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Penso, logo duvido.

Deus, o diabo e o presidente – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Uma figura sombria observava à distância a conversa de Deus com um grupo de religiosos que imploravam pela ajuda divina, para livrar o país do autoritário e desrespeitoso presidente da República. Mesmo de longe, ele percebeu, por recortes do diálogo e pela decepção visível na face dos religiosos, que Deus recusava envolver-se nos mesquinhos problemas políticos de qualquer país. Quando os religiosos, cabisbaixos, iniciaram a descida para a terra, a figura sombria correu na frente e sentou numa pesada nuvem cumulus-nimbus, no meio do caminho. Os religiosos tentaram contornar a nuvem que trovejava, e deram de cara com a inesperada figura. Inicialmente assustados, se surpreenderam com o gentil cumprimento da estranha figura.

– “Desculpem, não era minha intenção, mas não consegui evitar, e ouvi parte da conversa de vocês com Deus. Eu posso ajudar vocês”.

– “Quem é você”, perguntou, temeroso e arrogante, o líder do grupo.

– “Ah, desculpem mais uma vez. Devia saber que não iam me reconhecer, já que vocês me descrevem como um ser terrível, com cara de porco, olhos vermelhos e chifres alongados. Eu sou Lúcifer”.

O religioso mais jovem tentou correr por cima da nuvem, mas foi derrubado por um forte trovão, e caiu quase nos pés de Lúcifer. “Ei! Não tenham medo. Estou querendo oferecer meus serviços para resolver o problema de vocês”.

O líder religioso, mais seguro e autoconfiante, desafiou o demônio. “Não tenho medo de você. Nem quero a sua ajuda. Se Deus, todo poderoso, não pode fazer nada, como você pensa que vamos aceitar seus serviços? Você não tem mais poder que Deus”. Lúcifer sorriu e comentou de forma quase didática.

– “Escutem. Não fiquem decepcionados com Deus. Vocês exageram o poder de Deus. Ele está velho. Acho que ele gostaria de ajudar vocês, mas não tem este poder todo, não mais”.

– “E você, satanás. Que poder você tem?”, protestaram, quase em coro, os religiosos.

– “Eu tenho arte, artimanha, meu caros, coisa que Deus não tem. Ele é muito mais poderoso que eu, mas perde no jogo da dissimulação e da malícia. Com estes instrumentos, eu posso ajudar vocês a se livrarem do presidente. Lembram da cobrinha no paraíso? É isso, artimanha!”

O líder dos religiosos puxou o grupo, para irem embora, mas quando começavam a contornar a nuvem o mais velho deles comentou, baixo e meio envergonhado, que poderiam aceitar a proposta do demo. “Qual é o nosso principal objetivo? Tirar o presidente, para salvar o Brasil. Se ele pode fazer isso, o que temos a perder?” A fala influenciou o grupo, mas o líder ainda afirmou que o satanás não faria nada de graça. “Ele vai cobrar um preço muito alto pelos seus ‘serviços’ e vai nos jogar contra a vontade divina”. Depois de uma pequena, mas acolorada, discussão, eles voltaram e foram direto ao assunto:

– “O que você quer como pagamento por estes ‘serviços’? Nossas almas, provavelmente”.

Lúcifer sorriu, compreensivo. “Não quero as almas de vocês, muito tristes e lúgubres”. Levantou, com impressionante estrutura física, e completou: “Eu quero ajudar o Brasil, mais do que atender a um desejo de vocês. Eu adoro o Brasil, aquela esculhambação, carnaval, muita sacanagem, todos os pecados capitais misturados numa grande festa. Adoro! Adoro!. Mas vocês têm razão. Tenho duas condições. A primeira é que me consigam uma foto em tamanho natural de Paolla Oliveira, com autógrafo tipo ‘ao meu querido amigo Lúcifer’. Depois de feito o serviço, quero que vocês façam um pronunciamento público, confirmando que o foi senhor das trevas que realizou seu desejo, certo?”

– “Tá louco”, reagiu o líder dos religiosos, “nunca vamos dar uma declaração desta. Sabe por que? Você não conseguirá nada com suas artimanhas se não for também a vontade de Deus. Ou que, pelo menos, ele permita”.

Lúcifer ouviu calado, balançou a cabeça com irritação e disse: “Tá bom, a foto é suficiente. Mas tem que ser nua”.

– “Você é um pervertido. Mas, tá certo. Vamos pedir a ela esta foto autografada. E agora? O que vai fazer?”

– “Enquanto vocês buscam esta foto autografada, eu vou trabalhar com minha arte e um pouquinho de ciência. Encontro vocês aqui depois que livrar o Brasil deste presidente”. Dito isto, mergulhou na nuvem e desapareceu.

