
Big brother
Na política, o dito quase sempre se adianta ao feito. Quando isso ocorre, a comunicação deixa de ser mera moldura e passa ao primeiro plano. É o que se vê hoje com o fortalecimento do papel da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Em vários temas, cresce a sensação de descompasso entre o que se anuncia e o que a realidade devolve. Esse mal-estar não é apenas intuitivo: pesquisas recentes indicam que, para cerca de metade da população, a vida pouco melhorou. Nesse contexto, a Secom, comandada pelo marqueteiro Sidônio Palmeira, torna-se a vitrine do governo. Sidônio chegou ao cargo com capital político reconhecido — foi o coordenador da campanha vitoriosa do atual presidente em 2022 —, mas ocupa uma posição de alta exposição e desgaste. Sua equipe administra o generoso orçamento da Secretaria, superior a R$ 800 milhões, o maior da década, para reduzir ruídos, destacar resultados, calibrar expectativas e apresentar a continuidade como um horizonte desejável.
Neste ano eleitoral, com a pressa em alta e o cobertor fiscal no limite, a paciência com promessas encolhe. Some-se a isso o desafio de operar a máquina pública, com ritos burocráticos, prazos e coordenação interministerial. Nesse terreno, a comunicação pesa, mas não substitui a rotina administrativa, sobretudo em um governo com 39 ministérios. Ainda assim, a exigência por entregas cresce, e a Secom é instada a dizer ao contribuinte-eleitor — e a convencê-lo disso — que muito foi feito. Como a busca por popularidade orienta muitas coisas no Planalto, a tentação de anunciar antes de concluir torna-se quase irresistível.
É preciso separar as coisas, porque elas costumam vir embaralhadas. Comunicação governamental não é marketing, ao menos no sentido raso da palavra. É também governança: informar, orientar, prestar contas e organizar a relação do Estado com o cidadão. O desvio começa quando essa função tenta suprir déficits de execução antecipando entregas que ainda não se materializaram. A linha é tênue e o erro custa caro. Comunicar cedo demais infla expectativas; comunicar tarde demais abre espaço para desinformação e versões concorrentes.
O problema aparece até quando há ação concreta. Em 2025, por exemplo, o governo voltou a destacar o Novo PAC como eixo estruturante de investimento e anunciou uma nova etapa com R$ 49,1 bilhões para estados e municípios. Ainda assim, pesquisas internas divulgadas na imprensa registraram que o programa seguia pouco conhecido pela população. O caso é ilustrativo: uma política pode existir, mobilizar recursos e, ainda assim, fracassar em tornar claro para o público o seu alcance.
O descompasso entre ação e percepção se agrava em um ambiente político mais áspero. Há, hoje, um espírito do tempo conflituoso que sufoca a tolerância com o adversário. A polarização fragmenta o debate e substitui a argumentação por narrativas chulas do “nós contra eles”. Não pode haver convencimento quando os lados estão entrincheirados em respostas prontas. Nesse quadro, as políticas públicas deixam de ser avaliadas por seus desenhos técnicos e pela consistência de seus efeitos. O risco, nesse ambiente de governança por espasmos, é trocar critérios estáveis por respostas ao noticiário do dia. Com essa pressão cotidiana, os problemas estruturais ficam ainda mais evidentes. Aí entram problemas que atravessam governos, como: carência de planejamento, descontinuidade administrativa, serviços públicos de baixa qualidade, falhas de articulação federativa e entraves regulatórios.
Não há projeto de amplitude nacional que dispense uma estreita coordenação entre União, estados e municípios. Na educação, a retomada de obras escolares pelo FNDE avançou com centenas de repactuações aprovadas em 2024, mas parte dos resultados esperados ainda depende de laudos, documentações, cronogramas físico-financeiros e relatórios de acompanhamento executivo. Na saúde, a cobertura vacinal mostra outro lado do mesmo desafio. Houve melhora em 15 das 16 vacinas infantis em 2024, segundo o Ministério da Saúde, mas o Anuário Vacina Brasil registra que nenhuma delas havia atingido a meta em todos os estados e que persistem desigualdades importantes entre regiões. Reduzir as filas recordes do INSS, por sua vez, depende de pessoal especializado, informatização e condições locais de atendimento. No SUS, em 2024, o tempo médio de espera por consulta chegou a 57 dias, o maior da série histórica.
O setor de segurança pública também oferece um eloquente exemplo da distância entre concepção, anúncio e resultado. Um sistema de informações integradas para a segurança pública sequer foi formalizado em meio a uma inadequada cooperação entre as partes envolvidas – os três Poderes e instâncias federativas – que não chegaram a um consenso sobre como compartilhar dados no campo da inteligência e da investigação.
