Alteridade

Alteridade

A condição de ser outro —aquilo que costumamos chamar de “colocar-se no lugar do outro”— tem um nome antigo e exigente: alteridade. Não se trata de tolerância nem de empatia superficial, mas da capacidade de deixar-se afetar pela existência alheia; de reconhecer que o sentido não nasce do eu isolado, e sim do encontro, do atrito e, muitas vezes, do conflito com os demais.

Hoje, a alteridade não está ferida: agoniza. E não por excesso de diferenças, mas por sua anulação administrada. Em nome da segurança, do cuidado e do bem-estar individual, tudo o que vem de fora torna-se suspeito. O desacordo deixa de ser uma condição do comum e passa a ser lido como ameaça.

A informação acabou substituindo a realidade. O mundo se recolhe à tela. O que acontece, acontece ali: no fluxo interminável de imagens, manchetes, números e notificações. Guerras próximas e distantes, violência nas prisões, fome, migração forçada já não irrompem na experiência vivida, mas na televisão ou no celular. Horrorizamo-nos menos com a violência real do que com a irrupção de uma imagem incômoda durante o almoço. Já não nos dói a gente: doem-nos as imagens.

A informação não apenas desinforma: desafetiva. Converte o sofrimento em dado, em estatística, em tendência. Reduz o trágico a um gráfico animado e produz uma dos paradoxos mais devastadores do nosso tempo: enquanto as distâncias geográficas diminuem, cresce a distância entre os sujeitos.

Após o colapso das grandes ideologias, a promessa da globalização — convivência, pluralidade, diálogo — derivou em seu oposto: um ódio sem objeto, uma animosidade primária contra quem não confirma nossas certezas. As lutas políticas deram lugar a guerras entre vizinhos. O desacordo ideológico foi substituído pela repulsa imediata: ao que pensa diferente, ao que migra, ao que incomoda, ao que simplesmente existe.

Essa deriva não é abstrata nem excepcional. Em muitas sociedades contemporâneas, a divisão social não surge espontaneamente: é incentivada, administrada e normalizada por formas de governo que evitam o diálogo. Governa-se pelo medo e gere-se a fratura como método. A palavra pública já não convoca: ordena. Não escuta: classifica. Não integra: separa. Entre “bons” e “maus”, entre “produtivos” e “descartáveis”, entre os que merecem proteção e os que podem ser eliminados.

Erguem-se muros, fecham-se fronteiras, normaliza-se a expulsão. À globalização econômica sucede um localismo emocional: cada sujeito encerrado em sua cápsula, protegido por algoritmos que confirmam seus medos e preconceitos. Cada um gira em sua própria órbita, sem interconexão  com os outros. Como advertiu Soler, o destino só existe no cruzamento com o outro; fora disso, há apenas sobrevivência.

Na ausência do semelhante, o eu ocupa seu lugar. O corpo torna-se objeto de culto, de correção infinita e de vigilância obsessiva. Academias, dietas, cirurgias, suplementos, espiritualidades de catálogo, literatura de autoajuda. O mercado oferece uma alteridade domesticada: o eu refletido, melhorado, otimizado. O indivíduo seduz a si mesmo enquanto aprende a desprezar tudo o que o incomoda.

A pandemia não inventou esse processo, mas o acelerou e o legitimou. Não trouxe apenas morte e confinamento: instaurou uma pedagogia do distanciamento que ultrapassou o campo sanitário. Fomos treinados a desconfiar do outro, a percebê-lo como ameaça, como vetor permanente de risco. O próximo transformou-se em perigo.

Convém dizê-lo sem rodeios: não fomos vacinados apenas contra um vírus. Fomos vacinados — simbólicamente — contra o contato, contra a proximidade, contra a alteridade. E dessa vacina não há reforço técnico que nos salve.

No mundo pós-pandemia, essa mutação tornou-se visível e cotidiana. O confinamento não terminou com a reabertura das ruas: transferiu-se para a vida social. A violência extrema convive com uma indiferença igualmente extrema. Os mortos são contados, não chorados; os deslocados são mencionados, não escutados; as tragédias coletivas consomem-se como episódios recorrentes de uma normalidade fraturada. O medo circula como política, e a segurança é administrada como slogan.

Exige-se obediência, adaptação, silêncio. Normaliza-se a militarização do espaço público enquanto o espaço comum se esvazia. O outro — o pobre, o preso, o migrante, o jovem, aquele que incomoda —  aparece como resíduo, como ameaça, como erro do sistema. Já não é um semelhante: é um risco.

Essa é a verdadeira patologia do nosso tempo: a extinção lenta do outro. Não há anticorpos técnicos nem estratégias imunológicas capazes de enfrentá-la, porque ela não atinge o corpo, mas o vínculo. Contudo, diferentemente das doenças, essa não se cura com procedimentos: interrompe-se com gestos.

A alteridade não é um slogan moral nem uma virtude abstrata. É uma prática frágil e cotidiana: escutar quando é incômodo, aceitar o conflito sem anular o adversário, reconhecer humanidade mesmo onde o discurso dominante só enxerga ameaça. Não restaura a harmonia, mas recompõe o laço.

Em sociedades atravessadas pelo medo e por uma política que evita o diálogo, voltar-se ao outro é um ato de resistência silenciosa. Não faz barulho, não gera manchetes, não produz obediência. Produz algo mais raro e mais valioso: comunidade.

Talvez não possamos reverter de imediato a violência nem desmontar a maquinaria do medo. Mas enquanto houver alguém disposto a não reduzir o outro a inimigo, a número ou a resíduo, o comum não estará perdido. Porque no dia em que voltarmos a nos olhar — não para nos reconhecermos iguais, mas para aceitarmos nossas diferenças — nesse dia, mesmo em meio à intempérie, terá recomeçado o humano.