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Penso, logo existo.

Um quadro para a Dra. Laila – Fernando Dourado

Fernando Dourado

A mulher e o sonho (autor desconhecido).

I

Então Alba estacou diante da casinha, endereço provável do avô, pai da mãe, e eu nada disse. Cirilo, o grosseirão que eu tirara à custa do boteco minutos antes para nos levar àquelas brenhas de moradas decadentes e cor de sujeira antiga, olhou para mim como se perguntasse o que eu esperava dele. Murmurei, também abusado, que aguardasse no carro para poupar-se do calor inclemente. Quanto a mim, eu ficaria ali, a prudente distância de ambos, enquanto ela procedia a suas avaliações e puxava reminiscências de velhas conversas familiares. A última coisa que eu podia fazer naquela hora era quebrar o silêncio, era chamar-lhe a atenção para algum detalhe ou formular uma pergunta cuja resposta pedisse um mínimo de subjetividade ou interpretação. Alba alternava o olhar indecifrável entre a fachada deslavada, a vidraça partida do segundo andar, os quatro degraus verdes de limo que levavam a uma porta protegida por um gradil de pintura azul descolorida, e fazia consultas ao celular, a cuja rapidez hipotecara o cérebro.

Eu acendi um cigarro e fiquei contemplando um gato arisco que me olhava em posição estranha, como se estivesse pronto tanto para fugir quanto para me atacar. “É aqui mesmo, só pode ser aqui”. Contive a irritação. “Se não fosse, Alba, o cara não nos teria trazido”. Ela fez uma expressão de abuso: “Eu só estou confirmando, Ernesto. A isso se chama pensar em voz alta, se é que você não sabe”. Prometi a mim mesmo que só voltaria a falar à hora do jantar, e mesmo assim se ela insistisse muito. Então me afastei dela e me aproximei do gato. No carro, o guia improvisado dava sinais de irritação. Talvez quisesse beber um gole de destilado e ali só havia para engolir a própria saliva. Eu já tinha acendido o segundo cigarro quando a vi levantar o telefone a um palmo do nariz e, como se estivesse filmando alguma coisa, começou a falar. Visivelmente, não achava o tom. Audivelmente, já não sei. Não ousei me aproximar para saber o que ela dizia. O que aquilo me importava? Minha missão era dar suporte, e não inquirir sobre impressões. Se Alba quisesse, me diria depois alguma coisa, até mesmo para eu saber que caminhos seguir a partir dali.

Então, ela contornou a casa e fez mais algumas imagens. Voltando-se para mim, abriu os braços e disse bem à sua maneira, quase rendida: “Vamos? O que estamos esperando, afinal? Sei que você está louco para ir embora. Mas por mim, está tudo bem, já me dou por satisfeita. Um dia posso voltar aqui com Marcel, quem sabe”. Fiquei puto, mas me segurei. De onde ela tirara aquilo? Que demonstração de impaciência eu dera, se estava disposto a varar o dia sob o sol a pino, se preciso fosse. Afivelei o cinto, dei marcha à ré na viela e tomei o rumo da cidade. Perto do Centro, ela disse: “Quanto você acha que a gente deve dar a ele?” Só fiz responder: “Ele não espera receber seu dinheiro, Alba. Agradeça, diga obrigado, e posso garantir que isso vindo de você já será muito”. De olhos semicerrados e com uma expressão que tentava afetar tédio, ela só disse: “Tudo bem, tudo bem. Foi só uma pergunta”. Depois da grande curva que contornava a colina de hortênsias, vi a placa prateada do mar. “Aqui fico eu”, disse Cirilo. Que se despediu sem olhar para trás, diante do café. Pelo retrovisor, deu para ver que cuspiu no chão antes de sumir de vista.

