
Ormuz
“Exatamente o errado para uma grande crise” informam dois jornalistas de economia no semanário alemão “Der Spiegel” (29/04/2026). E depois do título, o subtítulo, sobre uma grande foto do próximo Presidente do Fed prestando juramento no Senado em Washington: “Com Kevin Warsh o Presidente dos EUA Donald Trump obtém um presidente de banco central a seu gosto. Os especialistas do ramo estão horrorizados.” Será exagero do pessoal lá de Hamburgo? Não foram só eles que soaram o alarma.
Mas… e a taxa de juros do Fed? Vai subir? Vai ficar inalterada? Quando vai cair? As decisões do FOMC (Federal Open Market Committee), como ficam? Pois o Presidente do Fed costuma ser também o presidente do FOMC com seus 12 membros votantes que tomam a decisão sobre a taxa de juros. De fato, para além das incertezas da economia, é grande a confusão que Trump está armando em torno do Fed, o Federal Reserve. E como é o banco central mais importante do mundo, modelo para muitos outros bancos centrais, está preocupando autoridades econômicas e economistas mundo afora.
A controvérsia, ou a briga, quase luta de facão no escuro, do Presidente dos Estados Unidos Donald Trump contra o Presidente do Fed Jerome Powell – começou mais cedo. Já desde o 1º mandato, Trump usava termos como “maluco”, “cabeça dura”, “covarde” em relação ao Fed. Insistindo em maiores cortes de juros, até já chamou Jay Powell de “inimigo”, numa comparação com a China. Powell e outros banqueiros centrais, aparentemente, não se importam com críticas verbais. É parte do jogo – digamos.
Em janeiro deste ano, contudo, o Presidente do Fed, em comunicado formal e público no site do banco, acusou o Presidente dos Estados Unidos de usar uma investigação criminal para forçar o banco central a baixar a taxa de juros. Powell repreendeu a investigação, que considerou um pretexto, e refutou as alegações sobre custos de uma reforma da sede do Fed, e que “permaneceria firme diante das ameaças”. A repercussão desse vídeo de uns 2 minutos foi grande. Uma carta/declaração de apoio a Powell foi publicada em 12 de janeiro com a assinatura de dezenas de economistas. Não quaisquer economistas, mas todos os ex-presidentes do Fed (nomes como Janet Yellen, Ben Bernanke, Allan Greenspan), ex-Secretários do Tesouro (como Timothy Geithner e Lawrence Summers), antigos funcionários do Fed e dos Bancos de Reserva regionais, ex-economistas da Casa Branca, economistas de renome do mundo acadêmico. Essa declaração (“Statement on the Federal Reserve”), amplamente divulgada nas seções de economia dos jornais e nas agências de notícias, defende Jay Powell, considera a investigação do Departamento de Justiça uma “tentativa sem precedentes” de minar o Banco Central e sua capacidade de cumprir suas funções, avalia como algo típico de “mercados emergentes com instituições fracas”.
Na sua última conferência de imprensa como Presidente do Fed, Jay Powell reiterou seu protesto. Extraio ipsis litteris da transcrição da conferência de imprensa após a última reunião do FOMC com Powell como Presidente. Como de praxe, começa resumindo o panorama econômico e os fatos e análise que levaram o FOMC à decisão de manter inalterada a taxa de juros, assim como o comunicado que saiu sem sinalizar para o futuro nem aumento nem diminuição da taxa. (federalreserve.gov FOMC Press Conference April 29,2026) Mas logo à primeira pergunta, e insistência, de um dos jornalistas do canal CNBC especializado em economia e finanças, Powell é obrigado a voltar ao tema da independência do Fed. O jornalista, que já foi do Wall Street Journal e cobre o Fed há muito tempo, queria saber por que Powell se decidira a permanecer no Conselho de Governadores do Fed depois de 15 de maio, quando termina seu mandato de Presidente. Transcrevo partes da resposta: “… minha preocupação é na verdade com a série de ataques ao Fed que ameaçam nossa capacidade de conduzir política monetária”… “nada a ver com críticas verbais por funcionários eleitos… jamais sugeri que tal crítica verbal é um problema para nós. Mas esses processos legais da Administração são sem precedentes em nossos 113 anos de história, e há ameaças de mais ações desse tipo.” …”esses ataques estão golpeando a instituição e colocando em risco o que de fato interessa ao público, a capacidade de conduzir política monetária sem levar em consideração fatores políticos.”… “que o banco central opere dessa forma, livre de influência política” “é parte do fundamento absoluto da admirável economia que temos”…“que o Fed permaneça capaz de conduzir política monetária sem ser envolvido na política, tentando ajudar ou prejudicar qualquer político ou partido político em particular.”
