Bed of Procrustes by Sorin Ilfoveanu

Bed of Procrustes by Sorin Ilfoveanu

Nossa Câmara de Deputados vem de cometer algo que comentaristas de renome consideram uma ignomínia.  Em sessão convocada às pressas, e, segundo o jargão, “nas caladas da noite”, aprovou uma anistia disfarçada aos condenados pelo STF em longo e rigoroso processo legal, pela tentativa de golpe de Estado contra as instituições democráticas brasileiras. Pois outra coisa não é uma dosimetria – atribuição secundária dos ministros que julgaram os criminosos – dirigida a um elenco diferenciado de infratores, envolvendo até o tempo das etapas de prisão: fechada, aberta, domiciliar, etc.  Um verdadeiro “monstrengo legislativo”, segundo um desses sóbrios analistas.

E como se fosse pouco, nossos deputados simplesmente descumpriram a determinação do STF de cassar o mandato de uma parlamentar condenada a dez anos de prisão, foragida, presa na Itália, e submetida a processo de extradição. Na mesma sessão ignominiosa.

E agora? No caso da deputada delinquente, é difícil saber como reagirá a nossa Corte Máxima diante de tal confronto entre Poderes da República. No outro, O Senado pode ter uma atitude mais digna, como fez no evento da “blindagem dos deputados”, rejeitando o projeto de lei. O Presidente da República também pode vetar a lei, se passar no Senado. E o próprio STF pode declarar a inconstitucionalidade do “monstrengo legislativo”.

Um dos comentaristas acima citados, sobre o tal monstrengo, recorre à fábula grega de Procusto, que oferecia seu próprio leito aos hóspedes, mas impunha que a ele se ajustassem com perfeição: se mais compridos, cortava-lhes as pernas, se menores, esticava-os até chegar à medida necessária. Pelas características da tal dosimetria – a anistia mal disfarçada – a imagem do “leito de Procusto” é perfeita.