Pululam na sociedade propostas para mudanças. A consciência de que mais quatro anos do atual governo seriam um desastre para o País tomou conta da intelectualidade brasileira e de sua classe média.

Um amigo vem insistindo, há mais de ano, que é importante fazer uma frente parlamentar que seja municiada pela elite pensante da nação, a fim de sistematicamente fazer oposição propositiva, desconstruindo o discurso de ódio e de negacionismo que se implantou.

Um ex-ministro e ex-governador propõe um novo sentido para a democracia, onde o ambientalismo e a redução das drásticas desigualdades sejam o vetor para a discussão de um projeto nacional.

Um grupo de empresários e ex-ministros propõe uma frente ampla, em que a política seja regida por mudanças nas visões social, ecológica e econômica, em prol de uma sociedade mais igualitária e menos excludente. Partindo da solução da crise sanitária, passando por um compromisso em desarticular o mecanismo da reeleição.

Grupos dos principais acadêmicos do país reconhecem a falência do modelo liberal em implantação, e buscam alternativas que desmontem o famigerado teto de gastos, que valorizem a vida e que façam uma política que propicie a retomada de investimentos e de emprego.

Um político matreiro propõe uma frente ampla de centro-esquerda, capaz de retirar o país deste atoleiro a partir de 2023. Mas pede que uma força importante, de esquerda, abstenha-se de concorrer, ou mesmo de disputar a liderança do processo, a fim de permitir que o centro se aproxime. Evidentemente, pensando no apoio a seu nome.

Todas essas propostas têm seu valor, a tendência a uma maior generalização, na elite brasileira, da consciência do desastre que vivemos, dos rumos adversos que podemos seguir, é um primeiro passo no sentido da busca de uma mudança.

O de que discordo é como estão sendo tomadas isoladamente, e como, embora muito similares entre si, não apresentam um elo de conexão. Principalmente com a realidade política e social que o país vive.

As heranças recentes são difíceis de aceitar. Razões várias levaram ao resultado das eleições de 2018. Ficaram evidentes, e ressalto, principalmente, o antipetismo e o rancor da classe média com o seu modo de dirigir o país. Reconhecer isso não é fácil, querer que, de uma hora para outra, esqueçam-se as sequelas deixadas, algo não muito fácil de ocorrer.

A realidade atual mostra que o país continua fortemente dividido. Duas forças antagônicas polarizam a opinião pública. Os apoiadores do atual governo, que veem numa sociedade individualista, altamente excludente e baseada em crenças dogmáticas, a oportunidade de se firmarem e conseguirem os seus projetos pessoais, os únicos que lhes interessam. Os apoiadores do Lulismo, que, mesmo admitindo desvios imperdoáveis, veem naquele período o auge da integração social, da busca por equidade, do crescimento com emprego que marcaram seus oito anos de governo.

Evidentemente, há erros nessas análises. Mas são percepções, e as pesquisas demonstram isso. Negar os dados seria no mínimo ingênuo.

Nesse cenário, propostas de classe média que visam negar o lulismo, mas têm como base fundamental tirar Bolsonaro do poder, não se sustentam. São propostas até interessantes, mas não têm base política. Evidentemente, muito bom seria, torço muito, o surgir de uma via nova, com uma base ética, social, ambiental e econômica consistente, que desse condições de um novo surto de desenvolvimento sustentável.

Mas ignorar a realidade não contribui. As propostas apresentadas, implícita ou explicitamente, têm como premissa alijar o Partido dos Trabalhadores e o PSOL das conversações, como se tivessem alguma viabilidade eleitoral.

Se estamos no jogo da mudança, realmente, a postura tem que ser outra. Nem o centro, nem a esquerda, isolando-se, conseguem mudar a situação. Não terão força política, não conseguirão firmar-se como real alternativa.

Qualquer proposta deve partir da real junção dessas forças, reconhecendo sua dimensão eleitoral, reconhecendo seu real potencial de viabilização. Nada adiantam utopias bem construídas, se não podem ser implementadas.

De maneira alguma, isso significaria subserviência ou capitulação à força hegemônica. Significa sim a construção de um projeto comum, a ser concretizado. No processo poder-se-á discutir o como, mesmo se num primeiro momento se deve ir unido ou não. O fundamental é definir bases comuns, a serem respeitadas por todos, as quais serão o alicerce de uma união no instante oportuno. Que sejam aceitas por todos.

Não escamoteemos a questão. Reconheçamos que para se livrar do modelo do PT, muitos caíram em um campo bem pior. Reconheçamos que temos que resgatar o País para a sua população. Reconheçamos que existe um quadro bem definido, sem as esquerdas, sem a conversa com elas, não há alternativa. Não aceitemos o divisionismo.