
Hiroshima Nunca Mais!
Há 80 anos este mês, em 6 de agosto de 1945, já quase no fim da guerra, os Estados Unidos jogaram uma bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Três dias depois, em 9 de agosto, lançaram uma bomba atômica sobre Nagasaki, a 300 quilômetros dali. Não soube de nada lá na roça, que meus pais consideravam que guerra não é assunto para conversar com criança. Aliás, na Europa, a guerra já tinha terminado, com a rendição da Alemanha em maio de 1945, e isso eu soube fisicamente, por assim dizer, porque pudemos voltar para a nossa casa em Santos, ninguém me contou que a guerra tinha acabado. Mas depois, bem depois, de tudo o que vi, li e ouvi sobre isso, em diferentes épocas e fontes diversas, ficou a ideia de um horror inimaginável e indescritível. E já se martelou tantas vezes que não deveria ser esquecido nunca. Para não acontecer de novo.
Na ONU, no hall de entrada que fica ao lado do jardim das rosas, ali onde há um enorme monumento de um revólver em cujo cano deram um nó, o horror de Hiroshima é recordado, em uma pequena exposição, lembro de uns pedaços de metal retorcido. Afinal a ONU foi criada depois da guerra para que nunca mais houvesse uma guerra como aquela; tem o dever de não esquecer. Mas parece que os países que se reúnem na Assembleia Geral não têm conseguido aliviar as tensões que estão levando a uma nova corrida armamentista, que inclui a produção acelerada de ogivas nucleares.
Estaremos esquecendo o horror que pode ser uma volta do uso de armas nucleares? Na verdade, são sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki os que continuam levando a luta para lembrar a humanidade do seu potencial de autodestruição. Esses sobreviventes tiveram o reconhecimento internacional do Comitê do Prêmio Nobel da Paz quando, em outubro do ano passado, o Prêmio Nobel da Paz foi dado a Nihon Hidankyo, oficialmente “Confederação Japonesa de Organizações de Sofredores com as Bombas Atômicas e de Hidrogênio.” Imagino que “sofredores” em mais de um sentido.
Nihon Hidankyo foi fundada em 1956 por sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki com o propósito de abolir armas nucleares e preservar a memória dos horrores causados por elas. É um movimento que coletou milhares de depoimentos para manter viva, para além dos sobreviventes (que hoje têm idade média de 86 anos), a lembrança do ataque e seu impacto. Regularmente envia delegações à ONU e a conferências internacionais sobre segurança, e pressiona governos a apoiar sobreviventes e eliminar armas nucleares. É um movimento que chegou a influenciar tratados internacionais. Mas seus alertas sobre o risco de guerra nuclear não impediram que o arsenal de armas nucleares presente hoje em uma dúzia de países seja suficiente para destruir a civilização do globo.
Temos as obras literárias que guardam para sempre a lembrança do acontecido em Hiroshima. E não são poucas. “Flores de Verão”, de Tamiki Hara, é considerado um dos clássicos da literatura japonesa. Como este, a maioria desses livros foi escrita por sobreviventes. Masuji Ibuse, contudo, nascido em Hiroshima, não estava lá nos dias do bombardeio. Escreveu seu livro com base em diários de sobreviventes. Não sendo sobrevivente direto, chegou a causar polêmica sobre a legitimidade de escrever sobre um trauma histórico sem tê-lo vivido. Mas ganhou o respeito dos sobreviventes. Em “Chuva Negra” (Ed. Estação Liberdade 2011) descreve o indescritível. Sem adjetivos, exclamações ou queixa. Não é um livro que pede lágrimas, é um livro espantoso, para não esquecer jamais. É claro que não posso pretender saber o que é “ser japonês”, mas ouso dizer que só um japonês poderia escrevê-lo. É uma obra literária construída a partir de relatos muitas testemunhas. O romance se estrutura em torno de um casal que cuida de uma sobrinha, Yasuko, que chega à idade de casar, é atraente, mas tem que enfrentar a suspeita de que possa sofrer da “doença radioativa”. O próprio tio, Shigematsu, sofre sequelas de suas andanças pela zona bombardeada desde o dia 6 de agosto, mas ele estava a 2 km do centro da explosão, e quer se convencer de que a moça não teria sequelas, devia estar a mais de 10 km da bola de fogo, e ele ouvira dizer que entre os que não sofreram ferimentos, havia quem se casara e vivia sem problemas. E resolve passar a limpo seu “Diário de um sobrevivente” para entregar à casamenteira e convencê-la de que a doença de Yasuko é só boato. O “Diário” vai de 6 de agosto, dia em que ele viu no céu um clarão que não entendeu, mas o jogou no chão, até 15 de agosto, quando o Imperador em transmissão de rádio confirmou a derrota na guerra. O Diário tem muitas “anotações posteriores” encaixadas para explicar depois o que era incompreensível no momento em que ocorria. A catástrofe descrita no “Diário de um sobrevivente” é indescritível, só depois de terminar a leitura é possível acreditar que alguém conseguiu descrever tudo aquilo que aconteceu. Leiam até o fim, para saber se afinal Yasuko se casou.
