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Penso, logo duvido.

Diário do Pina, 05 de janeiro de 2020 – dia da Epifania – Teresa Sales

Teresa Sales

Pescadores das Goiabeiras lutam para sobreviver à falta de pescado causada pela destruição ambiental Foto: Gustavo Pellizzon

A Zelito, a propósito de tua leitura do Diário do Pina passado.

Ao abrir a janela para esperar a claridade do dia, o primeiro pensamento que ocorreu à mulher do sétimo andar, na madrugada do dia 05 de janeiro do ano de 2020, foi que seu Diário do Pina era tão simples e prazeroso como escrever carta aos amigos, no tempo em que se escreviam cartas. Por isso, de propósito, acrescentara uma vírgula entre o título e a data. E, no caso da data, especificando-a no ano litúrgico. Não por crença. Mas pela beleza da palavra.

Logo aos primeiros clarões, quando foi possível ver o mar para além das ondas brancas, lembrou-se que naquele dia, por mais um dia, desde a queda na jangada, não iria à praia. Resolvera levar a sério a recomendação médica, até sarar o dedão do pé. Deveria passar o máximo de tempo possível deitada, com as pernas levemente suspensas. Contentou-se, então, em espiar o mar, como quem, de longe, apenas pisca um olho querendo namorar. Sem sair da cama, recostou-se a uma espécie de travesseiro de espuma, duro, em forma de triângulo, escorada no qual podia olhar o mar, podia tomar a brisa do mar.

Aquela mulher do sétimo andar era chegada a extravagâncias. Um dia, fez um trato com um pescador dos mais velhos – ela conhecia a todos – para levá-la a uma pescaria. Pagaria o preço de um dia bom em peixes grandes. Queria ver de perto o mar profundo e ver também de perto o ofício de um pescador. Até então, desse oceano de esmeralda, só conhecia as beiradas, até onde se toma pé.

Trato feito, saíram no dia aprazado. O pescador velho, na jangada a vela, sem motor. Era nessas mesmas condições que a mulher queria viajar pelos caminhos e avenidas do mar, aos caprichos do vento e das ondas. Acabara de ler O Velho e o Mar, de Hemingway.

O pescador, um dos filhos e a mulher do sétimo andar embarcaram às 5:15 da madrugada. Com privilégios de principiante, a mulher, que era velha, entrou no mar já sentada na jangada. Todo o percurso, da areia ao oceano, a jangada foi movida a tração humana por quatro homens (o velho e três filhos), por sobre dois cilindros que, até meados do século XX, eram toras de coqueiros; e que foram substituídos por rolos de plástico, que o plástico, desde então, fora ganhando espaço à madeira. A velha sentada no banco da jangada, carregada pelo pescador e seus filhos, era ver uma boneca de feira grandona, servindo de enfeite para aquela pobre jangada. Era ver um papangu, do carnaval de Bezerros: sandálias Havaianas nos pés, short, camiseta com proteção solar cobrindo até a mão, chapéu de varredor de rua, óculos escuros. Numa mochila à prova d’água, levava água, uma caderneta, lápis, caneta e protetor solar. Olhando para aquela mulher, já em alto mar, era ver uma ave marinha que estivesse pousada, quieta, no banco da jangada, mexendo-se apenas quando tirava a caderneta e a caneta de dentro da mochila para fazer anotações.

Enquanto os quatro faziam seu trabalho, a tirar de trás e colocar na frente da jangada (ou da frente para trás, pois a jangada entra no mar de ré, e só dentro da água se define em proa e popa) as toras de um plástico azul apagado, conversando entre eles as conversas de pescador, a mulher sentia crescer no seu íntimo um sentimento bom, antigo. Ali, carregada por pescadores em cima de uma jangada. Em Garanhuns, menina, vestida de anjo, em cima do andor de procissões … a procissão no dia de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas, oficiada pelo Padre Miguel.

A jangada já andara longe o suficiente da terra para que só se visse céu e mar, quando a mulher do sétimo andar se apercebeu que sua perna esquerda tinha um discreto sangramento, doíam-lhe os dois pés, e o dedão do pé direito estava um pouco inchado e latejava. Foi só então que se lembrou do tombo, quando subira na embarcação. Esta ainda estava estacionada na areia. Ao pisar dentro da jangada a segunda perna, havia uma tábua em falso, que depois um dos rapazes ajustou. Não foi propriamente um tombo, mas apenas caiu, em pé, da jangada na areia do chão, a uma altura de não mais que vinte ou vinte e cinco centímetros. Queda besta.

Somente quando sentiu os efeitos do tombo, lembrou-se do risinho de mofa de dois dos filhos do velho pescador, ao vê-la, toda desajeitada, entrando na jangada. Na hora, o encantamento do ritual a caminho do mar foi mais forte do que prestar atenção naquele detalhe.

Em alto mar, num local nomeado pelos pescadores de Lama do Avião, pararam, colocaram a âncora, arriaram a vela. Só então a mulher dirigiu a palavra ao velho pescador.  Posso nadar um pouco? Já sentia mais forte o latejar do dedão e pensou que a água salgada lhe faria bem. Sim, podia nadar, assegurou-lhe ele. Naquele lugar não havia tubarão (?). Enquanto ela se punha de pé na beira da jangada para pular num mergulho, eles dois continuaram seu trabalho de preparar a rede para a pesca.

Tirando apenas o chapéu, os óculos e as sandálias, a mulher nadou e boiou de barriga para cima, deixando os raios solares baterem nas pálpebras dos olhos fechados. Ela já sabia que essa é a melhor posição que existe para uma meditação. Boiando. A sensação mais próxima da primeira morada, onde éramos peixes. E só carecíamos nadar num imenso oceano de águas ao mesmo tempo doces e salgadas. Onde nosso dia a dia era apenas um umbigo comprido, pelo qual recebíamos tudo que nosso corpo necessitava para ir se transformando de um sapinho feio em um bebê: pronto para chegar ao destino de todo vivente sobre a terra.

