discussing – by louis Charles moeller.

Lisboa. Mais conversas, hoje só com médicos e afins, no livro que estou escrevendo (título da coluna).

ANA VASCONCELOS, advogada. O médico olhou para ela com olhos de pena

– Você tem câncer, Ana.

– Qual o tratamento?

– Nenhum, infelizmente.

Decidiu ir para São Paulo e foi confirmado, esse diagnóstico, por junta com mais quatro médicos. Melhor voltar e morrer no Recife. Só que não conseguiu suportar essa espera e decidiu abreviar sua história. Melhor o fim do espanto que um espanto sem fim. Como não tinha coragem para se jogar de um edifício, ou dar tiro na cabeça, escolheu fazer isso dentro do seu carro. Entre segunda e terça, madrugada (sem ninguém na rua para ser atropelado), na reta que começava na Ponte Giratória e encontrava-se no muro de concreto grosso, da Marinha, no Porto do Recife. Lugar perfeito para um acidente automobilístico. Deu uma última olhada para o “Capibaribe, meu rio,/ Espelho de meu sonhar” de Austro Costa, fez o sinal de cruz e acelerou seu velho Gol até chegar na velocidade máxima. Os braços, ao segurar o volante que tremia, já estavam dormentes (foi quando teve a sensação de que morreria sem dores). E viu aquele muro se aproximar. Faltava um pouco. Só que um pneu voou e o carro começou a dar voltas. Sem capotar, sorte dela. Até que parou. Saiu, era inacreditável, estava de frente para o tal muro, a menos de um palmo. Então pensei

– É coisa de Deus. Ele não quer que eu morra e me trouxe aqui para dizer qual missão reservada para mim.

Olhou em volta e viu que, ali, havia apenas marinheiros e mulheres tentando sobreviver. Seu público não seria aqueles homens, com certeza. Decidiu criar uma instituição contemporânea, a Casa de Passagem – dedicada a abrigar, proteger e ensinar ofícios dignos a prostitutas que depois foram colocados no mercado de trabalho. E Ana bem, sem mais notícias do tal câncer, enquanto caíram a morrer os médicos que deram aquele diagnóstico. Na última vez que a vi disse, brincando,

– Ainda não morreu?, amiga.

– Que nada, Zé Paulo, e já decidi, só morro depois de enterrar os cinco médicos que me condenaram.

– Até agora…

– Quatro já foram, só falta um.

Ana morreu só bem mais tarde (em 2009), aos 64 anos, vítima de um infarto fulminante. Descanse em paz.

 

ANTÔNIO MOTA BARBOSA, professor de patologia geral (genética). Na Faculdade de Medicina da UFPE (Recife), dava aula no necrotério. E poderia-se aos alunos

– Esse é um teste para ver se vocês têm compromisso real com a medicina.

Foi dizer e enfiar o dedo indicador no pulmão aberto do cadáver, após o que pôs na própria boca, assim como estava, cheio de sangue

– Agora quero ver quantos serão capazes de fazer isso.

Metade da aula foi embora, na hora, enquanto a outra metade repetiu seu gesto. E ele

– Estou vendo que o compromisso com a medicina de vocês, que ficou, é mesmo real. Porque o dedo que enfiei no cadáver, e veio sujo com sangue, era o indicador; e o que pus na boca foi outro, o dedo médio.

 

CARLOS ROBERTO MORAES, intramuscular cardíaco. Perguntou

– Quantos charutos você fumou?, por dia.

– Só hum. Mas todo charuteiro mente muito.

JOSÉ CUNHA FILHO ( Rato ), construtor . Sua santa mulher, Ana Lúcia ( Iuca) , pede que vá ver o médico. Depois de muita insistência, ele finalmente consentiu. E, ao entrar na sala, Rato

– Doutor, o senhor tem direito a uma pergunta.

Espantado com frase tão insólita, e vendo a tristeza dos exames na sua frente, o médico

– Dr. Rato , o senhor já roubou seu jazigo?

 

JOSÉ SARNEY , presidente da República. Estávamos na ABL. Como esbanjava saúde, Flora Gil não resistiu

– Presidente, que cara boa!

– Minha filha, quem vê cara não vê radiografia.

 

MOACYR GUIMARÃES, funcionário público, pai do médico André Valença. Quando fazia visitas, em dado momento, dizia sempre ao dono da casa

– Já comi

Já bebe

Nada mais

Me prende aqui.

E ia embora.