II

Oi, esta mensagem é para quem me ouve, se é que um dia alguém vai querer me ouvir, o que duvido muito. Mas essa é a casa onde nasceu minha mãezinha. Quer dizer, não há certeza de que tenha nascido aqui exatamente, mas é quase certo que nela tenha vivido a infância. Certeza, certeza, nunca se tem de nada nessa vida. Acho tudo um pouco estranho porque ela sempre disse que viviam num certo conforto e esta casinhola me parece tudo, menos confortável. Meu auto-denominado guia recrutou um pinguço no vilarejo que nos trouxe até aqui. Na verdade, não precisava, mas tudo bem, é o jeito dele de acelerar as coisas. Vou relevar tanta impaciência e tratar de tirar o melhor da viagem. Não sou de muito imaginar, mas se tivesse que dizer como era a rotina da família de minha mãe, eu diria que minha avó lavava a roupa naquele pátio ali atrás, cuidava dos oito filhos – que depois se tornaram seis, e mais tarde cinco -, e fritava os peixes que meu avô trazia do mercado, onde tinha uma banca. Talvez por isso eu não suporte peixe até hoje, se é que uma coisa tem a ver com a outra. Não faço questão de entrar porque a casa está lacrada e deve estar imunda. Prefiro que Ernesto se mantenha à distância porque sendo do jeito que é, não me espantaria nada que ele quebre a fechadura ou pule o muro para entrar pelos fundos. Depois ainda temos que levar o bêbado à cidade. Ele também deve estar impaciente para ir embora. Respeito por mim que é bom, continua passando longe. Cooperação, menos ainda. Eric Berne faria a festa se conhecesse esse laboratório vivo de narcisismo que é Ernesto. Está impossível estabelecer uma transação decente com o Ego-Criança de meu protetor. Desligo. Tchau, casinha materna. Tchau, gatinho lindo. Até um dia, até talvez, até quem sabe…

*

Para viver aqueles dias em paisagens tão desoladas, eu tinha jurado a mim mesmo que apagaria por completo o que nos separava, e só ia adubar o que nos unia. Se alguém tinha que gerir algum sentimento mais elaborado dentro de si, este alguém era Alba. Qual era o meu papel, pensando bem? Meu papel era o de propiciar condições objetivas para que cumpríssemos um roteirinho que, embora ela não admitisse, tinha ganhado algum significado depois que ela completara 60 anos. O que estava a meu alcance fazer? Confrontá-la com os cenários escolhidos – alguns pesquisados, e uns outros tantos que iríamos prospectar in loco, dentro do que o celular dela autorizasse -, abastecer o carro, dirigi-lo, passar uma mensagem ou outra que tranquilizasse Marcel, nosso filho – e esteio da vida dela -, e escolher uns poucos locais de pernoite que não ficassem longe de um bom hospital ou de um aeroporto que nos conectasse a um grande centro daquela parte do mundo, no caso de alguma intercorrência. Se a viagem tivesse que proporcionar algum prazer, eu sabia que iria depender de janelas aleatórias, do regime lunar – que eu não tivera a pachorra de pesquisar, mas que não tardei a ver que contava em nosso desfavor, quando vi a lua cheia se estatelar sobre o mar -, e de uma química de coincidências remotas e imprevisíveis, que decorreriam de um copo de bebida.

Alba estava mudada e, no começo, cheguei seriamente a desconfiar que para melhor, apesar de estar aferrada a um script, como era de regra. Agora, por exemplo, ela passara a chamar toque físico de isca e vinha teorizando até sobre um inocente e formal beijinho matinal, que virou na nova linguagem uma unidade de reconhecimento. E ai de mim se risse dessa pantomima. Mas o que me importava aquilo, no fundo? Ter o agradecimento tácito de nosso filho Marcel, e rever as paragens por onde tinha passado minha finada sogra, de quem eu gostava bastante, já estava de bom tamanho para mim. No mais, quem iria levá-la a cumprir um roteiro daquele, salvo eu mesmo? Se eu tivesse sorte, talvez ela se mostrasse grata. O mais provável, porém, é que me demonizasse por qualquer filigrana ao final da viagem. E que, na falta de coragem para chutar em gol, cavasse um pênalti como fazem os piscineros do futebol, que se jogam no gramado para sensibilizar o juiz, na falta de coragem de honrar a camisa do clube. Ter a confirmação de minha inaptidão para passeios a dois era a nova meta a alcançar. Alba precisava dessa convicção. E embora as atrações carnais estivessem hibernadas há uma boa década, depois que tanto um quanto o outro tinham saído razoavelmente sequelados (pelo menos na alma) de episódios assustadores, quem sabe ela não me acariciaria a mão calosa por sobre a mesa do jantar, quem sabe não sorriria aquele riso tão dela que eu estranhara no começo, mas a que depois me acostumara e de que até sentia falta.

