Bolsonaro.

 

Os brasileiros precisam de vacina para corona vírus. Inglesa, chinesa, alemã. De onde for. E a República brasileira precisa de vacina para insensatez. Parece vivermos em deserto de homens sensatos.

Por volta do ano 400, a. C., um homem andava pelas ruas da Grécia antiga com uma lamparina. Indagado porque fazia isto, respondeu:

– Procuro um homem virtuoso.

Cinco séculos depois, aproximadamente no ano 40, d. C., o imperador Nero viveu circunstância improvável. Enquanto Roma ardia em incêndio, ele tocava sua lira. Indiferente ao destino dos cidadãos e da Cidade.

O presidente. Estamos no século 21. E o Brasil convive com cenário caracterizado por conjunção perversa: retrocesso político, desconstrução de políticas públicas, crise econômica e manobras para obstar políticas anticorrupção.

O retrocesso político decorre da falta de preparo do presidente da República. Sua Excelência, umas vezes, ausenta-se da condução dos problemas e suas soluções. Como no caso da reforma da Previdência. Outras vezes, exerce silêncio conivente, como no caso do discurso abusivo feito, em reunião ministerial, pelo ministro do Meio Ambiente. Igualmente recheada de expressões chulas. Em que o representante ministerial defendeu a passagem de boiada em áreas de mata.

Em todas as vezes, Sua Excelência assume ar de imprudente desrespeito. Como no caso de jornalistas, na frente do Palácio, que foram ofendidos verbalmente por ele. E, em recente viagem ao Maranhão, quando, soltando piada de mau gosto, transpareceu preconceito homofóbico.

O governo. O país não está apenas acéfalo, desorientado. O país está sendo obstinadamente desconstruído. Administrativamente. Parte das políticas públicas se destina a arruinar os sistemas gerenciais que foram custosamente erguidos por décadas. É o que ocorre com a política ambiental. Com a suspensão dos setores de fiscalização na Amazônia. No âmbito do IBAMA e do ICM Bio. E com a descontinuidade de compromissos assumidos na COP 21, em Paris. Especialmente quanto à descarbonização do ar.

É o que ocorre com a política de saúde. Com o desvio ideologizado da ação governamental. Em prejuízo do combate ao covid 19. Política que, na prática, não tem coordenação efetiva. E não recebe apoio federativo do governo central.

É o que ocorre com a política educacional, envolta em cortina de silêncio cúmplice. Por falta de discurso competente. Sem que se dê continuidade à reforma do ensino básico. Que está irresponsavelmente parada. Numa área estratégica para formação oportuna de jovens. E para inserção competitiva do Brasil na corrida tecnológica.

A política. O governo também está fraturado em sua base política. Sua Excelência, o presidente, incorporou ao Executivo quadros militares em extensão nunca vista. De outro lado, estimulou a ação ativista de milícias midiáticas. E bem assim as de fundo evangélico. Cujos propósitos imediatos não se alinharam aos objetivos programáticos do governo. Representantes singulares dessas correntes, dentro do governo, terminaram por desentender-se. Consequência natural em gestão que não conta com liderança clara. E consequente.

De outra parte, desconectado do Legislativo, com perda de poder de influência, o governo caiu nas mãos reacionárias de lideranças do Centrão. Matizadas de interesses particulares e localizados. Trazendo conceitos superados para a formulação de políticas públicas. No contexto de avanço de costumes sociais e de evolução dos direitos humanos.

A economia. Um dos requisitos para êxito de gestão econômica é credibilidade. Feita do granito da confiança. Nascida da serena reflexão de gestores.

Este é aspecto que não está presente na conduta do ministro da Economia. O ministro Guedes não cansa de arengar com o presidente da Câmara dos Deputados. Também não para de altercar com ministros que ele chama de fura teto. E adota discurso errático sobre impostos. Pobre economia.

O grau de endividamento das finanças do setor público alcançou 100% do PIB. E o déficit orçamentário anual, nas contas oficiais, atingiu R$ 100 bilhões. O sintoma de desajuste da política fiscal está desafinado com a estabilidade da política monetária. Quando ambas deveriam caminhar de modo harmônico.

Tal desacerto provoca desconfiança aos investidores. Que, sensíveis a oscilações disruptivas na conjuntura, propiciam queda no valor da cotação de ações na B 3. De até 3%, como ocorreu dia 30 de outubro. E elevação na paridade cambial. Com o dólar ultrapassando R$ 5,60.

O futuro. O governo sangra politicamente. Vem perdendo continuamente substância na opinião pública, nas faixas de maior escolaridade das populações metropolitanas. Podendo aprofundar o risco de mergulho abissal no futuro próximo. Por três razões.

Primeira. Sua Excelência não conseguiu formar um Partido para lhe dar sustentação política no Congresso. Demonstrando frágil capacidade de articulação pessoal. Recorreu a Partidos que formam o Centrão. Cuja atuação e companhia ele repudiou durante a campanha presidencial.

Segunda razão. O presidente também não conseguiu associar-se, nas eleições municipais agora de novembro, a candidaturas viáveis em centros importantes do país. Evidenciando perda de energia política já na metade do mandato. Ele parece não dispor de perspectiva de vitória eleitoral em seis dos maiores colégios eleitorais: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Fortaleza. E, em Salvador, onde prenuncia-se vitória do candidato do DEM, por larga maioria. Função do prestígio pessoal de ACM Neto.

Terceira razão. A possível vitória de Joe Biden sobre Donald Trump, na eleição americana, trará níveis de crescente complicação para o governo Bolsonaro. Porque fizemos movimento contrário à tradição de autonomia da diplomacia brasileira. Submetendo inexplicavelmente o Brasil a postulados de política externa facciosa de Washington. Sob o recorte Trumpista.

Por outro lado, o governo atrelou o Itamaraty a políticas sectárias, desconectadas de princípios de imparcialidade e independência. Que, com paciente sedimento e tempo, trouxeram profissionalismo à diplomacia do Instituto Rio Branco. Conferindo respeito à atuação dos diplomatas brasileiros nos conselhos internacionais.

O conjunto desses fatores aponta na direção do enfraquecimento precoce do governo. Pois estão ausentes da gestão federal elementos semeadores de sólidas conquistas: liderança presidencial, coordenação federativa, articulação na política e desempenho na economia.

Esta é, paradoxalmente, notícia promissora. Em horizonte medíocre. Empobrecido por ineficiência gerencial e ineficácia de resultados que assombra os brasileiros. Porque cria, para 2022, chance de o país mudar de mãos. Para estação mais cônscia e responsável. De quem, com mais precisão e modos, poderá abrir destino à boa sorte da República.