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Penso, logo duvido.

No fundo do Poço – Ivanildo Sampaio

Ivanildo Sampaio

Casas do Poço da Panela, Recife – (autor desconhecido).

Um esclarecimento, para quem desconhece sua história: O Poço da Panela surgiu por volta do século XVIII, pertencendo às terras do Engenho Casa Forte, propriedade de Diogo Gonçalves. O engenho foi construído em áreas doadas por Duarte Coelho. No início, era um simples povoado em meio às grandes plantações de cana de açúcar. Naquele tempo, uma terrível epidemia de cólera tomou conta do Recife e alguns médicos divulgaram que os banhos, durante o verão, no trecho do Rio Capibaribe que cortava o povoado, era um milagroso remédio no combate à doença. E começou o povoamento. Vieram os casarões. As casas de veraneio.  Constatou-se que era prazeroso morar no Poço. Construiu-se a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, cujas obras foram concluídas em 1772. O Poço viveu por séculos na sua paz e no seu recolhimento. Paz e recolhimento que duraram até os anos 70 do século passado. E foi ainda nos anos 70 do século passado que deixei o bairro das Graças, sóbrio e elegante, para morar no Poço da Panela, numa casa que sobrevivera à grande cheia, embora submersa e perigosamente situada às margens do Capibaribe. Muitos moradores haviam fugido de Apipucos, Casa Forte, Monteiro e Poço da Panela – a grande cheia de 1975 deixara um trágico saldo de mortes e destruição, dezenas de casas e apartamentos se apresentavam com placas de “vende-se” ou “aluga-se”. Ficara também o medo de que a tragédia se repetisse. Resolvi arriscar… Foram construídas barragens para represar o rio e as cheias nunca mais voltaram.

Durante anos tive orgulho do meu bairro. As noites eram silenciosas. As manhãs, povoadas por pássaros que se aninhavam em meu jardim: sabiás, bem-te-vis, canários, beija-flores.  Nos primeiros tempos, nas tardes do fim de semana dava pra armar cadeiras na calçada e confraternizar com a vizinhança, enquanto os filhos jogavam futebol até que a luz mortiça dos postes substituísse o sol se pondo. Não se falava em assalto, em roubos, em violência –e a grande festa do entorno era a que comemorava, em fevereiro, Nossa Senhora da Saúde.

Mas, aos poucos e passo a passo se foi trabalhando a dissolução do Poço. A primeira grande ameaça foi a construção de um imenso espigão na Rua Luis Guimarães, uma das mais antigas do pedaço – uma rua tão estreita que não comporta o tráfego de dois veículos em sentidos opostos. Surgiram os primeiros loteamentos. No final da Estrada Real, foi construído um conjunto residencial, talvez por escrúpulos, com apenas casas de dois pavimentos. A cada mês, novos veículos chegavam com os novos moradores, e o velho caminho de pedras não suportou o castigo e a falta de cuidados, transformando-se numa rota de buracos. Chegaram os primeiros bares, que ninguém é de ferro… E restaurantes. E creperias. E casas de comércio. Salões de beleza. Clínicas. Academias. O centenário Sítio dos Doninos, que desde o Brasil imperial acomodava suas mangueiras, seus cajueiros e até mesmo alguns animais, foi ocupado por uma quase dezena de edifícios residenciais que, fiéis à legislação urbana, obedecem a um gabarito de seis andares, como se isso fosse pouco… Não há, porém, restrição para o número de veículos que cada um desses novos edifícios coloca nas ruas estreitas e sacrificadas do entorno, algumas delas sequer asfaltadas. Na vizinha Praça de Casa Forte, dezenas de casarões sumiram para dar lugar a espigões que, em alguns casos, ultrapassam os 30 andares. E haja carros. E haja engarrafamentos.

Na Estrada do Poço, o silêncio obsequioso dos moradores nada disse nem reclamou quando ali chegaram os Arautos do Evangelho, para transformar em templo um histórico e majestoso casarão. Nada contra os bravos rapazes, filhos da classe média, que aos domingos, paramentados nas suas vistosas vestes, calçando lustrosas botas e exibindo penachos e esporas, invadem com seus automóveis as ruas laterais para participar do oficio religioso. Travam tudo. É muito? Não, não é. Há alguns meses, com o aval da Prefeitura, o Poço da Panela agora tem direito a uma feira mensal, no primeiro domingo de cada mês, ocupando totalmente a pequena praça local, onde se vende de tudo um pouco e, ao que consta, de iniciativa dos próprios moradores. Sabe-se que a crise anda braba, mas precisava tanto? Para essa nova aventura, está claro que as ruas do entorno são bloqueadas, quem quiser que busque uma rota alternativa, pois pelo caminho costumeiro ninguém passa. Os consumidores de cerveja, amadores que desconhecem o sabor de um bom vinho, urinam no primeiro poste que se apresenta, os flanelinhas agridem aqueles que por eles se recusam a ser extorquidos, e a paz do domingo virou apenas uma lembrança na memória.

Enquanto tudo isso acontece, a Prefeitura do Recife, do alto de sua arrogância, avisa que o IPTU subiu, sim, que muitas residências tiveram suas áreas reavaliadas mediante critérios que ninguém sabe quais e, por isso, vão ter que pagar mais impostos para tão ruins serviços, pois, a bem da verdade, o último prefeito que olhou para o Poço da Panela e ali colocou a mão do serviço público foi o saudoso Antônio Farias. Depois, ninguém fez alguma coisa que merecesse registro. Faltou apenas à atual gestão repetir um bordão que de minha avó Maria, que Deus a tenha, tanto ouvi na minha infância: “os incomodados que se retirem…”

 

Ivanildo Sampaio é jornalista

 

 

 

3 Comments

  1. Caro Ivanildo,
    Meus cumprimentos pela bela crônica.
    A dor da constatação do avanço inexorável dessa “modernidade” destrutiva todos temos.
    Resta-nos o direito de espernear e denunciar.
    Abraço.
    Clemente

  2. Meu caro jornalista Ivanildo Sampaio. Sua crônica, nos traz boas lembranças.
    E, mais ainda, uma mostra da realidade “burra” que chamam de progresso. Progresso que destrói para poder construir. É de se lamentar.

  3. Gosto muito do bairro, Ivanildo. Lá tenho âncoras afetivas fortes, primos e amigos queridos. Como sou visitante ocasional, ainda não tinha sentido a extensão da degradação que você aponta. Mas sua voz é muito ouvida e sua pena tem peso de lei. Deve ser tempo de reverter o que ainda é reversível. Mas já vejo que há coisas que não voltarão mais.

    Abraço,

    Fernando

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