Ruas de Cuba – Autor desconhecido.

1 – Eu tinha tudo para gostar muito de Cuba. Quando recebi meu primeiro passaporte, em junho de 1973, havia uma tarja em que se lia: “Não é válido para Cuba”. Ora, em pleno regime militar, se os “gorilas” proibiam viajar para lá, só podia ser bom. Mesmo assim, quando chegasse a hora de expandir as fronteiras e conhecer os países ditos comunistas, gostaria de começar pelo Leste da Europa, uma paixão até hoje, e não por um país onde se falava castelhano. Era uma questão de estética. É bem verdade que tínhamos na América Latina um amplo espectro de barbaridades. Não tão trágicas quanto as que grassaram na União Soviética – como o Holodomor ou a Grande Fome, da Ucrânia -, mas bastante sintomáticas de estados policiais: Uruguai, Brasil, Chile e Argentina pontuariam, pela ordem, bem alto na escala da truculência. Fosse como fosse, eu não sonhava em conhecer Havana como sonhava em conhecer Praga, Varsóvia, Moscou ou Pequim. Foi só em 1981 que comecei a percorrer a América Latina. Se antes a ênfase fora a Europa, o Oriente-Médio e os Estados Unidos, de 1981 até o fim da década percorri a imensa maioria dos países daqui – salvo Belize, Haiti, as Guianas e uma ou outra ilha do Caribe. Foi maravilhoso. Vivi a Venezuela dos anos dourados, a Colômbia dos anos difíceis, as mutações do Peru e o silêncio das noites chilenas. Trabalhei intensamente com o México e me extasiava com a Argentina e o Uruguai, onde sempre me senti em casa. Antes que a Costa Rica virasse moda, eu já a conhecia. Tinha negócios em Porto Rico e na República Dominicana, bem ao lado de Cuba. Sabia que era questão de pouco tempo para ir até lá, mas as condições econômicas eram ruins para o comércio. A boa hora chegaria.
2 – Perto do fim da década, Cuba me assediava. O encontro era inevitável. Voltando do Japão, o voo escalou em Lima e lá embarcou o cineasta Silvio Tendler que, sentado ao meu lado, falou com entusiasmo sobre os charutos, Fidel, a música, o rum, e de um quê de diferente que ele sentiu no ar. A essa altura, eu já tinha lido o best seller de Fernando Morais, “A ilha”, e já me empanturrara dos escritos de Frei Betto sobre suas experiências por lá. Até que surgiu uma oportunidade que me pareceu perfeita na virada de 1987-88. Eu tinha me separado e estava com uma nova namorada. Foi ela que sugeriu que fôssemos passar o réveillon lá. “A festa é no hotel Punta Blanca, de Varadero. Antes e depois, a gente roda pelo país.” Topei na hora. Meu estado de espírito nada teria a ver com a atenção que dava ao detalhe quando viajava a negócios. Agora, eu só tinha olhos para ela. Pouco importava que estivéssemos em Cuba ou no Vietnã – o que me interessava era ela. Tudo o que eu fazia se voltava para agradá-la, para nos propiciar momentos dignos de uma lua de mel antecipada. Naquele fim de ano, eu me considerava o cara mais sortudo do mundo. Mal tinha me separado, enquanto ainda estava acampado num flat, eis que apareceu a amiga de uma amiga que, em tese, nada tinha a ver com meu padrão de namoradas até então. Divertida, espiritualizada, ela já tinha rodado bastante o mundo apesar de ser mais nova do que eu. Eu ainda não tinha botado os pés na Índia e ela já me falava do País com um misto de fascínio e veneração. Linda, tinha um brinco no nariz, um cheirinho de almíscar e um sotaque todo especial que me fazia rir – tanto quanto ela se divertia com o meu. Até uma descida ao inferno com ela seria um prazer.
3 – Chegamos a Cuba num voo da Vasp. Nem vi o tempo passar. No táxi, as coisas começaram a mudar. Àquela altura, eu já tinha muitos anos de experiência com os insuportáveis taxistas de Santiago do Chile. A caminho do hotel, era invariável que fosse crivado de perguntas capciosas dos informantes do regime de Pinochet. “Bem-vindo ao Chile, señor. Espero que desfrute de sua estada. Que coma um congrio fresquinho e boas almejas. Que tome seu pisco-sour em paz, agora que já não temos comunistas por aqui, graças ao nosso general.” Eu ficava com ódio daquilo. Geralmente me fazia de desentendido, enfiava o nariz no jornal ou perguntava qualquer coisa sobre o futebol local para desviar daquela pregação asquerosa. Era óbvio que sendo o aeroporto a principal porta de entrada do País, os taxistas simpáticos à causa tinham a prioridade. As tarifas eram gordas e fixas. Além de tudo, não me espantaria que um facínora daquele entregasse à polícia política um suspeito, nem que fosse para mostrar serviço e subir na hierarquia. Prevenido disso pelo deputado Marcelo Cerqueira, que encontrei numa viagem a Santiago, aprendi a dar um endereço de hotel vizinho e fazer o resto do trajeto a pé para que o escroque não ficasse com meu paradeiro. Esse tipo de cerceamento à liberdade de pensar e de julgar, esse proselitismo de beira de estrada, isso é tudo o que mais detesto no mundo. Se Allende era uma biruta tonta, coitado, um desnorteado chapliniano, empapuçado de retórica salvacionista, Pinochet era um assassino covarde e um ladravaz. Ia lá eu ficar conversando com um taxista sobre minha leitura dos fatos? Acaso era algum imbecil? Detesto propagandistas a soldo de seitas. Lá e aqui! Ontem e hoje! Certas coisas não mudam.

