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Penso, logo duvido.

Pós-eleições: o que nos aguarda? – Elimar Nascimento

Elimar Pinheiro do Nascimento*

The Day After by Edvard Munch 1895

As eleições se encerraram e o País tem a continuidade de Dilma Rousseff na presidência. Ela obteve 1,64% a mais do que o necessário para se eleger. Recebeu 39,16% dos votos sobre a totalidade do corpo eleitoral, de quase 143 milhões. Somadas as abstenções e os votos brancos e nulos, temos 27,44%, ou seja, mais de um quarto dos eleitores julgaram, por alguma razão, que nenhum dos candidatos mereceria seus votos, ou não deram a devida importância às eleições, que, como disse Noblat, deixaram muitas cicatrizes e pouca saudade.

Menos de 40% dos brasileiros manifestaram seu apoio explícito à continuidade. E, mesmo assim, com a promessa de mudanças. Esse percentual está longe de ser a maioria do povo. Contudo, em nada compromete sua legitimidade. Faz parte das regras do jogo. Nenhum regime político é perfeito. Todos têm seus limites.

Seu adversário perdeu por pouco, mas enfrentou uma das mais truculentas eleições que este País já conheceu. Ele sabia quem era o adversário. Dinheiro na cueca e aloprados, ocorridos no passado, são suficientes para que qualquer um soubesse que não teríamos uma novela para menores de 18 anos. A lógica é clara: o importante é vencer, não importa como. A própria Presidente já havia dito em João Pessoa, em 04/03/2013, que “podemos fazer o diabo quando a hora é de eleição”. Dito e feito, sob o comando de seu competente marqueteiro.

No mercado em que se tornaram nossas eleições, perdeu quem não soube ajustar sua comunicação com os focos que lhes interessava. Quem não soube se apresentar como a mercadoria mais agradável.

Nenhum desastre ocorre por um único erro, mas pela confluência de vários. O primeiro deles, sem dúvida, foi a malsinada escolha do candidato do PSDB ao governo de Minas Gerais. Que, como diziam os mineiros, “nem aqui mora”. Sabendo que ia enfrentar um dos mais inteligentes e flexíveis petistas, antigo aliado do próprio PSDB.

O segundo foi ter aceitado o terreno de disputa que a adversária lhe convidou: Minas Gerais e a comparação dos governos petistas com o de FHC. Desde Serra, em 2002, a defesa do governo FHC foi abandonada às moscas, permitindo que se criasse uma visão absolutamente nefasta, e que não corresponde plenamente aos fatos. Mas quem se importa com os fatos? O seu terreno de opositor deveria ser a comparação com o governo que sua adversária sucedeu: ela recebeu um governo com crescimento de 7,5% e o entregava com crescimento de 0,5%; recebeu uma inflação de 4%, e estava deixando uma de 8%, a se contabilizarem os 2% embutidos, segundo Delfim. Recebeu, para usar uma imagem que é do agrado da própria adversária, uma situação de aumento da produção de automóveis, e deixava uma situação de férias coletivas. E, todos sabem, estas antecedem o desemprego, que será o legado dela no próximo ano, deveria insistir o opositor. Preparem-se, porque o desemprego vai começar e se somar à carestia já constatável pela dona de casa. Não! Preferiu falar para quem já estava convencido, São Paulo.

O terceiro foi não falar para o Brasil. Pelos menos dez medidas de peso deveriam ter sido anunciadas para mudar o Nordeste. Propostas de impacto no campo das reformas, em estreito diálogo com os movimentos sociais, deveriam ser anunciadas. Avançar nomes de seu governo que propiciassem tranquilidade ao eleitorado: Marina para cuidar do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, por exemplo.

Enfim, faltou uma comunicação focada na vitória, e não prisioneira da defesa de ideias que não interessam à maioria da população.

Mas tudo isso agora é passado. O que importa é o que nos aguarda. Muitos dizem que ocorrerão mudanças significativas. A presidente só fala em pontes, união e diálogo. Há, em alguns espaços, um grande otimismo. Conhecendo um pouco a peça, não partilho desse sentimento. Personalidades centralizadoras e autoritárias não mudam de repente. Mas, trata-se da política, e não de pessoas – embora sempre ache que essas duas coisas nunca são separadas.

Obstáculos de monta nos aguardam. O escândalo da Petrobrás, por exemplo. Apesar de esse processo estar endereçado ao Supremo, e de lá não termos mais um Barbosa, não será fácil esconder os “malfeitos”. Os executivos já começam a se apresentar para a delação premiada. Se o doleiro morrer, dúvidas vão pairar sobre a autoria. Cunha, caso seja o presidente da Câmara dos Deputados, promete uma nova CPI.

A governabilidade não será fácil. São 28 partidos na Câmara dos Deputados. O PT é quem mais perdeu. A oposição é mais forte, e agora tem o ânimo renovado por uma retumbante votação. O PSDB terá “monstros” da política no Senado. Parte da antiga base do governo está insatisfeita e arrisca migrar para a oposição. O PSB, mas também parte do PDT e do PMDB. O presidente atual da Câmara dos Deputados vem com sede de vingança, pois atribui a Lula sua derrota a governador no Rio Grande do Norte.

A retomada do crescimento conta com elementos desfavoráveis, como a conjuntura internacional, particularmente as mudanças na China e na Argentina. As contas públicas não são favoráveis, assim como a balança comercial e a de contas correntes. Para conter o crescimento da inflação, há apenas dois instrumentos, ambos desgastantes: contenção de gastos ou aumento de impostos. Será preciso vencer a desconfiança do investidor nacional.

Finalmente, para nos restringirmos a alguns riscos, deve-se contar com a expectativa de mudanças por parte da população: mudanças quanto às reformas e quanto à qualidade dos serviços públicos. Ambos, muito difíceis de ocorrer no curto prazo. Assim como, para finalizar, as contradições internas do PT. Novos personagens virão povoar a Esplanada, como o ex-governador da Bahia, ou novos postos, como o antigo ministro do MDA e o atual chefe da Casa Civil. É muito ego junto, muitas opiniões distintas.

Não é um cenário dos melhores, mas alguns persistem e propagam seu otimismo. Tomara que estejam certos.

*Sociólogo, professor da Universidade de Brasília, UnB.

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