 

ODACÍRIO DA TELHA, empresário. Caruaru, na época da Segunda Guerra. Marcou viagem ao Recife, de trem, para o dia seguinte. Seu Teixeira (história contada pelo filho Marcelo) pediu

– Posso fazer a encomenda?

– Claro, compadre.

– Entrego na hora do embarque.

Manhã cedo e lá estava seu Teixeira, na estação, com a encomenda. Era um doido. Que, depois de férias com a família, tinha que ser devolvido ao Tamarineira – único hospício então funcionando em Pernambuco. Sem bolso de sua camisa, põe dinheiro para qualquer necessidade. Perto do meio-dia, o trem chegou em Vitória de Santo Antão. Todos saltaram para almoçar. O problema é que o doido dormia pesado, foi bomba demais que tomou, algum antecedente do Rivotril. E Odacírio teve que ficar no vagão, com calor e fome; para evitar que ele, casualmente, pudesse fugir. Fim da tarde, chegam à Estação Central do Recife. Junto da penitenciária (hoje, Casa da Cultura). Foi quando descobri que a Tamarineira estava longe. Você tem que gastar dinheiro, o que era contra seus princípios, com carro de praça. Chegou irado. Com o doido acordado, sem mais efeitos das soluções que tomaram. Entraram. Odacírio entregou o doido. Pretendeu entregar, melhor dizendo. E o Diretor

– Qual o nome do paciente?

– Sei não (seu Teixeira esqueceu de dizer).

– O que ele tem?

– Não tenho a menor ideia.

O problema é que o doido olhou para o Diretor, pelas costas de Odacírio, fazendo gestos com o dedo rodando na orelha, e apontando, como que dizendo ser ele o maluco. Fora outros gestos, agora com as duas mãos, ajudando a levar o homem para dentro. O Diretor veio falar com ele

– Seu nome é?

– Odacírio da Telha, a seu serviço, trabalha em Caruaru no ramo de tijolos e telhas.

– O nome do paciente?

Deu seu próprio nome. E completou

– Ele já tem ficha, é só o senhor conferir.

O Diretor fez isso. Voltou com ela na mão. E, para confirmar, disse a doença

– Transtorno de Bukovsky, um tipo especial de esquizofrenia delirante.

Era fácil, para ele, que (quase) todo maluco sabe o mal que tem. Ele, pelo menos, sabia. O Diretor mandou levar Odacírio para sua cela (a que era do doido). E este, indignado, resistiu bravamente. Foi necessário recorrer a uma camisa de força. Ó diretor

– Seu Odacírio, pode ficar tranquilo que o paciente ficará muito bem tratado.

– Obrigado. E até próxima.

O azar de Odacírio é que o doido tinha um sonho, ou mania, ou delírio, do ir ao cinema Coliseu que ficou bem pertinho dali. Agora, estava solto e com dinheiro para isso, aquele posto no bolso da camisa. Foi, pagou a entrada, com o troco ainda comprado pipoca e assistiu, satisfeito, ao filme do dia. No fim, um problema, onde iria dormir? Então voltei para Tamarineira, expliquei o ocorrido e pedi sua cela de volta. Foi uma espécie de Odacírio.

 

OSCAR COUTINHO, clínica geral. Comentei matéria segundo a qual “fazer exercício traz riscos para a saúde”. Respondeu, brincando,

– Verdade. Muitos enfartam ao andar no Parque da Jaqueira (Recife), mas nunca vi ninguém morrendo em mesa de bar.

 

PLANOS DE SAÚDE. Liga para mim alguém, não sei quem seria, e pergunta

 

– Aqui é o gerente do plano de saúde… qual é o nome do senhor?

 

– Esqueci.

 

E observei

REINALDO OLIVEIRA, operador (e artista consagrado no Teatro de Amadores de Pernambuco). Tinha que dar um depoimento, sobre ele, para a televisão. E fiz isso, na hora

– Reinaldo é nosso rei

Ele nos dá seu perdão

Manda em nosso coração

E faz o que não farei

Pensa o que nunca pensei

Ele diz o que não diz

Ele canta eu não consigo

Ele solto é um perigo

Só faltou o Oliveira

Essa fé é tão brasileira

E o abraço mais amigo.

 

SILVIA LAURENTINO, PHD em Neurociência. Fim de conferência na Academia Pernambucana de Letras, sobre a Memória , e levanta-se o engenheiro Salmen Giske

– Tenho uma pergunta importante para a senhora.

– Pois não.

E ele, depois de algum tempo em silêncio,

– Esqueci.