Powell manterá seu assento no Conselho de Governadores do Fed (o “Board of Governors” de sete membros nomeados com mandatos fixos de forma alternada), como disse, “enquanto julgar apropriado”, “até que realmente termine, com transparência e propósito” a investigação criminal contra o Fed. Pode permanecer membro do Conselho de Governadores até janeiro de 2028, quando expira seu mandato. O Departamento de Justiça suspendeu essa investigação, que isso foi condição para que o Senado prosseguisse no processo de aprovação do novo Presidente do Fed, mas a ameaça persiste.
Kevin Warsh foi sabatinado no Comitê Bancário do Senado, que aprovou sua indicação no último 29 de abril, por 13 a 11. E o Senado deve aprovar a indicação antes de 15 de maio. Powell saudou Warsh por sua indicação e garante que ajudará o novo Presidente, com absoluto respeito ao cargo particularmente difícil no momento, na tarefa de formar consensos para que o Fed cumpra seu duplo mandato de “máximo emprego e preços estáveis para o povo americano”.
Já a leitura dos sinais que saem da economia continuará difícil. Importa mais para as decisões conjuntas do Fed do que tentar adivinhar, por suas falas no Senado, a posição de Warsh. Entre os que votaram contra a sua indicação no Comitê Bancário do Senado, uma senadora expressou temor de que se transforme em “marionete do Presidente”. Por ora, algum exagero. Warsh defendeu a independência do BC, e refutou a afirmação de Trump de que teria prometido baixar juros para ser indicado. Quando um senador democrata lhe perguntou que nota daria à economia americana, como docente na Universidade de Stanford, se nota A, a mais alta, como Trump, Warsh não pestanejou: ”Se eu desse a um estudante uma nota diferente de A, seria convocado ao gabinete do Reitor”.
Por ora, os argumentos do Fed foram em favor de “jogar parado”, nem alterou juros (ficaram em 3,5%-3,75%), nem mexeu na sinalização (ainda que 3 dos 12 membros do FOMC, mesmo tendo votado a favor da taxa de juros, tenham votado contra o comunicado por considerar que tinha viés de baixa). Os vários índices davam uma inflação de 3,5% nos 12 meses até março 2026. Retirando, segundo a praxe do Fed, os preços mais voláteis de alimentação e energia, dava 3,2%, o que é alto e acima da meta de longo prazo de 2%.
Longe dessa conferência de imprensa, as discussões estão muito mais acaloradas sobre aumentos de preços e diminuição do poder de compra. E desde então o preço da gasolina nos Estados Unidos aumentou mais, e os estoques de petróleo e derivados continuam em queda no mundo todo, queda que se acelerou em abril. Mesmo que os Estados Unidos consigam aumentar a oferta de “shale”, isso pode levar vários meses. Todos os especialistas do mercado de energia concordam na previsão de que o choque de oferta de energia dos últimos dois meses vai ficar pior antes que possa encontrar um equilíbrio.
Mas no FOMC analisaram os dados até março, e o presidente do Fed, embora reconhecendo o aumento de preços derivado de choques de oferta como as tarifas e a crise de energia, continuava expressando a esperança de que a guerra do Irã fosse, para o conjunto da economia americana, apenas mais um choque de oferta com impacto na inflação de curto prazo. Sim, a linguagem de economistas às vezes soa engraçada por sua “distância observadora”, como se a guerra do Irã fosse apenas uma questão de alguns milhões de barris/dia. Mas no FOMC leram dos dados que o consumo nos Estados Unidos era resiliente e que os indícios eram de que a atividade econômica continuava crescendo, mesmo com a queda no setor de habitação. O desemprego está baixo, em 4,3% em março, e mais ou menos estável há meses, mas sem criação de novos empregos.
Nisso parece não existir grande polêmica: o desemprego permanece baixo porque a oferta de trabalho caiu, diminuiu a imigração e a taxa de participação da força de trabalho, mas a demanda de trabalho também enfraqueceu nitidamente. Ainda assim, todas as incertezas sobre a duração da interrupção da navegação no estreito de Ormuz, além da incerteza explicitada sobre quando e em quantos virão os efeitos de segunda ordem sobre os demais preços, indicavam, isso sim, que deveria ter havido um viés de alta, ao menos uma leve insinuação de que a taxa de juros poderia aumentar na próxima reunião do FOMC. A economia está refém da geopolítica. Cada dia que passa está mais difícil imaginar que o aumento do preço do petróleo terá efeito apenas na inflação de curto prazo na economia dos Estados Unidos.
06/05/2026
Muito bom!