Quando o presidente entrou no gabinete, ainda muito cedo, Lúcifer estava elegantemente sentado na poltrona. “Quem é você? E o que está fazendo no meu gabinete?”, gritou o presidente.

– “Eu sou Lúcifer, o diabo, o demônio, como queira”, respondeu.

– “Que palhaçada é esta”, gritou o presidente, que, virando para o assessor, mandou chamar a segurança. Antes que os policiais chegassem, Lúcifer foi logo falando que estava alí para ajudar o presidente, lembrando da ameaça de uma grande conspiração dos comunistas que pairava sobre sua cabeça e o destino do Brasil. A simples alusão a uma conspiração comunista foi suficiente para abrandar o presidente, que aceitou conversar com aquele louco que se dizia satanás. Mandou parar os seguranças, sentou ao lado de Lúcifer e perguntou o que ele sabia, e como poderia ajudar. Num lapso, lembrou das suas convicções religiosas, mas pensou que a luta contra o comunismo ateu era a  sua maior missão.

– “Presidente, a conspiração dos comunistas no Brasil é fácil deter. Eu vou levar todos os comunistas comigo para o inferno”. Enquanto formulava esta promessa, Lúcifer percebeu a enrascada. “Onde eu vou encontrar comunista neste paísl? Ninguém é mais comunista. Nem o PCdoB tem mais comunista”. O certo é que o presidente exultou. “Uau! Isso é ótimo. Nos livramos deles e ainda vão sofrer nas profundas do inferno. Não esqueça de Maia e Moro”.

– “Peraí, presidente. Esses caras não são comunistas. Eu disse que levo todos os comunistas que sobram neste país”, respondeu Lúcifer, lembrando que nem tinha mais comunista no Brasil. “Mas não vou levar os seus inimigos que não são comunistas. Deixa eles aí que vão impedir que surjam novos comunistas”. O presidente não gostou, mas terminou aceitando e se deliciando com o sofrimento dos comunistas no infermo.

Lúcifer confirmou que, no inferno, os comunistas iam sofrer muito, porque estava cheio de perversos criminosos. “Imagina como vão sofrer nas mãos de Hitler, Stalin, Filinto Mueller, Fleury e até seu amigo Brilhante Ustra”, falou rindo o príncipe das trevas.

– “Stalin, não caro Lúcifer, Stalin é comunista”, lembrou o Presidente.

– “Desculpe, presidente, o senhor precisa conhecer mais um pouco de História. Stalin matou mais comunsta do que Hitler”.

O presidente aceitou a explicação de Lúcifer e, com o movimento das mãos, deixou a pergunta. “Quando vai ser isso, meu caro satanás?”

– “Na hora que o senhor quiser”, falou Lúcifer docemente. “Mas, tem uma condição”, completou.

– “Ah, eu sabia. Vai querer levar minha alma quando eu morrer”, protestou o presidente, com tanta indignação, que significava a recusa do pacto com o diabo. Para sua surpresa, Lúcifer corrigiu e formulou a sua proposta mais maliciosa.

– “Não, presidente. Quero que o senhor vá comigo. Agora. Com tanto comunista no inferno, vou precisar reforçar o exército de combate. E, mais do que isso, tenho necessidade de um líder forte e com convicções como o senhor para conduzir a tropa no açoite permanente dos comunistas”.

O presidente sorria a cada frase do príncipe das trevas. De repente, levantou e reagiu assustado: “Ei! Eu não vou para o inferno. Sou religioso e estou me preparando para encontrar Deus e Jesus Cristo no paraíso. Leve os comunistas e peça o que quiser menos que eu vá com você para o inferno”.

Mas Lúcifer já esperava a resposta do presidente e tinha pronta sua mais brilhante artimanha: “O senhor é uma liderança muito mais importante do que merece este insignificante país. E depois que eu livrar o pais de todos os comunistas, o senhor não tem mais o que fazer aqui, até o vice-presidente consegue governar o Brasil. Estou convidando o senhor para uma missão muito maior e à altura da sua força, coragem e liderança. Os comunistas estão se organizando e conspirando também no inferno. Imagine se eles tomam o poder, Vão poder dominar o mundo e ameaçar a paz no paraíso”. Lúcifer fez uma pausa teatral, abriu os braços e, quase implorando, jogou o argumento malicioso:

– “Preciso da sua liderança para deter a grande conspiração comunista no inferno. Sem o senhor do meu lado, o comunismo vencerá”.

O presidente, quase chorando de emoção, abraçou Lúcifer, levantou o braço como uma manifestação de combate, e gritou: “Vamos à luta”. Partiram juntos, sem que o presidente percebesse que Lúcifer não tinha encontrado nenhum comunista para levar com eles para o inferno.

One Comment

  1. Instigante alegoria!, parabéns!

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