Quem sabe, quem sabe, quem sabe…

Hoje, quando olho em retrospectiva para aqueles dias quentes de noites bem frias – regime climático próprio dos remansos de águas calmas por onde passaram sarracenos, cruzados, árabes e fenícios -, reato com minha própria dor. Nunca, jamais, deveria ter visto o filminho que Marcel fez da viagem, colando aquelas imagens malbaratadas do telefone da mãe. Tudo isso porque a sensação que me assaltou depois de vê-los foi a de que, de todas as coisas que vivi, poucas teriam me realizado tanto quanto vê-la bem a meu lado, ou tanto quanto ter a sensação de que eu fora minimamente responsável por tê-la sequestrado das garras da abulia, da sensaboria da vida, do anti-jogo afetivo, da Alba-Criança que a impedia de fazer escolhas adultas, e de ter a clarividência de me querer (claro, estou rindo). Eu, Ernesto, queria sim ter sido o emissário a trazê-la para o mundo dos abraços espontâneos e da simplicidade dos comuns. Vendo-a e ouvindo-a nas imagens que ela própria filmara, o que sobressaía? A sombra aterradora de meu fracasso na única quadra da vida em que me empenhara em triunfar.

III

Hoje eu me ofereci para dirigir o carro para ele descansar um pouco. Ernesto aceitou bem minha oferta e aproveitamos uma parada de reabastecimento para fazer o revezamento. Pela décima vez de uns dias para cá, meu ex-marido me perguntou se eu estava gostando da viagem. Eu sei que deveria praticar aqui um pouco do que aprendi, ou do que tenho tentado aprender, ou seja, olhá-lo direto nos olhos, mostrar gratidão e escolher um detalhe que me tenha encantado para ele ter a certeza de que estava acertando. Mas só consegui dizer que tudo, obviamente, ia bem, e que as coisas eram como eram. “Não me arrependo de ter vindo, se é isso o que você quer saber. Se a casinha da mamãe era meio mixuruca, que diferença faz? Pedir ajuda a um bêbado não a transformou num palácio, mas era o que você queria fazer em sua obsessão de interagir com pessoas, e não com dados de tela”.

Não sei se ele não gostou da resposta, mas logo demonstrou irritação com minhas dificuldades em tomar decisões ao volante. Com aquele sotaque brutalizado em que ele capricha quando quer, disse o que mais odeio ouvir: “Qualquer decisão é melhor do que nenhuma, Alba. Pegar à direita ou à esquerda na rua principal do vilarejo é irrelevante, Alba. Aqui todo caminho vai dar numa pequena praça, Alba. E da pracinha, deriva todo o resto, porra. O que você não pode é parar numa rua estreita como esta para consultar suas coordenadas eletrônicas. Isto não, Alba. Para acertar, erre à vontade. Você já errou tanto em terrenos tão nevrálgicos. Que diferença vai fazer errar uma merda de uma rua numa terra de ninguém, cacete?” Foi o cúmulo. Chorei daquele minuto em diante. Até que, com as bochechas doloridas de tanto reprimir os fungados, parei num acostamento e devolvi o volante. “É todo seu. Quando encontrar um banheiro, pode parar, por favor. Quero um pouco de privacidade para falar com meu filho e ver minha neta”. Nada me dói tanto, no fundo, quanto imaginar o que ele vai falar de mim para os amigos. No mínimo vai dizer que sou uma débil. “Cada um tem seu jeito, não esqueça. Inclusive você, o infalível”, foi tudo o que consegui dizer antes de sentir as lentes embaçarem com as lágrimas, quando ele parou com visível má-vontade diante da loja de conveniência. O que me fizera pensar que ele tivesse mudado? Talvez meu senso de conveniência. Mas isso não é assunto para agora. Como diz Laila, devo confiar mais na intuição. E como diz o grosso do Ernesto, talvez devesse confiar menos no celular, que ele vê como concorrente no papel de meu protetor. Decepcioná-lo, no entanto, sempre foi uma boa ideia.