Boiar no mar, de ondas suaves, era o que pensava a mulher, pode nos levar de volta ao colo de Iemanjá – esse mar sólido que sustenta nosso corpo à simples entrega. Quem não se lembra do dia em que aprendeu a boiar? Primeiro vem o medo. Medo de afundar, se afogar. Depois, alguma voz amiga, suave, ouvida como se viesse do fundo do mar, pois os ouvidos estarão parcialmente encobertos pela água, vai lhe ensinando os primeiros passos para se soltar. Para aquela mulher, essa voz havia sido a de seu irmão mais velho, segurando-a pelas costas, dando-lhe coragem para se entregar aos braços fortes das águas do mar, quando ele retirasse suas mãos de suas costinhas magras. Depois que conheceu os ritos iorubás, a mulher do sétimo andar passou a se sentir no colo de sua mãe Iemanjá, cada vez que boiava nas águas espessas do oceano.

Quando entrou de volta à jangada, aí já com a ajuda do filho do velho pescador, que, mais um de seus irmãos que não embarcaram, fizera riso de mofa de sua queda, a mulher pensou que ele, com essa ajuda tão competente e forte, estaria se redimindo da culpa de ter achado graça da queda. Mas quem não se ri de queda alheia?

Naquela hora, sentindo mais ainda o latejar do dedão, a mulher do sétimo andar se lembrou de um certo veraneio de sua infância na praia do Rio Doce, de Olinda, quando lá só existiam poucas casas de alvenaria, no meio de casinhas de pescadores, feitas de taipa e cobertas de palhas secas de coqueiro; e a igrejinha com missa aos domingos. Junto com os irmãos e amigos do veraneio – a cada veraneio mudavam os amigos –, fizeram um dia uma armadilha na areia para pegar incautos. Eram proibidos de entrar no mar antes das três horas da tarde. Primeiro, porque não era bom entrar na água de barriga cheia. E depois, porque o sol só começaria a esfriar pelo meio da tarde. E aquele era sempre o melhor banho, porque a água era ainda mais morninha.

Os adultos iam fazer a sesta. E os meninos? Naquele dia, cada qual segundo sua competência, fizeram uma armadilha. Primeiro, cavaram um buraco na areia. Depois, foram à cata de taliscas de pau, palhas secas, folhas, que servissem de amparo para cobrir a abertura do buraco, de tal forma que o solo ficasse igual às areias no entorno. Naquele dia, uma mulher gorda, com a qual os meninos já implicavam, porque os filhos dela não se misturavam aos outros e nem se queimavam de sol (e logo receberam o apelido de Os Transparentes), naquele dia foi justamente a dona Cremilda quem caiu no buraco. E os meninos, bem escondidos na palhoça onde os pescadores guardavam as tralhas de pescaria e na qual eles brincavam depois do almoço, riam baixinho, escondidos em um canto, para não serem pegos em flagrante.

(Hoje isso teria um nome, que nem chegou a ser traduzido para o português: Bullying, palavra de origem inglesa para indicar intimidações, ameaças, agressões e maus tratos psicológicos e físicos a uma pessoa mais fraca. Aquele século XXI criara a mania do politicamente correto, na ilusão de que, nomeando, resolveria o problema. E o fiu, fiu? Santo Deus, triste da mulher que nunca recebeu um fiu fiu na vida. E de repente, queriam acabar com o fiu fiu. Os movimentos sociais do país Brasil copiavam então, do país que ainda era o centro do capitalismo nas primeiras décadas do século XXI, os Estados Unidos, o que de pior eles inventavam, inspirados eles pela rigidez da religião fundante daquela sociedade, o puritanismo. Em vez de copiar outros valores daquela que foi pioneira na democracia do século XX, tais como o espírito do trabalho voluntário, do fazer cotidiano na vida prática, sem quarto de empregada nas residências, sem depender mais da escravidão, que no país Brasil perdurava no trabalho doméstico.)

Estaria a mulher do sétimo andar pagando em vida uma traquinagem de infância? Aquela tábua solta no fundo da jangada, teria sido uma armadilha dos filhos do velho pescador?

Naquele domingo da Epifania, Dia de Reis, com o marzão na frente de sua janela esperando por um bom mergulho e para segurá-la em seus braços macios de Iemanjá, a mulher olhava o dedão do pé e se preparava para cuidar dele o melhor que pudesse, para sarar logo e abreviar sua pena. Pois de Crime e Castigo penam os homens desde que Eva, tentada pela serpente, comeu e deu de comer a Adão a romã do pecado.

3 Comments

  1. A mulher do setimo andar olha o horizonte, a partida dos pescadores e suas jangadas, e se despede das saudades triangulares.

  2. Linda crônica de amor ao mar. Como tem cara de autobiográfica, estou boquiaberta com a tal “velha” com coragem de se jogar de um barco em alto mar para ficar boiando. A primeira e última vez que me joguei de um barco em alto mar, pilotado pelo Maurício Vinhas de Queiroz, eu tinha 26 ou 27 anos.

  3. Lindo Teresa, enternecedor! Estás escrevendo cada vez mais cada vez! Quase choro pela emoção da leitura me lembrando da infância dos veraneios desta linda praia de boa viagem! E não é que quase me afoguei junto com meu irmão, pulando nas ondas atras de um pequeno cardume de pequenos peixes prateados! Lindo, lindo!

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