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Penso, logo duvido.

O caso, como ele foi – Memória de Redação – Ivanildo Sampaio

Ivanildo Sampaio   

Parque das Esculturas de Francisco Brennand – Recife.

Já me pediram, várias vezes, para escrever sobre um dos episódios que marcaram minha gestão à frente da Redação do Jornal do Commercio de Pernambuco, apenas mais um, nos 29 anos em que tive a honra de trabalhar com uma equipe de profissionais tão solidários  e talentosos. Sempre evitei, mas como o fato foi sendo deturpado com o passar do tempo, em nome da verdade eu conto agora “o caso como o caso foi”, com a licença do saudoso Paulo Cavalcanti. Foi assim:

Roberto Magalhães Melo, ex-governador de Pernambuco e ex-deputado federal, era prefeito do Recife, com uma gestão muito bem avaliada e chances reais de conseguir a reeleição. Mas era um político inquieto – e inquieto foi, enquanto viveu na política.

Era uma segunda-feira de agosto de 1999. Eu havia, como sempre, chegado à Redação  pela  manhã, conversara com alguns editores sobre  temas corriqueiros, avaliara nosso desempenho em relação aos concorrentes, me  informara sobre o que estava sendo produzido para a edição do dia seguinte – tudo caminhava para um dia sem anormalidades. Vi, na agenda, que havia marcado um almoço com o jornalista José Tomaz Filho, ex-editor da primeira página do JC e ocupando o cargo de  Secretário de Imprensa do ex-governador de Pernambuco e então prefeito do Recife, Roberto Magalhães.

Durante o almoço, Tomaz cumpriu, meio a contragosto, o papel que lhe competia como Secretário de Imprensa: reclamou do noticiário do jornal, que o prefeito considerava injusto para consigo. Tomaz sabia,  pois trabalhara conosco,  da total imparcialidade que sempre mantivemos em relação a quem quer que estivesse ocupando o poder. Explicou que “dr. Roberto acha que o JC  não divulga as ações positivas da Prefeitura”, enquanto eu respondia, meio de gozação, “que era exatamente para fazer as coisas positivas que o povo o elegeu”. E quem deveria fazer louvação  das ações do prefeito era  sua agência de propaganda, não os jornais. Éramos amigos, como continuamos sendo, ele cumprindo sua missão; eu, as minhas tarefas, entre as quais garantir a qualidade da informação e segurar alguns simpatizantes do PT, na redação, para evitar que a paixão insana de alguns pudesse afetar a imparcialidade editorial.

No final do almoço, já no cafezinho, Tomaz recebe uma ligação pelo celular, alguém informando que o prefeito  saíra do seu gabinete e estava indo para a  redação do Jornal do Commercio, para um  encontro com o diretor de redação.  Como isso não estava na minha agenda, nem na do Secretário, ambos deduzimos que tínhamos pela frente algum problema – e certamente grave. Chegamos juntos na antiga sede do jornal, na Rua do Imperador, e subimos  para o meu Gabinete, no terceiro andar, onde alguém havia acomodado o prefeito, à espera do meu regresso.  Entramos, eu e Tomaz,  e encontramos Roberto Magalhães, com um dos seus secretários,  suando muito, irritado,   meio sem controle, e estranhando a presença de Tomaz, pois jamais imaginaria que havíamos almoçado juntos,  algumas horas antes.  Ambos perguntamos quase ao mesmo tempo:

– “Dr. Roberto, o que é que houve”?

E ele: “Acho que estão querendo me desmoralizar – e eu não sou homem para ser desmoralizado”.

A essa altura, notei que ele  portava um revólver  na cintura, fato que me causou estranheza, pois havia trabalhado na campanha que o elegera, alguns anos antes, governador de Pernambuco – e mesmo numa campanha radicalizada, Roberto Magalhães jamais portara uma arma, não que eu visse.  E antes de me acomodar, iniciamos um surrealista diálogo:

– O senhor agora passou a  andar armado?

– Eu ando armado desde que fui relator da CPI dos “Anões do Orçamento”, na Câmara Federal…

– E precisa deixar a arma à vista?

– É que este paletó está curto, por isso o revólver aparece.

