, algodão e proteínas animais. Estima-se que a produção agropecuária brasileira contribua para alimentar mais de um bilhão de pessoas no mundo, desempenhando papel estratégico na segurança alimentar internacional. O agronegócio responde por cerca de um quarto do PIB brasileiro, por quase metade das exportações nacionais e por milhões de empregos diretos e indiretos ao longo de cadeias produtivas altamente sofisticadas.

Essa distância entre o país que produz e o país que ensinamos torna-se ainda mais visível quando observamos a inserção internacional do Brasil. A China consolidou-se como principal parceiro comercial brasileiro, absorvendo predominantemente exportações baseadas em alimentos, energia e minerais. Já o comércio com os Estados Unidos, terceiro maior parceiro comercial do país, apresenta perfil distinto, concentrando maior participação de bens industrializados e produtos de elevada intensidade tecnológica, tanto nas exportações quanto nas importações. A comparação evidencia uma característica fundamental da economia contemporânea: prosperidade duradoura depende da capacidade de transformar recursos naturais em conhecimento aplicado, tecnologia e inovação.

Um exemplo ajuda a compreender esse salto. Um quilo de carne suína possui valor limitado como commodity. Quando, porém, tecidos biológicos são processados por cadeias avançadas de pesquisa e bioengenharia e transformados em uma válvula aórtica capaz de salvar vidas, o valor econômico e social se multiplica exponencialmente. O que antes era apenas matéria-prima torna-se tecnologia médica, inovação industrial e preservação da própria vida humana. E o Brasil já demonstrou possuir capacidade científica e industrial para realizar essa transformação.

É precisamente aqui que emerge uma lacuna educacional pouco discutida. A escola brasileira ensina ciência, mas raramente apresenta aos estudantes a ciência produzida no próprio país. Ensina tecnologia frequentemente dissociada das realizações nacionais. Forma jovens que dominam conceitos abstratos, mas que muitas vezes desconhecem as cadeias de conhecimento, engenharia e trabalho qualificado que sustentam a economia em que vivem. Essa lacuna não se limita ao ambiente escolar. Em diferentes momentos do debate público brasileiro, também se reproduz uma visão incompleta do país, que ora subestima suas capacidades tecnológicas, ora superestima soluções imediatas para desafios estruturais, entre elas a baixa produtividade média, a desigual difusão tecnológica e um histórico de industrialização pouco integrado às cadeias globais de inovação.

Países que consolidaram trajetórias tecnológicas bem-sucedidas incorporaram à educação básica a compreensão de como energia é produzida, como alimentos são cultivados, como aeronaves são projetadas, como medicamentos são desenvolvidos e como inovação se converte em bem-estar coletivo. Não se trata de orientar currículos por interesses econômicos, nem de substituir pensamento crítico por celebração produtiva. Trata-se de permitir que estudantes compreendam o funcionamento real da sociedade em que vivem e reconheçam que ciência, engenharia e conhecimento aplicado constituem caminhos concretos de transformação social.

Isso exige fortalecer o ensino de matemática e ciências, ampliar a educação técnica e profissional e cultivar, desde a escola básica, uma cultura de inovação capaz de aproximar o aprendizado escolar das cadeias tecnológicas e produtivas que estruturam o desenvolvimento contemporâneo.

O Brasil já demonstrou ser capaz de operar simultaneamente em dois mundos econômicos, o da escala produtiva e o da inovação tecnológica, ainda que essa capacidade permaneça concentrada em setores específicos.

O desafio agora é educacional: formar gerações capazes de compreender e transitar entre ambos, ampliando horizontes profissionais, fortalecendo a confiança científica e conectando educação e desenvolvimento nacional.

Compreender o país que produz, pesquisa e inova é condição essencial para que o Brasil deixe de ser apenas fornecedor de recursos e avance na construção de uma verdadeira sociedade do conhecimento.

_________________________________

Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação e vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro.