Fernando Dourado

Gion (??) is Kyoto's most famous geisha district.

Gion (??) is Kyoto’s most famous geisha district.

Semana passada, eu, Oki Sato, completei 76 anos e saí de casa à hora de sempre. Vestindo meu melhor terno de verão, de muito boa casimira inglesa, cortado sob medida por um alfaiate de Ginza para um corpo cujo peso é o mesmo há meio século, comprei o Asahi Shinbum por força do hábito, pois não pretendia ler jornal no trem, conforme vem sendo a regra desde que me aposentei. No trajeto entre Funabashi e Shinjuku, que durou o que sempre dura, fiquei absorto em pensamentos tão envolventes que cheguei a cochilar sem dormir, como se estivesse a meio caminho de um transe. Naquela manhã, precisava primeiro ir à grande estação pois lá tinha a resgatar uma grata recordação que me remetia à visita de Suzana ao Japão. Só depois, iria aos jardins do Palácio de Akasaka, destino final do périplo, um dia depois de nosso Imperador anunciar que talvez tivesse chegado a hora de ceder lugar ao Príncipe. Tóquio estava quente e úmida, como é comum em agosto, e, por mais de uma vez, sorri ao pensar na felicidade suprema que vivera por duas semanas apenas uns anos atrás. Será que envelheço? Adolescentes riram de mim colocando as mãos em concha sobre a boca. Para elas, velhos gagás riem sem motivo aparente. Mas lhes devolvi o cumprimento, benevolente, o que só avivou o vermelho de suas bochechas afogueadas. O que sabiam elas da vida?  

*

Sei que a maioria das pessoas que me vê sair da loja de conveniência carregando as pequenas compras diárias, certamente pensa que sempre fui um pacato professor cuja vida transcorreu emoldurada por enfadonhas rotinas entre a casinha de telhado azul onde vivo, a universidade onde fui professor de línguas ocidentais durante anos, e uma escapada ou outra até os campos de golfe do norte da ilha de Honshu. Talvez não esteja de todo errada, se considerarmos a última década. Mas bem diferentes eram os cenários em meados dos anos 1960, quando eu vivia na então bucólica Bangkok, na Tailândia, cidade que me marcou por razões tão diferentes quanto prosaicas. Primeiro, pelo calor equatoriano que pretextava banhos revigorantes na piscina da Associação. Segundo, pela gentileza do povo e inigualável doçura das mulheres, a quem me entregava diariamente para longas sessões de massagem que, não estando necessariamente ligadas à luxúria, não raro envolviam bom sexo e muita cumplicidade pois elas sempre tinham muito a contar. E em terceiro, pelas maravilhas de uma culinária a que me acostumei a ponto tal que a cultivo até hoje em jantares solitários sob os letreiros de Shibuya ou, quando tenho convidados, em Harajuku, opção que me atrai menos devido à frequentação juvenil e espalhafatosa.

Naqueles dias de Bangkok, contudo, aconteceu um dos fatos mais inusitados de minha vida que, pensando bem, começa a se fazer longa. Se tinha por norma evitar os inferninhos de Patpong onde a soldadesca americana bebia até cair nos poucos dias de folga que tirava da Guerra do Vietnã, eu, por outro lado, gostava de frequentar os bares dos hotéis onde invariavelmente levava um dedo de prosa com estrangeiros como eu, o que permitia que exercitasse minhas habilidades de linguista prendado, uma raridade em meu Japão de origem, se posso me permitir tamanha presunção. Ademais, era ali que colhia informações que, em alguma medida, podiam ajudar o bem a prevalecer sobre o mal. Foi assim que, certa tarde de sexta-feira, quando o período chuvoso já chegara ao fim, fui ao bar do velho hotel Dusit Thani. A recepção estava congestionada e, no anexo logo ao lado, se aglomerava uma tribo de gente no mínimo estranha. Perguntei a Sudesh, o garçom, o que acontecia. Ele disse que estava ocorrendo um congresso de cartomantes, quiromantes e videntes de toda Ásia. Então, complementou: “Sato-San, por que não vai fazer uma consulta? Quem sabe eles não tenham uma boa nova a dar? Talvez digam que dorme sobre pepitas de ouro. Na Índia, nós temos pela vidência grande consideração”.

Pedi mais uma cerveja e desconversei. Ora, pensei, nada havia de errado na vida que me levasse a querer especular sobre o imponderável. Recém-formado, alto, bronzeado e bem remunerado, o dia a dia já me dava o bastante para ser feliz. Mas foi então que dois cavalheiros respeitáveis, de insuspeito sotaque berlinense, chegaram ao bar entusiasmados e começaram a conversar sobre o vidente chinês, o da tenda de número oito, tido como sumidade. Ambos tinham se consultado em separado e mal continham a euforia das confidências. Um deles revelou que o homem dissera coisas tão inequívocas sobre seu passado na Guerra, a ponto de emocioná-lo. O outro se empolgara com as novas recebidas sobre o futuro e afirmou que elas estavam em linha com o que vinha almejando. Tão impressionado eu fiquei com o depoimento daqueles senhores formais e avantajados, tidos como descendentes de uma cultura racional e pouco dada ao que não se explica, que resolvi eu mesmo tomar coragem e ver o que o tal chinês tinha a me dizer. Intercalei os copos de cerveja com uma dose de uísque e me dirigi ao recinto onde me postei numa das únicas filas que se formavam, justo à porta da oitava tenda. Mal sabia que aquela tarde se provaria tão importante e que, por razões certas ou equivocadas, teria impacto inusitado em minha vida.

*

Despertamos no primeiro dia do ano em boa sintonia. Abrimos os olhos quase ao mesmo tempo e, de mãos entrelaçadas, ficamos alguns minutos contemplando o teto do quarto. Com a mão livre, eu lhe fazia carícias leves, quase respeitosas, mas que não camuflavam um desejo crescente que logo se transformaria em ternura emocionada. Passada boa meia hora, nos levantamos e eu a ajudei a chegar bem ao banheiro, o que não era fácil. Pouco mais nova do que eu, Suzana sofria com uma calcificação que lhe aparecera no colo do fêmur, o que só se agravava com o frio do inverno. Na estação de Shinagawa, embarcamos no trem-bala. Ela disse textualmente: “É incrível como é lindo o shinkansen: branco, longo, baixo, uma espessa faixa azul-marinho na lateral e um bico de pato enorme para varar o ar”. Eu apenas sorri. Em minutos, estávamos aos pés do Monte Fuji. O topo nevado ora ficava visível, ora se escondia. Quanta paz. As águas do lago Ashinoko – na verdade, uma cratera vulcânica cercada de pinheiros – estavam encarneiradas. Falamos pouco, quase nada. Voltamos à noite com a sensação de que a capital retomava o ritmo e fomos comer soba. Para nós os japoneses, os fios compridos da massa prenunciam vida longa. Suzana apenas sorriu de minha observação. Ia sim dizer alguma coisa, mas silenciou.   

No dia seguinte, o destaque da programação foi a saudação de Ano Novo do Imperador. Chegamos às imediações do palácio de Akasaka perto das nove horas e às onze um mar de gente agitava bandeirinhas japonesas em direção ao parlatório blindado em que pontificava a Família Imperial. Chamaram-nos a atenção os sóbrios vestidos da Imperatriz e princesas. De longe, se lhes percebia o tom adamascado, de lindas cores. Atrás de mim, um velho gritava “banzai”. Almoçamos sushi em Ginza. Suzana disse que foi o melhor de sua vida e que amava o sabor iodado do ouriço. Depois da segunda garrafinha de saquê, me beijou com tanto afeto que enrubesci. Chegando ao hotel, lhe expliquei que o bairro onde estávamos era encavalado sobre Kanto. “É aqui que se produzirá o grande terremoto que devastará Tóquio nos próximos anos”. Ela disse em inglês: “Convém então não despertar a ira da Terra e fazer movimentos suaves”. Sorrimos. Sentindo-a bem, levei-a à tardinha à Torre de Tóquio e subimos até a última plataforma. Ela pegou minha mão e, de olhos marejados, agradeceu. Enquanto o sol se punha e víamos a silhueta do monte Fuji, disse que sempre sonhara em ir a Kyoto e estava feliz que, no dia seguinte, este seria nosso destino. Pela segunda vez, me beijou ternamente. E exalava um perfume que me remetia ao entardecer da Tailândia.   

Logo pela manhã, caminhando a passos lentos na plataforma, embarcamos no vagão de primeira classe do trem-bala Nozomi e comprei duas caixas de luxo de bento para o almoço a bordo. Ela gostou de saber que Nozomi significa esperança. “A mais bela das palavras em muitas línguas”, disse antes de cochilar sobre meu ombro. A mão dela apertava a minha. De vez em quando, eu a flagrava de olhos azuis bem abertos a contemplar arrozais, casinhas ao lado dos trilhos e picos nevados. Antes que a emoção me tome de assalto e eu perca o fio da narrativa, posso dizer que Suzana se apaixonou por Kyoto à primeira vista, desde o passeio em Gion. As ruelas tortuosas, muitas delas iluminadas apenas por lanternas, tinham restaurantes exclusivos e por elas transitava um sem número de jovens em quimono de seda que ela pediu para fotografar. Voltamos a passos curtos até a pequena casa particular onde eu alugara um quarto oriental. O nosso era lindo e ela ficou bela de yukata, os seios bem proporcionados saltando para fora. Jantamos shabu-shabu de língua com saquê abundante. Na manhã seguinte, fomos passear no “Caminho do Filósofo”, uma sendeira ornada de templos, bosques, galerias e pequenas casas. Olhando-me nos olhos, ela disse que já não precisava sonhar com o paraíso. Agora já o conhecia. “A-so-desu-ka“, foi tudo que consegui dizer.  

*

O vidente pegou minha mão direita e fez perguntas em mandarim sobre a data de nascimento e horário. Consultou então um grande livro, demarcou três pontos em tinta porosa preta na palma suada e começou a falar pausadamente de forma que nada se perdesse, sempre pontuando o que lhe parecia crítico com um convite para que eu o olhasse nos olhos. Disse que eu teria pela frente vida longa e gozava de saúde. Falou, para minha surpresa, da morte de meu pai numa batalha que envolveu ar, fogo e água e, agora para minha perplexidade, disse que mamãe convivera com personalidades da família sagrada. Como aquele homem poderia saber que ela privara do convício da Imperatriz Nagako? O que naquela ciência cheia de mistérios tinha evidenciado que, de alguma forma, algo me unia ao Trono do Crisântemo? Complementou que eu só teria um grande amor na vida e que este ainda não aparecera, mas que viria do Ocidente. Era possível que surgisse das rodas acadêmicas ou das viagens que eu me permitia fazer anualmente. Mas que, por hipótese alguma, casasse com ela. Por muito que viesse a amá-la, pois a morte se abateria sobre um dos dois pouco depois. Então me fixou por um longo momento e advertiu-me para que jamais esquecesse essa verdade. Não consegui sorrir nem agradecer. Saí com a boca seca e estava ofegante. Sudesh nada perguntou e estava pálido ao me servir outra cerveja.

Um ano deve ter transcorrido desde então e a Guerra do Vietnã recrudescia. Até que um dia compareci a um culto ecumênico nos jardins da embaixada dos Estados Unidos em memória de soldados mortos e cujas famílias estavam acantonadas em Bangkok para vê-los nas horas de folga. Eu mantinha um vínculo forte com alguns oficiais americanos pois me competia recrutar moças vietnamitas que se encarregavam de traduzir escutas telefônicas e até mesmo de prestar serviços de apoio e contraespionagem. Aquele dia, portanto, foi especialmente triste. Isso porque Chaim Fried, um rabino voluntário que dava orientação espiritual aos soldados judeus lotados em Saigon, faleceu ao cabo de uma incursão malfadada à selva. Morrera carbonizado na explosão do helicóptero que partira em socorro a tropas emboscadas. Fui, então, prestar condolências às famílias enlutadas e daí conheci Suzana Fried, a viúva. Naquela mesma hora, me dei conta de que jamais veria mulher tão exuberante. Os olhos eram dois lagos. A boca, carnuda. Os lábios tinham cor de romãs. Os cabelos eram dourados e, era espantoso, pareciam ter vida própria. Transida pela dor do luto, achei que me cumprimentara formalmente e que sequer se fixara num japonês como tantos outros. Acaso os ocidentais não acham que nós orientais nos assemelhamos todos? Mas não foi assim.

Tempos mais tarde, recebi uma carta de agradecimento em meu endereço residencial. Nela, Suzana agradecia minha presença por ocasião da cerimônia e dizia que tinha sido de grande conforto espiritual saber que o rabino contava com tantos amigos na Tailândia. O que, em meu caso, não era sequer verdade pois eu não o conhecera. Dizia que estava de volta a Nova York, onde vivia, e que esperava que eu a visitasse quando fosse aos Estados Unidos. Morava no Brooklyn, mas tencionava refazer a vida em outro lugar. Como não tivera filhos com o finado, estava livre para fazer o que bem quisesse. Sabendo-me filólogo, revelou que, apesar do infortúnio, desenvolvera grande interesse por línguas orientais e que não descartava a possibilidade de viver na Ásia. Nesse contexto, o país que se lhe afigurava mais fascinante era, de longe, o Japão. Será que eu poderia ajudá-la? Foi além, porém. Perguntou-me se eu me incomodaria em contar um pouco mais sobre minha própria vida. Era casado? Era comum que japoneses pudessem ser tão altos? Na verdade, concluiu, nada que fizesse traria Chaim Fried de volta. Por que não mudar radicalmente de vida? Até quando eu pretendia ficar na Tailândia? Será que voltaria a viver no Japão? Tudo aquilo era desconcertante, excessivamente direto para um oriental, mas mexeu comigo.

Li e reli a carta. Pensei no vidente do Dusit Thani e baixei o tom da resposta deliberadamente. No final dos anos 1980, contudo, eu a visitei em Nova York, mas resisti como pude a seus avanços por temer que se materializassem os vaticínios tenebrosos. Dissociada da vida religiosa, dizia que os familiares de origem sul-americana viviam todos em Williamsburg, numa comunidade de judeus ortodoxos. Ela optara por um pequeno apartamento no Greenwich Village e, a muito custo, eu resisti em ficar hospedado lá. Devotada às aulas de ioga e professora de coreano em Columbia, Suzana exalava vida e eu fiquei a meio caminho entre chocado e fascinado por aquela mulher que gostava de dançar no “Au Bar” e esticava no “Nell´s”, da rua 14, até o dia raiar. Numa noite de bebedeira, ela me disse que esperara por mim por quase vinte anos e que não podia entender o que nos tinha impedido de tocar a vida juntos. “Eu era tão bela e me apaixonei tanto pelo teu coração quente, teus modos contidos, tua altivez. Nunca vou entender, Oki-san, porque nosso momento nunca chegou. Queria saber se um dia ainda chegará, mas já não creio”. Eu só consegui baixar a cabeça e pedir desculpas. No fundo, dava para imaginar o que ela achava. Toda especulação era possível, menos a de que eu renunciara a ela por amor. A conselho de um inverossímil vidente chinês.

*

O que mais me fascina numa mulher é o bom gosto e me alegrei ao vê-la fazer compras para os parentes. Era assim como ela se referia ao que quer que tivesse de vínculos familiares. Para meu grande deleite, Suzana achou num antiquário de Nara duas lindas tartarugas; um bule de chá antigo e um pássaro verde que mais parecia aqueles que vemos em origamis. A própria dona do local fez os maiores elogios ao critério dela. Observei que não é nem uma compradora compulsiva – o que repudio mais do que a morte –  nem tampouco somítica, o que é imperdoável num coração feminino em tempos de paz. Tem senso de equilíbrio e as compras têm linha e coerência. Gostei muito de acompanhá-la nessas ocasiões e ela poucas vezes precisou de mim como tradutor. Na verdade, falávamos em inglês porque fora assim que tínhamos nos conhecido e correspondido. Embora especializada em coreano, ela também estudara japonês até níveis avançados. Certa manhã, afinal, partimos para Hiroshima e Myajima, onde ela sonhava em ver o tori. “É sempre um prazer viajar de shinkansen”, confessou. O ponto alto foi a tarde. Ela fitou o firmamento e contemplou o que imaginava ser os seiscentos metros de altura em que foi detonada a bomba atômica. Ao fundo, víamos a estrutura do velho prédio projetado por um tcheco que lá está até hoje. Então choramos por nós. Talvez mais do que pelo destino da bela cidade.   

Na última noite em Kyoto, levei-a para comer o famoso kaiseki do restaurante Kikunoi, o mais aclamado do Japão. Suzana merecia não menos do que isso e a esposa do dono veio nos saudar pessoalmente, trazendo um presente. Eu nunca pagara tanto por um jantar a dois. Ainda pensei em revelar o lado mais recôndito daquela relação que, sem que ela soubesse, nascera condenada. Mas esmerei-me em explicações sobre cada um dos quatorze pratos que compunham o jantar magnífico como forma de passar ao largo do vidente. Tampouco dei espaço para que ela falasse sobre a doença. Para o final de nossa estada no Japão, em Tóquio, reservara quatro noites no lendário hotel Okura. Na capital, levei-a para conhecer os jardins do New Otani. Vimos então as pedras, as carpas, a pontezinha e a queda d’água. Fomos almoçar em Omote-Sando e depois vimos o acender das luzes em Ginza. Sob o fulgor do néon, lhe disse que no dia seguinte madrugaríamos para comer ouriços frescos no mercado de Tsujuki e lâminas de atuns de sonho. E assim foi. Entusiasmada, fomos ver o torneio de sumô no fim da tarde e ela adorou o que chamou de coreografias. De lá, subimos ao sexagésimo andar de um prédio em Shinjuku onde ela viu a cidade em todo seu esplendor. Então, chorou copiosamente e me fez prometer coisas singelas. Se eu não a esquecesse, ela sentiria as vibrações onde estivesse.  

No último dia, por fim, ela insistiu para que dormíssemos em minha pequena casa, em Funabashi. Tentei dissuadi-la a caminho de lá. Assim, na estação central de Tóquio, conduzi-a pelo braço por um corredor onde se sucediam dezenas de restaurantes. “Tudo aqui começa e termina com comida”. Mesmo assim, percebi que a roupa estava lhe ficando frouxa e, imprudente, disse exatamente o contrário. Escolhemos um bar onde comi tofu à moda chinesa e guiozá. Ela quis um ramen com molho apimentado que deixou pela metade. No pequeno sofá de minha sala, afinal, pediu que eu ligasse a câmara filmadora apontada para ela e que saísse da sala, deixando-a sozinha por dez minutos. Só então, ela me chamaria de volta. E me fez jurar que não veria o filme até que ela morresse. Perguntei: e seu eu morrer antes, Suzana? Ela balançou a cabeça e me repreendeu: ambos sabíamos que isso não iria acontecer. Nem que a falha de Kanto produzisse o Grande Terremoto, igual ao de 1923. Procurei me distrair no quarto e, me proibindo de ouvir as palavras que ecoavam por todos os cômodos do térreo, não podia me furtar de sentir a melodia daquela voz um pouco rouca. Quando voltei à sala, ela me pediu um chá e terminou de se retocar com um lenço. Um grande nó me subiu à garganta, mas consegui me conter. 

*

Recebi um e-mail de Suzana Fried em meados de abril de 2011. Solidária, ela me dizia o quanto sofria ao acompanhar as consequências do terremoto que gerara o desastre nuclear de Fukushima. Fiel ao estilo irônico, associou radioatividade ao momento que vivia já que fazia tratamento contra um câncer agressivo. Como deixaria a Universidade de Columbia em definitivo no verão, queria saber se poderíamos nos encontrar depois do Natal, no Japão, para duas semanas de viagem a dois. Desde então, até a chegada dela a Narita, não deixamos mais de nos corresponder. No vídeo que deixou gravado, disse que ver Tóquio de Shinjuku naquela noite em que chorara lhe tinha dado uma sensação ambivalente, ambas reconfortantes. A primeira era que a vida humana era mesmo frágil e que ela tirara bastante da sua. A segunda era que só conhecera dois amores, apesar dos flertes ocasionais comuns à vida que levou em Nova York: Chaim Fried, o rabino arrebatado e ardente. E eu mesmo, Oki Sato, por quem ela desenvolvera um blend raro de sentimentos. Alguns deles, é verdade, tinham ficado no ar. Talvez por isso mesmo tenham se tornado perenes. Pediu que a perdoasse se ela terminara por ignorar meus limites ou preferências, mas tinha sido importante que tivéssemos nos conhecido como homem e mulher. Assim morreria reconfortada.

Passados quase cinco anos daquelas duas semanas, voltei ao edifício de Shinjuku onde lhe prestara juramento. Do alto, também agradeci a meu modo pela dádiva de tê-la tido, mesmo que a poucas semanas de seu fim, o que só reforçava a tese do vidente chinês que eu conhecera ainda quando jovem na Tailândia. Muitas vezes me pergunto: somos nós japoneses o povo mais ateu do mundo ou o mais religioso e espiritualizado? Jamais saberei. Certo é que peguei o metrô em Akasaka-Mitsuke e saltei nas cercanias do Palácio Imperial. Fiquei bom momento parado sob o pórtico onde tiramos uma de nossas poucas fotos que trago no bolso de meu impecável terno de casimira. Em respeito ao Imperador, de cuja mãe a minha própria foi dama de companhia, mantive a gravata azul-marinho e relevei o suor que empapava a camisa de algodão branca. Sabendo-o aflito e inseguro quanto à sua saúde, rezei pela segunda vez no mesmo dia e, perfilado ao lado do lago, pensei em Bangkok nos anos 1960 e em tudo que eu fizera desde então. Talvez o vaticínio do vidente tenha sido mero pretexto para que, no fundo, eu pudesse levar a vida do jeito que julgava adequada em nome de grandes causas. Mas não havia como negar que os dias que passei com Suzana Fried foram, efetivamente, de felicidade suprema. Certo é que o sol ainda brilhava quando voltei de trem para Funabashi e entrei em minha pequena casa de telhado azul.

* * *