IV

“Alba, eu vou insistir em algumas teses que a gente já discutiu aqui no consultório, OK? Mas antes disso, eu queria te parabenizar. Parabenizar porque desde o primeiro dia, nosso pacto foi justamente o da experimentação consciente, da entrega ao lúdico, do descompromisso com saber se você, a Alba renovada, está agradando ou não. Bem ou mal, você conseguiu este feito. Se teu parceiro gostou ou não, se os humores entre vocês voltaram a se deteriorar, pense assim: eu estou OK, e isso é o que importa. Mas não esqueça de outra coisa. Esse azedume dele, e em parte teu estado de alma também, talvez tenham raízes comuns. O mal de ambos pode derivar da mesma fonte. Não, não, espere só mais um pouquinho, por favor, me deixe terminar. E não esqueça aqui também de praticar o julgamento adiado de que já falamos. No seu caso, admitamos a tese da tristeza na infância. Uma tristeza difusa, mas endógena, talvez jamais aguda, mas sempre presente. Eric Berne gostava de dizer que o Eu-Criança de que já falamos aqui, uma hora cansa de padecer de tanta tristeza. E transforma a tristeza em mau humor – matutino (sobretudo), vespertino ou diurno, tanto faz. Nesse ponto, me permita dizer, o jogo entre vocês está até bem equilibrado. E te digo isso baseada em “Os jogos da vida”, que você não tem obrigação nenhuma de ler, mas que diz lá pelo meio que o mau humor alimenta a indiferença com relação à dor alheia. O que resulta daí? Ora, ele não entra na tua tristeza porque ela o irrita. Nem você entra na dele, porque ambos são sobreviventes de um histórico alentado de dores comprimidas, de angústias abafadas. Daí talvez venha o dilema real, minha cara amiga. De onde vai aflorar a intimidade entre vocês? De lampejos. Diante deles – e aqui pode ser uma lua, uma farra, uma experiência artística compartilhada, um tapa num baseado -, ela vem à tona. E o que será da intimidade no dia seguinte, quando você achar que chegou a hora de reprimi-la para que ela não atropele a agenda íntima da idealização materna? O que será que lhe disseram as ruínas da casinha de portas carcomidas e de portão fechado a cadeado? Vou além: o que será que as pessoas que você considera as suas gostariam que você visse na situação dos dois, a despeito de ele ter se apresentado como um mero operador logístico do passeio? De que emoções você teve que abrir mão para estar à altura da expectativa materna, por mais que você seja tão crítica em relação a ela? Que memória você traz do melhor aplauso que ela te deu? Ora, foi quando você trilhou os ritos de iniciação do establishment e do pertencimento. Ela até repudiava os tais ritos intelectualmente, mas não no plano emocional. Concorda comigo? Não, não quero te entediar, quem vai falar aqui é você, não eu. Mas queria te fazer essa introdução para a gente poder se situar. Só mais uma coisa. Quando ele alegou num momento de raiva – sempre ela – que tinha a impressão de desperdiçar tempo precioso com você, ele tem razão. Não por ter deixado de visitar uma cidade ou outra que ele gostaria. Para hedonistas como você diz que ele é, sempre será tempo. A razão que eu concedo a ele, é porque um pintor respeitável não pode sair da luz clara impunemente, sem ter feito sequer um registro forte em sua arte. E isso ele não pôde fazer por se sentir, lá no íntimo, mera peça de um jogo utilitário, uma banda de laranja espremida e fadada ao lixo. Mas nem um nem outro entende muito de tristeza. Vocês a mataram e esconderam o cadáver no sótão da casa. Agora vamos lá, é sua vez, preciso tomar água. Quer um copo?”.

V

Não sei, sinceramente, em que lugar Marcel guardou a dor da perda. Sempre percebi haver uma desproporção entre o que a mãe sentia por ele e o pouco, quase nada, que recebia de volta, pelo menos aparentemente. Mas sei que isso não é privilégio daquele lar que eu mesmo deixara para trás há tantos anos. E de que direito ia eu me meter nisso, levando em conta que Marcel tinha sua maneira de elaborar a dor? Um belo dia marquei um almoço com Denise, a melhor amiga de Alba, a confidente de décadas, cujo maior mérito era o de manter a relação entre ambas equalizada, a despeito das imensas diferenças de estilo de cada uma. “Imagino como você se sinta, Ernesto. Não pense que para ela era fácil. Lá no fundo, restou um lugar enorme no coração dela para você, apesar das tentativas de ocupá-lo com outros parceiros, obedecendo a um comando que nem ela sabia de onde vinha. Sempre que ela me relatava as desavenças de vocês, eu dizia que a balança das coisas ainda pendia com folga para o lado bom, apesar de tuas extravagâncias e do descaso com as pecúnias que a alma burguesa dela tanto valorizava. Mas o fundamental é que ela não tinha a tal permissão interna para se entregar, entende? Até o fim, ela se digladiou consigo mesma, mas não conseguiu dar o passo definitivo, nem que fosse para quebrar a cara de novo ao apostar em você, como tinha acontecido quando ela ainda era uma mocinha e você era um inveterado playboy namorador. Fique tranquilo, sei que não é fácil ouvir isso, especialmente agora, mas você foi um herói da resistência. E nem me pergunte onde é que já ouvi essa expressão”. O almoço foi curto, não havia porque prolongá-lo. “Preciso me preparar, hoje é aniversário da neta”. Levantei-me para lhe dar um grande abraço e nos despedimos, talvez para sempre.