– Então, o senhor precisa comprar um paletó maior, pois essa arma à vista pega mal…

Com esse diálogo maluco, Magalhães  iniciou um rosário de queixas contra a Imprensa como um todo, e alguns colunistas em particular, que teriam publicado informações inverídicas envolvendo o nome de sua senhora, Jane Magalhães.  Noticiário que se referia a uma série de esculturas de Francisco Brennand,  expostas no bairro do Recife Antigo, que, na leitura de alguns, teriam um  relativo teor erótico, como se isso fosse alguma novidade nas obras desse extraordinário artista. Eu e Tomaz atuávamos como “bombeiros”, pois Roberto Magalhães sequer havia lido algumas das notas a que se referia,  “comprara” as informações passadas por alguém da cozinha do Poder, desses tantos que vivem de intrigar e bajular. Quando ele parecia ter desabafado, e aparentemente  se acalmara, pergunta para mim:

– Orismar  ainda está aí?

Normalmente,  não deveria estar. Colunista social, Orismar “garimpava” muitas notícias “correndo a noite”,  chegava cedo à Redação e, por uma necessidade industrial, produzia e editava a coluna até às 13hs, deixava a página para que eu lesse e liberasse, raramente retornava ao jornal. Algumas pequenas emendas, quando havia necessidade, eram feitas e comunicadas a ele, por telefone.

– Orismar Já deve ter largado –  respondi, quase consciente de que o colunista  já  saíra para o almoço.

– Foi empurrado pela mão do capeta que um contínuo da Redação, que acabara de entrar no meu gabinete com algumas páginas desenhadas para minha aprovação, ouvindo a conversa, resolvesse  “enfiar sua colher”…

– Doutor Ivanildo – alguns cometiam o crime de  me chamar de “doutor”  – Orismar hoje atrasou, ele ainda está na Redação… Quer que eu chame ?…

– Longe de imaginar o que viria pela frente, disse apenas: “chame…” Foi o começo de uma tragédia que não houve.

– O colunista entrou na sala e, tão logo viu o prefeito, fez a esperada saudação:

– Boa tarde, doutor Roberto…

O prefeito levantou-se e, absolutamente transtornado, num tom elevado de voz, respondeu:

– Boa Tarde… O que é que o senhor tem contra mim? Quantos anos o senhor tem?

– E repetiu, quase gritando: Quantos anos o senhor tem????

O meu gabinete era uma espécie de aquário, com uma grande parede de vidro, que me permitia ver a redação e, evidentemente, ser visto por quem lá estivesse. Vários repórteres e editores, que já haviam estranhado a chegada do prefeito e sua presença no meu ambiente de trabalho,  correram para ver o que estava acontecendo.

Orismar Rodrigues, trêmulo e perplexo, respondeu à pergunta de Magalhães, que, totalmente fora de si, continuou:

– Quantos anos o senhor quer viver? Ninguém me desmoraliza!!! Não sou homem para ser desmoralizado!!!

Orismar, trêmulo, impotente, apenas ouvia – sem entender coisa alguma de tão grande destempero por parte do prefeito.

Isso durou menos de um minuto, tempo necessário para as pessoas que estavam na sala, inclusive José Tomaz,  tentassem acalmar o prefeito, enquanto toda a Redação se concentrava em frente ao “aquário”. Repórteres e redatores estavam perplexos, desnorteados, pois, apesar do vidro, era possível ouvir o que estava acontecendo.

Contido em sua fúria, o prefeito deixou a Redação,  enquanto chegavam, de todas as partes, repórteres dos principais jornais do país, que na época operavam suas sucursais em Pernambuco, e, claro, tinham sido avisados pelos colegas locais. Nenhuma  vez, como conta a lenda, o então prefeito do Recife chegou a empunhar a arma contra o jornalista. As sucursais também eram povoadas de simpatizantes e militantes do PT. O prefeito do Recife, com um histórico de político “de direita”, havia dado a eles  um assunto para ser explorado por vários dias.

O motivo da irritação de Roberto Magalhães com o noticiário sobre as esculturas não merecia tamanha reação  – muito menos   pagar por ela o colunista Orismar Rodrigues: quem havia publicado  uma nota sobre o assunto, com um pouco de ironia e algumas pitadas de maldade,  havia sido o jornalista Marco Aurélio de Alcântara, noutra coluna e noutro jornal. Que saiu “de fininho” da história, como aliás costumava fazer. Os jornais, no noticiário geral,  falaram do “Parque das Esculturas”, mas sem críticas nem adjetivos.  Registramos, friamente, o lamentável fato da “invasão da redação pelo prefeito”  na edição do Jornal do Commercio do dia seguinte, mas isso não bastava: era muito pouco para um fato tão grave. O diretor de Redação estava obrigado, moralmente, a tomar uma posição em defesa de sua equipe e do seu colunista. O que foi feito 48 horas depois, com um texto duro, crítico, incisivo, que não encontrou, da outra parte, qualquer contestação – pois não havia o que contestar.