Acontece que a memória, talvez o medo, talvez apenas o intento de “conter o outro”, talvez até um mínimo de decência humana trouxeram um arcabouço de regras internacionais básicas que pretendem prevenir uma guerra nuclear. Ou pelo menos houve a tentativa de manter algumas regras de relacionamento entre países que evitem essa violência extrema. Desde 1979 funciona a Conferência de Desarmamento da ONU. Tem sede na Suíça, em Genebra, e como está no nome, seu objetivo é negociar acordos internacionais sobre desarmamento, inclusive armas nucleares, químicas, biológicas e convencionais. É composta de 65 países, a começar pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, China, Estados Unidos, França, Reino Unido, e Rússia, mais um bom número de países relevantes, Brasil inclusive. Formada no contexto da guerra-fria, tem entre suas conquistas a Convenção sobre Armas Químicas e o Tratado de Proibição de Testes Nucleares. Tal como a ONU, se o seu funcionamento é bom ou ruim, depende dos países membros. Continua sendo o principal fórum internacional para discutir desarmamento nuclear. E ainda que em sua última sessão, este ano, continue listando na agenda a “prevenção de guerra nuclear” como tema para negociações, esteve mais voltada para o espaço sideral, inclusive disparos do espaço para a Terra e megaconstelações de satélites com fins militares, e outros terrores que a maioria dos mortais nem sabe que existem.
Outro instrumento internacional criado alguma vez com o intento de controlar armas nucleares – e estimular o uso de energia atômica para fins pacíficos – é o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Igualmente se formulou no contexto da guerra fria e entrou em vigor em 1970. É considerado pilar de um imaginado regime internacional de controle de armas nucleares, pilar um tanto abalado pela falta de implementação efetiva. São membros do TNP 189 países. Na verdade, quase todos os países-membros da ONU, exceto a Coreia do Norte, que saiu em 2003 por uma disputa com os Estados Unidos, e mais quatro outros países que nunca aderiram: Índia, Paquistão, Israel e Sudão do Sul. Índia e Paquistão têm a bomba atômica, Israel mantém a chamada “ambiguidade estratégica” sobre tal capacidade e nunca se submeteu à fiscalização internacional. O Irã permanece membro, sujeito à fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mas está considerando sair depois do ataque recente que sofreu.
Críticos apontaram desde o início a assimetria do Tratado criando uma divisão entre países nuclearmente armados e não armados, e, ao chancelar essa desigualdade, o desarmamento perdia ênfase. Mas é claro que o foco em “não proliferação” em vez de “proibição” de armas nucleares é porque esta era ainda menos factível ou aceitável para as potências nucleares signatárias. Também houve países que criticaram o TNP em momentos em que lhes foram impostos obstáculos ao uso pacífico de energia nuclear, na produção de energia e nos usos na medicina.
As potências nucleares reconhecidas desde a entrada em vigor de TNP – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – têm no Tratado obrigações tanto de negociar o desarmamento nuclear como evitar a transferência de tecnologia. É pelo menos o que se deveria ler do artigo VI do Tratado, redigido em linguagem confusa o suficiente para permitir o consenso que se formou em 1968:
“Cada uma das Partes do Tratado compromete-se a prosseguir negociações de boa fé sobre medidas eficazes relativas à cessação da corrida armamentista nuclear em data próxima e ao desarmamento nuclear, e sobre um tratado de desarmamento geral e completo sob estrito e eficaz controle internacional.”