Fiquei sozinho no restaurante e só pedi a conta depois de temerários três cafés, o que iria fatalmente comprometer a noite de sono. Passaram-se então alguns meses e eu já tinha terminado mais um ciclo de quimioterapia quando me animei a ir àquele endereço da zona sul da cidade, onde sei que ela descarregou com uma terapeuta boa parte do que tinha sido aquele período de resgate, e que culminou com a visita à casa da mãe, na última viagem que fizemos. Era uma jovem senhora loira, longilínea e algo angulosa, que irradiava um calor incomum nos profissionais do ramo. Não sei se ela identificou logo meu nome à pessoa, mas quando eu lhe disse quem era, e o que me levava até ali, ela não me pareceu minimamente surpresa. “Como não vou lembrar dela? Só não tenho certeza de que possa ser de alguma utilidade a um salvador temporão como o senhor, se me permite falar assim. Já não há muito o que se possa fazer e se alguém tiver que ajudá-lo a lidar com essa perda, esta pessoa não serei eu”. Um barulho abafado de avião me fez contar até dez. Disse então que a entendia. Que estava ali mais para sentir o ambiente a que Alba acorria – e de que tanto gostava – em busca de equilíbrio e navegabilidade. “Em dado momento, eu achei que ela iria ganhar mar aberto, que ia deixar as velas receberem todo o vento do mundo”. Mordendo o lábio inferior, a dra. Laila não desgrudou os olhos dos meus: “Entendo”. Então me levantei, abri a sacola plástica e dali tirei um quadrinho que eu pintara. “É para você, Laila. Uma última imagem de sua amiga”. Ao passar pelo parque do Ibirapuera, tendo optado pelo caminho mais longo para voltar para casa, é que consegui chorar.

VI

“Prezado Marcel, Tive o prazer de conhecer sua mãe numa relação de consultório e lembro de tê-lo cumprimentado rapidamente no corredor do hospital, quando da penosa internação de Alba. Depois, mais adiante, recebi o seu pai aqui no meu gabinete. O motivo de minha mensagem para você se deve ao fato de que vou falar num congresso sobre a conceituação da professora Elaine Aron, sobre as chamadas Pessoas Altamente Sensíveis, categoria em que, no meu entender, se enquadravam bem seus queridos pais. Até aqui, digamos que tudo seja ciência. O que eu queria lhe pedir, na verdade, era sua autorização para exibir no recinto um quadro que seu pai fez de Alba que mantenho aqui no consultório. Confesso que não há dia em que eu não o contemple com um olhar renovado, com a sensação de que Alba vai saltar da tela de um momento para outro, sentar à minha frente e conversar. Por que levá-lo a um congresso de psicólogos? Porque o traço de seu pai captou, no meu entender, as comissuras dos lábios, o cenho meio franzido e a alegria represada nas pupilas azeviche de sua querida mãe, que passei a ver como uma amiga. Seu pai podia não ser a mais fácil das pessoas. Mas pergunto: quem é, meu caro Marcel? E depois, o amor que ele tinha por sua mãe era de outro mundo. Nem ela conseguia refutar essa tese, lá no fundo. E como ela precisava da confirmação periódica dele. Este é portanto o meu primeiro pedido. O segundo também diz respeito a uma autorização que só você pode dar. Embora o filminho sobre a viagem que eles fizeram há muitos anos seja hoje de domínio público entre seus amigos e outras redes, eu sei que você foi o autor da edição e do roteiro. Pois bem, numa das raras vezes que Alba se deixou filmar por Ernesto na tal viagem, três cenas me cativaram: aquela em que ela conversa ao celular com sua filhinha, em flagrante corujice de avó. Outra em que ela canta o refrão de uma musiquinha que tinha aprendido com a mãe e, por fim, aquela em que ela parece perdida num labirinto de luzes numa noite fria, e os dois parecem brincar de gato e rato, o que foi, se me permite, um pouco da dinâmica da vida deles. Pois bem, se você me permitir, eu queria editar essas cenas e exibi-las no congresso porque para mim elas dizem muito sobre o Tema. Depois, Marcel, como dizia Freud (não é bem minha linha de trabalho, mas isso não importa), não há na psicanálise um caminho que um artista já não tenha trilhado. Espero que sua filhinha esteja crescendo feliz e saudável. Se um dia puder ajudá-lo, não hesite em aparecer. No aguardo de sua confirmação, receba meu abraço cordial. Laila”.  

