Árvore

Árvore

No Dia Mundial do Meio Ambiente, falemos das árvores em companhia de um grande biólogo e botânico francês: Francis Hallé (1938–2025).

Fruto (e o termo vem a propósito) de uma conferência, o livro “A vida das árvores” é um banho verde em nossa generalizada ignorância sobre o assunto ou, se quiserem, um bosque cheio de surpresas que mesclam dados técnicos a instantes de poesia.

Logo no início, palavras de Buda abrem caminho para uma iluminada compreensão do tema: “A árvore é um ser tão generoso que oferece sua sombra a quem vem derrubá-la”. E um Voltaire, já idoso e recolhido, nos serve de inspirado exemplo: “Não faço outra coisa senão plantar árvores; sei que estou velho demais para tirar proveito de seus frutos ou de sua sombra, mas não vejo maneira melhor de pensar no futuro”.

De certa forma, quase “ninguém repara nas árvores”, diz Hallé, e isso “se deve à sua discrição e ao seu silêncio”. Essa “discrição”, por assim dizer, oculta “o extraordinário contraste entre o pouco de que necessitam e a enormidade do que realizam”. “Elas precisam de água, minerais, luz e CO2. Existe algo mais banal?” e podem ser comparadas, numa imagem técnica, a uma “estação de tratamento”. Enfim, como a proustiana empregada doméstica Françoise, de “Em busca do tempo perdido”, elas trabalham bastante sem dar mostras de seu esforço, parecendo que nada fazem.

Os botânicos já descobriram 70 mil espécies de árvores, mas o maravilhoso é que esse número não para de crescer, já que todos os anos eles descobrem cem novas espécies! Uma das muitas curiosidades sobre as árvores é que, diferentemente de nós, elas não dispõem de um “programa de senescência” (aqui ficamos verdes de inveja!). Muitas “são potencialmente imortais”, embora outras, como as palmeiras, mesmo imortalizadas por poetas como Gonçalves Dias e Guimarães Rosa (sic), não duram mais que rápidos cento e cinquenta anos.

Ao contrário das toupeiras, dos peixes abissais e de muita gente ignorante (rabugenta comparação de nossa parte!), não existe árvore, diz Hallé, que possa viver sem luz. O botânico ressalta que “Elas não precisam de muita coisa, mas são irredutíveis no pouco que necessitam, e a luz realmente faz parte de suas exigências”. Ou seja, para associarmos um adjetivo etimologicamente pertinente, elas são essencialmente frugais!

Comparados às árvores, somos, nós outros, criaturas realmente novas, senão novíssimas, recém-chegadas ao vasto mundo. Elas existem há 380 milhões de anos. Se “antiguidade é posto”, como diz o povo, eis aí mais um motivo para respeitarmos essas irmãs mais velhas. Por falar em nós, espécie humana, o ilustre botânico é taxativo: “Do que as árvores do planeta têm medo? De nós. Não somos sequer seu principal inimigo, somos o único”. Que tremenda essa condição! Somos vis, e não sem aquela ênfase que Fernando Pessoa  expôs em famoso poema: vis “no sentido mesquinho e infame da vileza”! Por isso, viver passou a ser perigoso para elas. Hallé ilustra essa inimizade atroz: “Um homem com uma motosserra derruba em quinze minutos uma árvore de 3 ou 4 mil anos para beneficiar pessoas que nunca pisaram na floresta”.

Conhecido por suas pesquisas nas grandes matas do mundo, um assombrado, mas realista Hallé nos deixa um triste e nada verde alerta: “Quando vejo a devastação nas florestas equatoriais, penso comigo que algumas pessoas estão ganhando muito dinheiro, mas teremos dificuldades para respirar, e isso já começou”.