
Jaguar
O grande cartunista Jaguar nos deixou aos 93 anos no domingo, 24 de agosto. Nascido Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, começou a fazer suas graças como Jaguar mais precisamente na década de 50 do século passado, deixando sua marca nas artes gráficas, no humorismo e no jornalismo brasileiro.
Praticamente todas as informações sobre o falecimento de Jaguar falam que foi fundador do Pasquim. Sim que a carreira dele se entrelaçou indelevelmente com o semanário irreverente e de oposição dos anos de chumbo. Eu mesmo creio que só fui conhecer o cartunista e chargista Jaguar nas páginas da publicação. Ninguém ficava indiferente àqueles traços, aparentemente toscos mas que envolviam muita arte, com as tiradas de quem era um grande observador da alma humana. Fez muita crítica social e de costumes, além de pontuais provocações à ditadura, que no caso bastavam expressões de inteligência para a desarvorarem.
Conheci o Pasquim assim que foi posto em circulação nos idos de 1969. Estava num cinema quando vi alguém folheando a publicação diferente. Corri para as bancas, e a partir daí era a espera de toda semana, acompanhando a patota com Jaguar, Millôr, Ziraldo, Henfil, Paulo Francis, Sérgio Augusto, Luiz Carlos Maciel e tantos outros.
Indiscutivelmente, Jaguar foi a encarnação do Pasquim, que reproduzia bem a vida cultural e boêmia que zanzava por Ipanema e arredores, do Rio de Janeiro dos anos 60 e 70 do século passado. Toda a intelligentsia progressista e opositora da época (alguns até chamavam de esquerda festiva) transitou por suas páginas. Jaguar, sobretudo, era um boêmio. Bordão atribuído a ele: “Intelectual não vai à praia, intelectual bebe.”
Numa publicação comemorativa dos 40 anos do Pasquim, com 31 capas escolhidas do jornal, Jaguar comenta na orelha: “Não foi só a linguagem que a patota do Pasquim mudou. As capas também. O nosso negócio era ser do contra. Contra a ditadura, contra as capas (não confundir com contracapas) e a linguagem solene dos jornalões no final dos anos 1960”.
Jaguar e a patota do Pasquim fizeram história, contribuíram para desengravatar o jornalismo brasileiro.
Assim que com o Pasquim me dediquei a acompanhar e a absorver traço e piadas do Jaguar, além de Ziraldo e Henfil, que conhecia de antes do Pasquim. Traços e piadas escrachados, debochados, anarquistas. A simplicidade do desenho escondia muitas vezes sacadas intelectuais refinadas. Em 1972 topei com o livro dele, lançado em 1968, “Átila, você é bárbaro”, uma imersão em temáticas variadas, de crítica social e de costumes, de alguma maneira um passeio pelos assuntos que predominavam naqueles anos, com um olhar avacalhado e sem-cerimônia. Nos tempos atuais, do politicamente correto, ele seria cancelado nas redes sociais.
Na “Ficha do Autor” no seu primeiro livro com cartuns ele é apresentado detalhadamente, até que tinha uma filha e um filho. E termina a apresentação: “Encontrado em alguns bares de Ipanema”. Paulo Mendes Campos, cronista famoso na época, no prefácio discorre sobre poesia e humor, para concluir que “quem não tem senso de humor não pode ser um poeta; quem não tem sentido lírico não pode ser um Jaguar”.
Tranquilamente, Jaguar teve alguma influência de Saul Steinberg, o genial grafista da Revista New Yorker, do humor gráfico francês e, no Brasil, de J. Carlos, Nássara e Millôr Fernandes, destes colheu o jeito sintético tanto no traço quanto nas ideias. Ele praticava um minimalismo gráfico.
Seus cartuns parecem singelos, mas denotam um grande observador da realidade, das relações humanas, desnudando jogos de poder, violência, intenções escusas. De maneira satírica, cáustica, debochada, e o traço irregular estava em consonância.
O traço é único, identificável a léguas, aparentemente descuidado, mas era de quem dominava sua ferramenta. Geralmente, não trabalhava com caricaturas; ele mesmo admitia que era ruim nisso. Seu processo de criação prescindia das caricaturas, não se centrava sobre personagens identificáveis. Mesmo suas charges, que têm um enfoque em acontecimentos, tinham muito mais um approach de cartum.
Incomodou muito a ditadura, por suas referências à vida, a uma visão avacalhada, e ferina, da realidade social, sua sátira aos preconceitos, à violência. Sem solenidades, o que deve ter irritado mais de um censor.
Jaguar foi cremado e suas cinzas, como ele queria, devem ser espalhadas por bares que frequentou no Rio e em São Paulo.
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