9 Comments

  1. Ufa! Este não me atrevo a comentar.
    João Rego, a bola é sua!

    • Ri muito com seu “comentário transferido”, meu caro Clemente. Foi prudente de sua parte manter-se à distância do vespeiro e jogar a batata quente para um aclamado escafandrista das zonas abissais da alma.

      Um abraço,

      Fernando

  2. Prezado João,

    gostaria de te agradecer pela escolha da ilustração deste “Um quadro para a Dra. Laila”. Não deve ser fácil receber vários textos semana após semana, lê-los, internalizá-los para, por fim, achar uma imagem que os reflita, que os reinterprete, dando à edição aquele toque de classe tão necessário para cativar o leitor. De minha parte, mais uma vez, obrigado.

    Abraço,

    Fernando

  3. Tão comovente e tão inexplicavelmente verdadeiro.

  4. Que texto tão profundo em paradoxos existências do relacionamento amoroso. Impossível decifrar racionalmente um sentimento tão sensível e complexo, pois padecem de inexoráveis naturezas.
    Ficou patente que a única visita que se permitiram, Alba e Ernesto, foi pela fachada da casa esquecida.
    Ao seu interior, coube a ruína não vista, mas velha conhecida, cristalizando-se em tristezas pouco resolvidas.
    Para ser dois é preciso querer ser metade!
    E, ainda que se deseje e conheça muito o outro, os rancores nem sempre podem ser passados a limpo…

  5. Obrigado, Maria Tereza, como autor do texto, minha capacidade de julgar os meandros a que ele leva são mínimas. Pode soar um paradoxo (“o texto é seu, cabe a você decifrá-lo”), mas quem escreve nem sempre tem a primazia de sobrevoar o campo de visão do leitor. Não saberia teorizar sobre relações amorosas e as que tive, já estão perenizadas, como insetos sepultados num bloco de âmbar, de onde é improvável que venham a sair um dia. Mas fico feliz que o imenso desencontro do casal tenha chamado tua atenção. Dra. Laila, espécie de mediadora e tradutora das dinâmicas, é também um adorno ficcional. Aliás, fosse ela tão eficaz quanto o retratado, talvez Alba já tivesse aprendido a andar de bicicleta sem rodinhas. Ótimo que você tenha lido. Beijo.

  6. Interessantíssimos os ataques de saudosismo da seção “Comentários Recentes” da “Será?” Num só golpe, sem quaisquer alusões a comentários recentes, aparecem listadas cinco colunas do “Hebdomadário da Corte”, do querido Luciano Oliveira. E somem todas as missivas que estavam em discussão na semana. É como se um estranho mecanismo de inteligência artificial captasse no ar as saudades que deveras sentimos, e lavrasse em pedra uma homenagem não pedida ao Mestre. Incrível.

  7. Que conto estupendo, Fernando Dourado Filho! Roubou a minha atenção desde a primeira linha e só a deixou em paz na última palavra, colada ao seu último ponto. O início, Fernando, que que foi aquilo? Fe-no-me-nal! Por quê? Casou forma e conteúdo à perfeição. Afinal, as personagens principais já viveram muitos anos, não? Então, que a estória comece igualmente: já muitos anos, assim, passados. E a curiosidade que isto criou em mim? Ah!… Me senti como se estivesse, agachada, olhando, através de uma fresta de cerca, uma senhora sexagenária, em seu sexagésimo dia de vida. “O que terá vindo antes na vida desta senhora?”, “O que virá depois?”, “Quem são estes homens com ela?”… “Vou continuar lendo isto aqui, porque agora quero saber t-u-d-o!” Hahaha… Pronto: agora, além dos “capita” de “post”, estou t.bem apaixonada pelos contos de Fernando Dourado Filho! Gratíssima.

    • Querida Helena,

      Dois cabos me prendem à mania de escrever. O primeiro e mais sólido é o da necessidade que vem cá de dentro, que todo dia me lembra de que só sei do pouco que sei, se escrevo a respeito. Minha linguagem falada está cada dia mais insossa e acho que muita gente acha que estou no limiar da debilidade mental. O segundo e mais tênue – e até por isso mais gratificante – é quando alguém como você se dá ao trabalho de registrar a satisfação genuína de ter gostado do que escrevi.

      Por essa e outras, obrigado.

      Fernando

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