A paz, um sonho. Tais compromissos jamais foram plenamente cumpridos. Sequer o da transferência de tecnologia. Não está nada claro o quanto está sendo evitada a proliferação nuclear militar para novos estados. Os países, confessadamente ou não, continuaram investindo na modernização de suas armas nucleares. E não apenas as cinco potências nucleares iniciais do Tratado de 1970. A Índia fez seu primeiro teste nuclear em 1974, o Paquistão em 1998, a Coreia do Norte em 2006. Acredita-se que esses três, e também Israel, têm arsenais consideráveis. As negociações multilaterais sobre desarmamento estão estagnadas há tempos.
A adesão ao “princípio de não usar primeiro”, de usar apenas em caso de revidar um ataque, somado ao “equilíbrio do medo”, permitiram que as armas nucleares, mesmo com estoques cada vez maiores, não chegassem a ser usadas. Essa etapa de respeito a regras mínimas de convivência entre estados parece encerrada. O desmonte do arcabouço de regras internacionais que regulava as relações econômicas e a prevalência do “cada um por si” chegou também a outras áreas, as de guerra e paz. No aniversário de 80 anos da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki o que eu sinto é medo e o contentamento egoísta de estar no Brasil, não só longe dos “senhores de guerra” como longe do palco das guerras que trouxeram a nova corrida armamentista. Este ano foram ainda mais lindas as lanternas iluminadas em homenagem aos sobreviventes flutuando no Rio em Hiroshima na quarta-feira, e ainda mais admirável o gesto das autoridades japonesas que convidaram para a cerimônia do aniversário de 80 anos em Hiroshima os embaixadores de todos os países.
Muito bom o artigo. Traz reflexões profundas. Passados 80 anos, o risco do uso de armas nucleares continua. Triste. Lamentável.
Muito mesmo o texto, Helga!!! Parabéns!!
Abraço pra Helga e pro Troster!!!
As bombas atomicas de Hiroshima e Nagasaki foram na verdade bombas atômicas humanitárias pois a sua utilização além de abreviar o fim da guerra contra o Japão poupou a vida de milhões de japoneses que seriam neutralizados em caso de huma invasão terrestre do USA. Estima-se que a invasão das ilhas nipônicas custaria a vida de 10 milhões de japoneses e de hum milhão de americanos. Só êstes números mostram o acêrto do uso das bombas atômicas .
A sua matemática pode estar correta e, apesar dos horrores de qualquer guerra, as perdas humanas IMETIADAS podem ter sido menores. Mas há uma diferença muito grande entre invasão e guerra corpo a corpo em comparação com uma bomba nuclear! As perdas não foram só humanas! A radiação deixou um rastro de destruição! Usar armas desproporcionais, como foi feito no Vietnã por exemplo, fazer o que Israel está fazendo com o povo palestino! São estratégias de guerra para eliminar um grupo de pessoas!
Os EUA só lançaram as duas bombas porque eles queriam testar os efeitos da bomba de plutônio e de urânio. Os ataques foram desnecessários e nada justifica armamentos com essa capacidade de destruição!!
A Rússia perdeu cerca de 20MI de soldados enfrentando a Alemanha, vencendo o verdadeiro inimigo! O Japão ia se render de qualquer jeito! Os EUA cometeram o maior ato de guerra contra a humanidade e desobedeceu várias ceres o conselho de segurança da ONU e o mundo só olha.
Concluindo: o uso de armamento nuclear é indefensável e os EUA não usaram as bombas por precisavam dela pro Japão se render! E essa é só a superfície do assunto…
Este senhor, que não consegui saber quem é, não sei se é o mesmo Carlos Augusto Schmidt Filho que me aparece como dono de uma empresa “inativa” no Amapá, evidentemente gosta da “paz dos cemitérios”. As armas atômicas põem em risco a sobrevivência da humanidade, então um comentário como esse elogiando o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki só pode causar horror. Horror maior quando diz que essa monstruosidade foi “humanitária” e pela paz.
Helga,
Parabéns pelo texto. Mais do que nunca é preciso recordar.