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Há momentos na história em que uma frase política deixa de ser apenas uma frase e se transforma em uma fissura. Não um gesto diplomático, não mais uma declaração no ruído constante do poder, mas uma fresta por onde começa a infiltrar-se outra possibilidade de mundo. As palavras de Luiz Inácio Lula da Silva pertencem a essa rara linhagem.

Não é apenas o que ele diz, mas de onde ele diz. Um presidente latino-americano —de um país que durante décadas foi educado na prudência geopolítica, na obediência elegante, na arte de não incomodar o Norte— decide nomear o inominável: que a ordem internacional não é neutra, que a guerra não é um acidente, que a dependência tampouco o é.

Quando Lula afirma que não receberão instruções de Donald Trump, ele rompe uma coreografia longamente ensaiada. Mas quando vai além —quando interpela os países árabes e lhes diz que não precisam desse poder que historicamente os tutelou— o que faz é ainda mais inquietante: desloca o centro de gravidade do mundo.

Durante décadas, o relato dominante foi um só. Falava-se de estabilidade, de segurança, de alianças estratégicas, enquanto o Oriente Médio ardia em ciclos repetidos de conflito. Falava-se de democracia, enquanto interesses eram assegurados. Falava-se de cooperação, enquanto a dependência era administrada.

Lula, ao contrário, nomeia outra coisa: a possibilidade de que os países deixem de orbitar em torno de um único eixo.

E é aí que sua declaração deixa de ser incômoda para se tornar histórica.

Porque o que se abre não é apenas uma disputa entre governos, mas uma pergunta mais profunda: estamos assistindo ao desgaste definitivo do modelo unipolar que emergiu após a queda do Muro de Berlim? Estamos vendo, enfim, a transição para um mundo onde o poder se distribua, se negocie, se equilibre?

A ideia de multipolaridade foi durante anos uma hipótese —às vezes um desejo, outras uma ameaça. Mas poucas vezes foi enunciada com tanta clareza a partir do Sul global. E menos ainda com uma interpelação direta a regiões que foram cenário —e espólio— das grandes disputas imperiais.

Não se trata de idealizar. A história ensina que nenhum poder é inocente, que toda potência, em algum momento, sucumbe à tentação de impor sua vontade. Mas também ensina que os equilíbrios importam. Que um mundo com vários centros de poder, imperfeitos e tensionados, costuma ser menos propenso à arbitrariedade absoluta do que um regido por uma única voz.

Nesse sentido, o que Lula sugere —talvez sem dizê-lo explicitamente— é uma forma distinta de dignidade internacional: a dos países que negociam sem se ajoelhar, a das regiões que decidem sem pedir permissão.

E por isso sua mensagem ressoa para além do Brasil, para além da América Latina. Ressoa nos desertos e nas cidades do Oriente Médio, mas também na África, na Ásia, em todos aqueles territórios onde a soberania foi, demasiadas vezes, uma palavra condicionada.

É este o começo do fim do império norte-americano? Talvez seja cedo demais para afirmá-lo com certeza. Os impérios não caem com declarações, mas com processos longos, contraditórios, por vezes invisíveis. Mas podemos dizer isto: algo está se movendo.

E quando o que se move é a própria ideia de quem tem o direito de decidir o destino do mundo, então já não estamos diante de uma anedota diplomática. Estamos diante de uma mudança de época.

Talvez, dentro de alguns anos, estas palavras sejam lidas como aquilo que hoje apenas intuímos: não uma ruptura total, mas um ponto de inflexão. Um momento em que alguém, a partir do Sul, ousou dizer em voz alta que o mundo poderia se organizar de outra maneira.

E que talvez —apenas talvez— já tivesse chegado a hora de tentar.