Família do interior do nordeste (autor não localizado).

 

No momento em que estavam sendo anunciadas as regras para a concessão do auxílio emergencial, visando minimizar as perdas de renda em razão da Pandemia, encaminhei um comentário à coluna Cena Política do JC sobre as consequências da medida para amenizar a rejeição ao Presidente da República no Nordeste brasileiro.

Tomando com referências o valor do benefício e o alargamento dos critérios, com mudanças  no perfil dos beneficiários do Bolsa Família do Cadastro Único, pela inclusão  dos trabalhadores informais, foi fácil prever que 40% da população do Nordeste estaria dentro dos  novos critérios para  receber o auxílio. Isso representava um  substancial aumento da circulação de dinheiro nas cidades de pequeno e médio porte da região, um quadro novo, que não teria como não influir na aprovação do Governo. Apenas  como exemplo, no mês de março,  em uma cidade de porte médio (70 mil habitantes ) do sertão, o conjunto dos beneficiários do Programa de transferência de renda (Bolsa Família) recebeu, no total, cerca de R$ 1.500.000 (hum milhão e quinhentos mil reais), o que representava o benefício para 27% da população. Três meses depois, esse benefício subiu para R$ 19.134.000 (dezenove milhões  e 134 mil reais), ampliando o benefício de renda direta  para  40%  da população, o que provocou um grande impacto no comercio local.  Dada a similaridade de renda entres os munícipios do Nordeste, era evidente a repercussão sobre a economia e a percepção política dessa região em relação ao governo.

Pesquisa recentemente divulgada pelo IBGE indica que 29,4 milhões de domicílios brasileiros (43% do total) receberam, em junho, algum auxílio emergencial relacionado à Pandemia. O que, na verdade, segundo aquele Instituto (Pesquisa COVID/junho),  significa quase metade da população. Cerca de 104,5 milhões de pessoas vivem  em domicílios em que pelo menos  um morador recebeu auxílio, ou seja, “direta ou indiretamente, esse contingente pode ter sido beneficiado com o auxílio”, disse o Diretor Adjunto de Pesquisas do IBGE, acrescentando que foram distribuídos R$ 27,3 bilhões de reais, sendo que metade da população brasileira, formada pelos estratos mais baixos de renda,  recebeu 75,2% dessas transferências. (O globo, 17/08/2020).

Pelas conclusões do IPESPE, conceituado instituto de pesquisa que faz um Painel mensal sobre a avaliação do governo desde janeiro de 2019 , a melhora recente da avaliação de desempenho do Governo Bolsonaro vem dos estratos da população com até cinco salários mínimos, faixa que concentra os que requisitaram o auxílio emergencial. Entre  os meses de julho e agosto , os mais pobres, com renda de até 2 salários mínimos, a aprovação foi de 28% para 34%. Já  os que têm renda entre 2 a 5 salários mínimos, a aprovação passou de 32% para 44%. Certamente nesse segmento deve se encontrar uma parcela do limite superior do estrato que mudou  de posição por outras razões, como o recuo de Bolsonaro da pauta de polarização política e de afronta à democracia. Um parêntese, apenas, para ressaltar que, muito provavelmente, uma parcela da classe média, eleitora de Bolsonaro, terminou funcionando como um freio aos arroubos autoritários do Presidente, quando mudou para negativo a avaliação do Governo, ao perceber o perigo de suas atitudes grotescas  que poderiam resultar no  colapso da instituições. No entanto, essa inflexão não significou uma ruptura ainda com o bolsonarismo; mas, somente, uma advertência, considerando que parte desse segmento já voltou a ter uma avaliação positiva do Governo.

Outro corte que pode mudar a compreensão do fenômeno conjuntural de apoio ou rejeição ao governo é o corte  regional, pois   permite  agregar o sentimento do eleitorado, não apenas com caraterísticas sócio econômicas próprias da divisão social, mas com uma tradição politica e cultural bem diferenciadas e, por conseguinte, passível de medir a maior ou menor sensibilidade do eleitorado em relação ao projeto do governo a longo prazo.

