
Trump e o Brasil
Parece cada vez mais claro que o presidente Donald Trump está em campanha eleitoral no Brasil com medidas e anúncios para, supostamente, favorecer o candidato a presidente que sirva aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos. Quando o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rúbio, anunciou a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas logo depois do encontro com o senador Flávio Bolsonaro, o candidato do PL-Partido Liberal se apressou a agitar a bandeira da segurança pública, anunciando uma aliança com os Estados Unidos no combate ao crime organizado.
Considerando a desolação e a impotência dos brasileiros diante do crescimento do crime organizado, Bolsonaro acha que pode atrair votos com a promessa de integração do Brasil ao “Escudo das Américas” de Donald Trump. Mas, a adesão ao escudo de Trump representa a aceitação (e mesmo apoio) das suas agressões criminosas no espaço aéreo e marítimo de países do Caribe e em áreas do Pacífico, supostamente para enfrentar o narcotráfico. Ninguém é contra a colaboração do Brasil com os Estados Unidos para enfrentamento do crime organizado – o presidente Lula da Silva mostrou esta disposição no seu encontro com Trump – mas a integração ao “Escudo das Américas” pressupõe subordinação a Trump (ele, aliás, não aceita menos que isto).
Nesta semana, o governo dos Estados Unidos reabriu a guerra tarifária com Brasil, manifestando total desrespeito pelo governo brasileiro, na medida em que ignorou as negociações comerciais em curso entre os dois países, negociações que foram iniciadas logo após a visita do Presidente Lula da Silva a Washington. O Escritório de Comércio dos Estados Unidos fundamentou as novas tarifas com argumentos infundados e exagerados de supostas práticas comerciais desleais. A mais caricata reclamação dos Estados Unidos considera que o Pix, o avançado sistema instantâneo de pagamento eletrônico, que é o orgulho da tecnologia brasileira, prejudica a economia estadunidense quando ocupa espaços do mercado de cartões de crédito.
O envolvimento de Trump nas eleições brasileiras, recorrendo a medidas e iniciativas com as quais pretende ajudar na campanha de Bolsonaro, pode gerar o efeito oposto. Quando se mete nos assuntos internos do Brasil, Trump acende o sentimento nacionalista dos brasileiros, joga a marca de entreguista sobre o seu candidato, e ainda oferece uma poderosa bandeira eleitoral ao presidente Lula resumida num slogan: “o Pix é do Brasil”.
Pessimista que sou em assuntos de política, sempre acho que vai ter gente acreditando que até o pix é ruim para o Brasil, desde que Lula, “o grande mal”, seja derrotado.
E assim, até os piores bandidos ironicamente se fortalecem com discurso em defesa da segurança.