Na área de infraestrutura de transportes, é gigantesca a lacuna entre a definição de metas e a disponibilização dos meios para viabilizá-las. Grande parte das obras estratégicas para o futuro do país, sobretudo as ligadas à logística, depende de extensas cadeias de implementação, que podem envolver agências, ministérios, grandes empreiteiras, governos estaduais e prefeituras. Nessa longa travessia são frequentes ocorrências de atrasos no projeto de engenharia, demora na obtenção de licenças, restrições orçamentárias, descumprimento do cronograma de desembolso, falhas de fiscalização e irregularidades de pagamentos. A Transnordestina e a Transposição de águas do rio São Francisco são casos emblemáticos de sucessivos anúncios e adiamentos. Um diagnóstico do TCU mostrou que, em 2024, havia 11.941 obras financiadas com recursos federais paralisadas — 52% das contratações vigentes.
É indispensável uma comunicação com mais objetividade e menos frases de efeito para o cidadão poder verificar corretamente o que o governo diz que fez e o que de fato entrega. Gestão não é slogan. A Secom deveria se guiar por perguntas básicas, como: o prometido é mensurável? O estágio de execução é informado com regularidade, inclusive quando há atraso? Estão identificados os responsáveis pela execução, bem como a fonte de financiamento? Há dados de execução financeira disponíveis em painéis públicos? Quando as respostas são positivas, a comunicação tende a ser percebida como serviço público. Quando não são, a Secom age como amortecedor de uma engrenagem que não está funcionando bem.
A argumentação crítica, vale lembrar, é parte essencial do jogo democrático. O problema começa quando tudo se reduz a disputa de “narrativa”, como se governar fosse apenas enquadrar fatos. Uma cobrança mais qualificada distingue obstáculos estruturais de decisões de comando, confronta anúncios com fatos e acompanha a execução ao longo do tempo. Isso não dissolve os condicionantes do processo, mas ajuda a recolocar cada responsabilidade em seu devido lugar.
Neste último ano de governo, com o presidente já na condição de candidato, as avaliações de ótimo e de péssimo seguem empatadas. Nesse contexto, surgiram medidas voltadas ao aumento de sua popularidade, como os programas Luz e Gás para o Povo, o Desenrola 2.0, a suspensão da taxa das blusinhas, o crédito para taxistas e motoristas de aplicativo e a subvenção ao combustível veicular. São medidas distintas, mas parecem obedecer à mesma lógica: melhorar a imagem do governo perante o eleitor e converter os anúncios em indícios de eficiência da gestão. Mais do que isso, parte delas reitera um velho vício da política brasileira: medidas de efeito rápido, alto rendimento narrativo e baixa capacidade de transformação.
O problema não está apenas no acerto, ou não, daquelas iniciativas, mas em seu uso como vitrine na mídia tradicional e digital. Apenas o Instagram e o Facebook concentraram R$ 21 milhões em investimentos publicitários nos primeiros meses deste ano. O frenesi pela divulgação massiva de projetos federais voltados aos quatro maiores colégios eleitorais (SP, MG, RJ e BA) não parece decorrer da súbita capacidade de resposta às demandas desses estados. Tantos anúncios, em tão curto espaço de tempo, de medidas de impacto popular que envolvem investimentos bilionários, não comunicam um incremento de eficiência da máquina pública — parecem reagir ao desgaste na imagem do governo.
Cobrar resultados é legítimo e imprescindível. Informar sobre êxitos alcançados é igualmente válido e necessário. E o que distingue propaganda de prestação de contas é a transparência dos dados e a explicitação da métrica utilizada. As eventuais consequências sobre campanhas eleitorais decorrem naturalmente da percepção do cidadão sobre como o desempenho governamental melhorou — ou não — a sua vida.
Sob restrições fiscais e vigilância permanente, governos são julgados pela capacidade de fazer escolhas certas e transformar decisões em resultados verificáveis. Aí pesam a transparência e a consistência do que se anuncia. A Secretaria de Comunicação não executa obras, não presta diretamente serviços e não aprova reformas. Seu papel é promover a transparência das ações de governo, organizar a prestação de contas, dar contexto, alinhar expectativas e reduzir ruídos. Quando há resultado positivo, mas falta clareza, perde-se a chance de reconhecê-lo; quando ele não surge, a comunicação vira anteparo de uma cobrança que é, antes de tudo, de governo. Daí o paradoxo: quanto maior o hiato entre o prometido e o realizado, mais a política se agarra às palavras — e é nelas que o desgaste se revela primeiro. Comunicar com nitidez ajuda, mas não substitui a entrega. Entre o dito e o feito, pesa o feito.
Sérgio Alves
Engenheiro civil, Mestre em Administração, Doutor em Sociologia. Professor titular aposentado da UFPE, onde foi diretor do Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Entre seus livros, estão: Revigorando a Cultura da Empresa; Racionalidade, Carisma e Tradição nas Organizações; O Estado do Líder.
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