Tomado, então, o desdobramento da avalição do governo nas macro regiões nacionais desde março, que marca o inicio das restrições sanitárias, temos que na região Nordeste (27% do eleitorado), a avaliação positiva (bom e ótimo) na metade de mês de março era de apenas de 21%, em maio caiu para 17%, em junho passou para 22%  e em agosto chegou a 28%. Tem-se então que, no auge do programa de transferência de renda, a aprovação cresceu 6 pontos nessa região, em que pese que a rejeição (ruim e péssimo) ainda se situa  em 46% , continuando a mais alta entre as regiões do País. O que significa que a maioria do eleitorado ainda está longe de se identificar com o atual presidente. No Norte/Centro-oeste, 7,21 do eleitorado que, junto com a região Sul (14,47%), sempre mantiveram as avaliações mais positivas do atual governo, os índices   ótimo e bom, no mesmo mês tomado como referência, a avaliação positiva do governo era respectivamente 38% e 37%; enquanto  nos meses de maio e junho verifica-se um queda nas duas regiões  para  28% e 32% respectivamente, percentuais que voltam a subir ligeiramente em junho – 33% e 34%,  para  darem um salto de dez pontos – 43% –  na primeira, e seis na segunda – 39% – no mês  de agosto, mantendo-se ambas como as regiões onde o governo federal desfruta dos  maiores índices de apoio. No sul governista, a maior expressão do conservadorismo atualmente, um adendo histórico: entre os três  estados que compõem a região, o Paraná foi uma reserva de mercado do PSDB por mais de duas décadas, e o Rio Grande do Sul elegeu dois governadores do PT, no ciclo democrático pós-Constituinte.

Finalmente, na análise dos dados desse painel, cabe um olhar especial para a região que representa a maior fatia do eleitorado (42%). Constata-se que a aprovação do governo em março 2020 estava em 30%, caiu para 28% em maio, enquanto entre os meses de junho e agosto sobe 11 pontos, ou seja, de 28% para 39%. E a rejeição se situava em  38%, quase no mesmo nível da aprovação. Em qualquer análise não se pode esquecer o histórico do perfil político do eleitorado do Sudeste, especialmente no  Estado de São Paulo, que por duas décadas manteve-se, majoritariamente, entre o centro e a  esquerda (PSDB/PT), enquanto que em 2018 inverteu completamente os sinais da polarização politica, tornando-se  o principal  responsável pela vitória do candidato como ideias de extrema direita e provocando o debacle da candidatura presidencial centrista do PSDB no Estado.

Uma outra dimensão para uma prospecção de conjuntura é procurar entender  a percepção da população sobre o pertencimento a uma determinada classe ou estamento social, considerando o padrão de consumo, aspiração de futuro e outras variáveis mais definitivas, que aumentam conforme o nível de complexidade da economia e da sociedade brasileiras, análise que se deve complementar com o sentimento mais cotidiano da pesquisa de opinião. Trata-se de tomar em consideração a inserção dos diferentes segmentos da população numa perspectiva dos valores  das classes sociais. Uma projeção da consultoria Tendências, publicada em matéria do jornal Valor Econômico (03/08/2020) prevê que, com  a Pandemia, as classes D/E rumaram para um patamar de mais de 10 anos atrás, em razão da retração do mercado. O que significa uma volta de cerca de 3,8 milhões de famílias da chamada classe C para a base da Pirâmide. Nessa projeção, as classes D/E abarcarão 41 milhões de família no final do ano, ou seja, 56% dos domicílios  brasileiros, cenário que é maior de que os 54,68% no ano de 2010. Tomando uma sequência histórica desde 2010, constata-se uma mobilidade ascendente desses segmentos (Classes D/E) ano  após ano, com um refluxo em 2015/2016, resultado da grave crise do biênio, mas que voltou  a melhorar nos dois anos seguintes, para agora retroceder para o patamar de 10 anos atrás. Essa é uma perda  que um auxílio emergencial ou que uma renda mínima ameniza, mas não resolve toda uma  frustação das expectativas de um segmento que experimentou uma mobilidade ascendente em uma década e agora entra em uma curva descendente.

Pela complexidade da sociedade brasileira, é evidente que não se pode reduzir a percepção da população em relação ao governo a um único fator, a uma explicação exclusiva pela renda auferida em uma conjuntura específica. Outros condicionamentos contribuem para moldarem o comportamento da sociedade na sua percepção de pertencimento. Se o governo sempre tem margem para propor ou implementar políticas de investimentos que acenem para uma retomada do desenvolvimento, a sociedade tem mecanismos para firmarem o seu comportamento com base a um leque sentimentos bem mais complexos do que um único determinante.