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Penso, logo duvido.

Spok e as raízes pernambucanas da música instrumental. – João Rego

João Rego >

Spok e Winton Marsalis -  foto de Zé da Flauta

Spok e Winton Marsalis – foto de Zé da Flauta

Na Casa de Seu Jorge assisti, no ano passado (maio de 2012), um show de raríssima qualidade. Spok com seu grupo de artistas, Renato Bandeira na guitarra e viola de 12 cordas, entre outros. Durante três horas, no espaço intimista da Casa, nos deslumbraram com o virtuosismo do grupo.

Spok é tão bom com as palavras e sua paixão pelo frevo quanto é com seu sax. Ao longo do show foi cativando a todos, dando uma aula sobre o frevo, seus principais compositores, suas raízes e seu papel fundante na alma pernambucana. Com suas palavras e sua música, aos poucos foi transformando a Casa de Seu Jorge na Bluenote do Frevo. Não estávamos em Nova Iorque, nem ouvindo Jazz no BlueNote. Estávamos no Recife ouvindo o frevo de Spok, mas a atmosfera e o prazer eram absolutamente os mesmos.

Aí começaram a surgir das mesas Cláudio com seu pandeiro de lascar, Luciano Magno, guitarrista consagrado e outros. Transportei-me para uma Jam Session que presenciei no famoso Bud Guy Legend  em Chicago. Era então uma segunda feira e os monstros sagrados estavam todos por lá se revezando, tudo misturado, professor de música da Chicago University com um gaitista de rua, tudo harmonizado pela música que os unia.

Menino nascido na periferia do Recife, cidade de Abreu e Lima, morava, segundo ele, entre dois cabarés e da sua casa ouvia um sax na casa da “perdição”. Foi a partir dali que foi capturado para sempre pela música. Com seu jeito coloquial e simples de comunicar algo tão grande e valioso como as raízes da nossa música, Spok esbanja erudição. Ele é, sem ter esta intensão, um erudito do frevo.

Vendo-o, não deixo de me lembrar de Winton Marsalis, falando do mesmo  jeito manso, sobre as raízes do Jazz. Erudição, virtuosismo e paixão, estes são três eixos que os unem: Spok e Marsalis. E não foi por acaso que do encontro dos dois em um festival de Jazz no interior da França surgiu – um Marsalis bestificado pelo frevo medonho do sax de Spok – o convite para Spok tocar no Lincoln Center, em NY, o templo sagrada das artes (Teatro, Música Clássica, Opera e Jazz) nos Estados Unidos.

Encontrei-me com Spok no aeroporto de São Paulo. Ele ia fazer uma apresentação no SESC e depois partiria para os EUA com sua banda. Esperando as bagagens, ele me falou com emoção do filme que está produzindo com os mais importantes compositores de frevo da geração de Nelson Ferreira. Falou com emoção e com brilho nos olhos sobre esse registro. Tem também em curso o projeto de fundar um instituto no Coque para ensinar música às crianças e adolescentes e, no show que assisti o ano passado, levantou uma importante demanda às autoridades públicas: de termos o ensino do frevo nas nossas escolas.

Fui para Casa de Seu Jorge com a intensão de ouvir uma boa música. Saí de lá com a emoção  e o orgulho de ter bebido, por algumas horas, da fonte mais pura na nossa cultura musical, ou da nossa alma pernambucana, como diz Spok: o frevo.

Assim como o gaúcho tem a sua música preservada, como o argentino faz do tango seu mais importante suporte cultural – e turístico também -espero que os gestores de política cultural em Pernambuco invistam nos projetos desse “minino” de Abreu e Lima, que também, como o General que dá o nome à sua cidade natal, está abrindo fronteiras mundo afora, libertando o frevo do gueto histórico e algumas vezes, injustamente, aprisionado como uma brincadeira de rua, durante o Carnaval.

 

DITOS & ESCRITOS
João Rego
joaorego.com

One Comment

  1. Joia, Irado.

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