4 – Mas nada se assemlha tanto a uma ditadura de direita quanto uma ditadura de esquerda. Não há a menor diferença. Maduro e o capitão iriam direto para a alcova. Antes de Cuba, eu já tinha experimentado várias vezes esses regimes plotados em torno de um ícone, de um salvador, de um semi-deus, de um infalível que tudo pode, tudo sabe, tudo acerta. Àquela altura, eu já estivera em vários países do Leste da Europa e em diversos países africanos e árabes, onde os títeres eram fotografados em trajes civis, militares, esportivos. Ou rezando, pregando, comandando e afagando crianças. Em Cuba, abraçando minha preciosa namorada, veio um taxista trambiqueiro e nacionalista – o patriotismo é mesmo o último refúgio dos canalhas – me falar sobre os feitos revolucionários e as glórias conquistadas por Castro, a despeito da presença dos gringos a milhas de suas praias. Nesse ponto, acho que me antecipei ao rei Juan Carlos em alguns anos no “por qué no te callas?” – ao se dirigir ao lunático do Chávez, quando este disparou a falar mal do ex-Premiê Aznar. “Por qué no te callas, carajo?”, disse. As orelhas do taxista murcharam. De brios revolucionários feridos, resmungou alguma coisa para si, ofendido que suas patranhas panfletárias lhe tenham valido uma humilhação de regra. Quanto a mim, só beijava minha musa, enquanto as ondas do Malecón salpicavam o pára-brisa a caminho do antigo hotel Hilton, rebatizado de Havana Libre. À porta da recepção, diante do carregador, me chamou de grosseiro. Vali-me da plateia: “Es para que aprendas que las orejas de los visitantes no són latrinas para escuchar tus pendejadas.” Devolveu os U$5 que ela deu. Felicitei-o. “Así hace un revolucionario. Con brio!” Sei me fazer odiar quando quero.

5 – Na recepção do hotel, na manhã seguinte, depois de uma noite sem ar condicionado – pelo menos tinha água -, tive a estranha sensação de que já vivera aquilo. Nas paredes, não havia um quadro. Perto das portas, uns sujeitos parrudos vestidos de uma espécie de safári espiavam as pessoas por trás de caros óculos Vuarnet. Na recepção, nenhum sorriso. No ambiente, nenhuma nota musical. O ar era denso, pesado, inóspito, burocrático – uma mistura de igreja abandonada com sala de espera de manicômio. Parecia um hotel Intourist do Uzbequistão. Ninguém passeava com um cachorro, não havia sequer cheiro de comida no ar – e sim de água sanitária. Havia ali a pegada identitária da interdição da alegria, da espontaneidade, de um abraço, de uma gargalhada. Tudo era sussurrado. A simpatia parecia ter empacado num treinamento mal-sucedido. No café da manhã, tudo conseguia ser sem graça. Mas o pior era a obsessão com o controle. Número do quarto, nome das pessoas, rubrica e os nefandos cupons. Tinha cupom para tudo doravante. Era imperioso controlar. E, sobretudo, controlar quem controlava. Saímos. Num dos livros do Frei Betto, eu tinha lido que a Copélia era a “melhor sorveteria do mundo”. Depois de suar o lombo naquelas ruas de sobrados caindo aos pedaços que lembravam os mais decadentes da parte mais decadente da rua da Aurora dos anos 60, chegamos à Copélia. Finalmente, uma alegria. Na frente da sorveteria, havia uma multidão de centenas de pessoas. Pedi licença. O que era aquilo? Era gente que queria uma ficha para tomar um sorvete de sabor único, parecido com o universal “marojne”, que se toma de Vladivostok a Moscou. O Frei Betto incorrera em pecado mortal perante o Criador.