Ciente da injustiça que havia praticado contra o jornalista e, talvez arrependido do ato impensado, Magalhães  teria buscado a mediação de um empresário pernambucano amigo seu, para procurar Orismar e, num café da manhã na residência desse empresário, pedir desculpas pelo ocorrido. O colunista me  procurou e pediu minha opinião: se o convite fosse formalizado, deveria aceitar ou não aceitar ir ao café da manhã?

Fui sincero:

– Você foi agredido e destratado publicamente. Se Roberto Magalhães quer pedir desculpas, que venha  aqui à Redação e, também publicamente,  faça isso. Pedir desculpas escondido,  na casa de um amigo, como está sendo proposto, pra mim não vale. Eu não iria. Orismar morreu alguns anos depois, sem jamais ter retomado esse assunto. Eu também nunca perguntei se ele foi, ou não, ao proposto café. Roberto Magalhaes confessou a algumas pessoas  que jamais voltou a usar uma arma depois desse episódio. Orismar morreu ainda moço “ de morte morrida”. Eu deixei a Redação do JC depois de 29 anos – não lembro de ter vivido, depois deste, outro episódio de insatisfação com uma notícia de jornal que fosse ao  menos parecido. Ainda mais quando essa notícia foi publicada num jornal concorrente. Roberto Magalhães foi candidato e perdeu a reeleição, há quem diga que, em grande parte, por conta da exploração que seus adversários fizeram do “caso Orismar”. O PT passou 12 anos comandando a Prefeitura do Recife – quando também saiu de lá pela vontade do povo. O empresário que teria proposto o café da manhã de reconciliação ainda vive, mas não fala do assunto. O JC não está  mais na Rua do Imperador, eu não dirijo mais sua redação, as sucursais dos jornais do Sul fecharam todas, alguns jornais, inclusive.

Tudo  aconteceu assim. O resto é lenda e criação literária de quem não viveu os fatos, nem  foi, como cantava o slogan do antigo Reporter Esso, “testemunha ocular da história”.

 

Ivanildo Sampaio

https://revistasera.info/category/conteudo/secoes/memorias-de-redacao/

4 Comments

  1. Louvo o retorno do nosso amigo Ivanildo Sampaio, com suas “Memórias da Redação”.
    Difícil haver texto mais interessante, mais instrutivo, mais divertido!

  2. Amigo Ivanildo, pra mim, Roberto Magalhães perdeu a eleição quando deu aquela banana na carreata de campanha na Av. Boa Viagem, reagindo, alesadamente, à provocação que lhe foi endereçada. Esqueci que palavras o irritaram. Quando a gente se encontrar você me dirá. Estou enganado ou envolvia D. Jane, mulher dele?

  3. Querido Ivanildo,

    Numa semana das mais dolorosas de sua vida, em que você perdeu seu amado irmão Inaldo Sampaio, outra grande figura da imprensa brasileira, eis que você nos brinda com os bastidores dessa história divertida.

    Sobre Roberto Magalhães, certamente que José Paulo Cavalcanti, que foi próximo de meu também amigo Sileno Ribeiro de Paiva, poderia nos contar aqui um dia a história de D. Jane e o sapoti, igualmente antológica.

    De minha lavra, tenho pouca coisa. Apenas a iracunda indignação dele, estando a meu lado no aeroporto de Brasília, ao ver uma mulher amamentando no saguão de embarque. “É um desplante, um acinte.” Ainda hoje rio do tom.

    Um abraço,

    Fernando

  4. Velho jornalista, como Ivanildo dirigi redações, presenciei fatos inusitados e alguns relatei, de outros soube por testemunhos de colegas dessa vida agitada, jamais monótona dos que trabalhamos com notícia. Mas não me lembro de ter lido, ambientada em nosso meio, história tão extraordinária como a da “tragédia que não houve”, a envolver destacado homem público e jornalistas idem, além de gerar consequências políticas. E mais atraente é o relato se devido a um mestre do texto, que “conta o caso como o caso foi” mas tempera-o com sutilezas e dosada ironia, a sugerir mais que explicitar o potencial de desastre (não só pessoal) da circunstância que lhe coube administrar. Estivesse no teatro eu aplaudiria de pé, gritaria ‘bravo!’, ‘bravo!’ e reclamaria o autor (‘o autor!’, ‘o autor!’) ao proscênio.

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