Cubano em protesto na ruas (Getty Images).

 

A pandemia escancarou o descontentamento da população cubana ao acentuar as fragilidades do regime econômico e do sistema político de Cuba, que tenta, até hoje, ignorar o mercado, controlar a informação e desconhecer as mudanças tecnológicas e geopolíticas. A União Soviética desmoronou, a China namora com o capitalismo, e a transformação digital está rompendo as fronteiras. Os dirigentes cubanos iniciaram uma tímida flexibilização da economia e uma renovação na estrutura de poder após a morte de Fidel e a aposentadoria de Raul, porque sabem que é inescapável e urgente organizar uma transição do “socialismo” para uma economia de mercado e um sistema político democrático. Mas temem perder o controle, até porque cada abertura econômica ou política alimenta novas aspirações sociais, que vão muito além da igualdade na escassez (para não falar no privilégio dos que detêm dólares), com destaque para a liberdade de imprensa, de opinião, de organização e de manifestação. Foi assim com a liberalização da internet, através da qual os cubanos descobriram o mundo, conheceram as mazelas e as injustiças, mas também os encantamentos, as inovações e as oportunidades. A internet transformou-se numa poderosa ferramenta de irradiação do descontentamento e de organização e mobilização das manifestações.

O bloqueio dos Estados Unidos é irresponsável e condenável, e é um resquício dos tempos sombrios da guerra fria. Mas soa ridículo o discurso do governo cubano, responsabilizando os norte-americanos pela crise econômica e social do país, e acusando os manifestantes de “inimigos da revolução”, manipulados pela CIA. Em vez de negociar uma retomada consistente das reformas, o presidente Díaz-Canel tenta desqualificar os protestos, cortou os sinais da rede social para dificultar a mobilização das pessoas, e deu “ordem de combate” aos revolucionários para o enfrentamento nas ruas. Lamentável. O “socialismo” cubano é um anacronismo, e a tentativa de culpar o inimigo externo pelos problemas internos do país é um retorno intempestivo ao discurso da guerra fria.