6 – Lá pelo segundo dia, alguém comentou que havia um bom restaurante polinésio na cidade. Na impossibilidade de comer alguma coisa decente no meio do casario esbagaçado, onde se driblava os gabirus, fomos lá. Tinha só um pouco menos de gente do que na sorveteria. Mas ao ver-nos chegar, minha namorada de cabelos louros, quase brancos, e olhos azuis, o chefequete da recepção já gritou: “Vão pagar em dólares?”, como se tivéssemos opção. Então se abriu uma passagem como se fôssemos um casal de noivos a caminho do altar. Todos tinham cara daquela inveja cúmplice – como quem deseja bom apetite e, ao mesmo tempo, lamenta ter sido preterido. Que almoço constrangedor! Não resisti e comentei com o garçom: “Foi para isso que fizeram a revolução?” Lívido, ele mudou de assunto rápido. No final, um almoço nos Hamptons teria sido mais barato. A mesma sensação de engodo sobreveio no tal show do Tropicana, em que o figurino das dançarinas parecia ter vivido dias melhores. E na expressão sem alma do coqueteleiro do Floridita, que vivia de dizer que servira Hemingway ali mesmo. Outra figura da mesma mitologia era o pescador Gregorio Fuentes, com quem nos avistamos em Cojimar, a caminho de Varadero. Mas isso veio depois. Antes, nas noites frescas de Havana, não havia notícias de um acorde de música, de um mínimo de entusiasmo espontâneo pela vida. Respeitosas, as “gineteras” eram discretas ao abordar homens acompanhados, mas era implacável a perseguição de vendedores de charutos Cohiba no mercado negro. Pensar em fumar um charuto “legal”, tomar um drinque sem preferência de fila e ouvir música de rua, eram luxos impensáveis. Como em Angola. Ainda bem que eu a amava! Senão teria sido preso.

7 – Não demonizo Cuba. Simplesmente tenho ojeriza ao regime. Não tenho nada contra o socialismo. Por mim, o mundo seria um imenso kibutz. Com todos os embargos e com todos os golpes baixos e fracassados que foram desferidos contra a soberania de Cuba, não concebo gostar de um país que mantenha seu povo como refém. Posso reconhecer todos os méritos do mundo em quem come sebo e, ainda assim, se esbalda em noites de amor, como nos livros de Pedro Juan Gutierrez. Gostar de Leonardo Padura e saber que ele tira inspiração das conversas que ouve nas intermináveis filas de farmácia tampouco me dá alento. Curtir o Buena Vista não me faz ver a musicalidade cubana como patrimônio imaterial do regime. Era o mesmo que vincular Gilberto Gil ao capitão daqui. Aliás, eis um bom ponto de conexão. Quem foram os mais enfáticos sobre os últimos acontecimentos de Cuba em abraçar posições doutrinárias? O capitão cuja palavra nada vale que preste. E Lula, que deveria estar de bedelho fechado para que seu nome seja palatável a quem abomina o capitão e o vê como urubu sem tempero. No mais, por quem torcer no embate que se trava nas ruas de lá e nos centros da Diáspora cubana? Pelas pessoas anti-regime, é evidente. Já não se trata de desmoralizar os Irmãos Castro, os briosos descendentes de galegos que criaram uma sesmaria no Caribe. Mais precisamente, depois que os sacripantas de Batista sagraram o desengonçado Embaixador americano como campeão de dança de um concurso no hotel Hilton. E justo onde? No país de alguns dos melhores dançarinos do mundo. Tão vergonhoso quanto isso, é mandar prender a juventude por conta de uma tatuagem e dos versos de um rapper que viralizaram.

8 – Acredito em Cuba. Acredito no imenso potencial do País, apesar de décadas de deformação de mentalidade. Sei e vi o quanto a economia centralmente planificada avilta e aleija. Sei e vi que os sicários de um regime policial se desesperam diante do desbaratamento de uma estrutura calcada no terror e no controle. Na intimidação diuturna e no acesso a ganhos mínimos. Sei como eles operam; sei com que tipo de controle sonhavam. Sei que a Covid agravou os problemas do embargo, mas sei também que há forças que não podem ser represadas ad eternum. Quem tem minha idade em Cuba nunca conheceu outra coisa senão essa pantomima vil. Milhões de cubanos já morreram fora do País pensando em poder voltar um dia. Tão ruim quanto um patriota cubano, um ativista do regime, é um gusano (tapuru) que coloque seu ódio ao regime acima de tudo – em detrimento do interesse do País que o acolheu. O gusano trumpista é como o homossexual bolsonarista. O anti-comunista é pior do que o comunista. Com o comunista, nada há de errado. Desde que ele entenda o momento em que a liberdade se descola da doutrina. Então, para permanecer comunista, ele se afasta do regime. E continuará a sê-lo de forma decente. Esse continente não pode assistir impassível a que se tripudiem as instituições. No Brasil, a ameaça é concreta, mas o capitão não terá voto sequer para chegar ao segundo turno. A Venezuela é um escárnio. Cuba é outro. Os Castro foram “jineteros” carismáticos. Tiraram o que puderam dos russos e dos irmãos ricos do continente, “including us”. Numa economia de mercado, Cuba vai longe. De vez em quando temos uma mostra do potencial do País. Que ele se realize. Pelo fim das filas. Pelo fim dos cupons. Pelo Bem.

9 – Que possamos um dia tomar um “Cuba libre” em Havana chamando-o pelo nome.