Fezes de seres humanos que viveram há 14.000 anos na América do Norte.

 

Imagino que num futuro não muito distante, daqui a cem ou cento e cinquenta anos, muitos, ao evocarem o quadriênio Bolsonaro, se perguntarão se realmente houve o circo de horrores que livros, filmes, áudios e internet registraram e estão registrando à farta. Munidos de copiosa documentação, logo farão as perguntas mais óbvias e consequentes: “E como foi possível? Como pôde haver tais escândalos, tais crimes e tal impunidade?”. A incredulidade rondará esses sensatos habitantes do futuro. Benzer-se-ão e continuarão suas pesquisas implacáveis. 

Tais pesquisadores desses pósteros tempos terão, suponho, uma curiosa proximidade com a paleoparasitologia, campo de estudo tão bem impulsionado no Brasil pelos cientistas Luiz Fernando Ferreira da Silva (Pesquisador Emérito da Fundação Oswaldo Cruz, a quem tive a honra de conhecer por ser pai de amigos meus no Rio de Janeiro) e Adauto Araújo, igualmente destacado membro daquela instituição que honra a ciência brasileira. Ambos estudaram coprólitos Brasil afora, ou seja, pedras de fezes fossilizadas. Ambos inovaram, criando técnicas e descobrindo parasitas que infestavam nossos ancestrais aborígenes. Pois bem, os futuros pesquisadores do quadriênio Bolsonaro terão que se haver com os coprólitos do presidente e de seus seguidores. Fezes não faltam, parasitas idem; logo não faltarão coprólitos. A ciência do porvir comprovará, sim, que de fato vivemos em meio a terríveis parasitas. Do meu apagado túmulo, desejarei sucesso a esses arqueólogos, que revelarão aos seus contemporâneos os males de nosso desalentado país.

Em sua ânsia de produzir coprólitos futuros, lastreada nos seus impulsos totalitaristas e desumanos, Bolsonaro vai, a cada dia, se superando. Recentemente, numa canetada, assinou mais um afrontoso documento e, assim, revogou mais de vinte decretos de luto oficial editados por vários ex-presidentes. Foi o já chamado “Revogaço”. Sim, nem os mortos escapam, logo eles que, na frase de Augusto Comte, “governam os vivos”… (Frase, aliás, humoristicamente contestada pelo nosso Barão de Itararé: “Os vivos vão, cada vez mais, sendo governados pelos mais vivos!”. Dessa forma, mortos ilustres ganharam uma nova morte pública e simbólica. Diz o noticiário (enquanto escrevo este artigo) que o presidente vai, sabe Deus por quê, revogar o “Revogaço”. Revogando ou não, semeou mais um futuro coprólito. 

Apagar ou moldar a História segundo seus caprichos é sempre um dos prazeres dos ditadores, pois a tirania deve se estender à temporalidade para ser absoluta. O passado incomoda? Borracha nele! Não por acaso, o mandatário está de olho no Arquivo Nacional e já tratou o Iphan como se fosse o quintal de sua casa da Barra da Tijuca. 

Na mesma semana do “Revogaço”, o governo não hesitou em decretar luto oficial em homenagem a Olavo de Carvalho, outro fecundo criador de futuros coprólitos, cuja obra e cujas atitudes, regadas a uma diarreia verbal nas redes sociais, tanto mal fizeram aos brasileiros, não obstante, reconheço, aquilo que o crítico Agripino Grieco jocosamente chamava de “a faísca da ferradura na calçada”…

O triste é que o visgo olaviano continue prendendo a atenção dos incautos, sobretudo dos jovens que, em seu idealismo e ingenuidade, talvez, ainda por algum tempo, repitam o equivocado amém de todos conhecido: “Olavo tem razão”. Ao se arvorar em pensador distópico e guru governamental de extrema direita, o ex-astrólogo, não mais consultando a conjunção dos astros, tornou-se ele mesmo um astro enlouquecido. Se algum dia teve razão, perdeu-a para uma soberba luciferina e para um fanatismo cruel. Se, como quer o Evangelho, conhece-se a árvore pelos frutos, esse carvalho só apressou o outono da Nação, e seus frutos já hoje resplandecem como coprólitos da posteridade.