Mal estar

Mal estar

Suponhamos que o atual presidente dos EUA, sob a orientação de seus negociadores e com apoio nos algoritmos da IA, tenha resolvido utilizar estratégias arriscadas com vistas a enfrentar, por um lado, a aliança entre China e Rússia e, por outro, cobrar os supostos prejuízos do Ocidente no campo dos costumes e da criminalidade. Observam-se tentativas de aplicação da arte da guerra, à maneira de Sun Tzu — algo que chineses e russos conhecem bem. Seriam essas manobras modos de combatividade construtiva, baseados em princípios?

Enquanto isso, a mídia e as redes sociais, quase sempre, ao mesmo tempo em que buscam estimular o consumo de informações, alimentam e retroalimentam as massas com superficialidades tópicas, desconectadas das causas e da natureza das disputas. Excesso de informação, escassez de conhecimento.

De início, sugiro que nos recordemos de que, com o enfraquecimento das experiências socialistas estatais, parte da reflexão marxista passou a concentrar-se nas relações culturais, na linguagem, nas identidades, nos meios de comunicação, na educação e na produção de conhecimento. Esse deslocamento é frequentemente chamado, de modo genérico, de “marxismo cultural”, expressão que passou a circular sobretudo no debate público a partir dos anos 1990, sem definição única ou oficial. Reconheceu-se, na Rússia e na China, o fracasso da estatização monopolista dos meios de produção e da ditadura do proletariado.

Vamos pensar juntos? Com que ética, arte, técnica e direito iremos mediar as complexidades atuais? Está superado o reconhecimento de que o sonho de uma sociedade ética, igualitária, colaborativa e livre — a ponto de não necessitar de burocracias estatais (a sociedade comunista) — fracassou? Como explicar, então, a existência, hoje, de partidos que se autodenominam comunistas? Trata-se de poesia, manipulação ou delírio?

Sigamos nas indagações: as polarizações de nosso tempo seriam fruto de manipulações políticas regionais e barganhas artificiosas, impulsionadas por algoritmos de IA sem governança adequada? Em escala mais ampla, seriam efeitos de “acertos de contas” no campo da geopolítica, decorrentes de acordos entre Estados Unidos e Europa, de um lado, e Rússia e China, de outro, nos tempos de falência econômica e moral da Rússia e da China, na passagem dos anos 1980 para os anos 1990? As duras cobranças da década passada para cá decorreriam, por acaso, do sucesso econômico e tecnológico de China e Rússia após a adoção de modelos de desenvolvimento mais próximos ao modo de produção dos países ocidentais? Ou estariam essas grandes disputas sendo acionadas também por outras questões?

Esse mal-estar não estaria igualmente impulsionado pelo aquecimento global, prática e cientificamente comprovado, diante das crescentes catástrofes naturais que afetam, de forma dramática, nossos juízos, nossos nervos e a própria habitabilidade do planeta? Tal inquietação não teria, ainda, como causa a acelerada disrupção tecnológica que, embora facilite nossas vidas quando bem orientada, sem adequada governança da IA aliena os seres humanos, submetendo-os a isolamentos, traumas, crimes e depressões?

Como dizia Rui Barbosa, não é possível estar dentro da civilização e fora da arte. No acolhimento, na responsabilidade e no cuidado daqueles que constroem caminhos de paz, florescerá o Direito democrático e planetário, e semearemos os princípios de uma diplomacia boa e próxima. É na combinação da lei analítica com uma dialética de boa-fé que poderemos avançar por um sistema vivo de justiça, como já experimentamos nas práticas colaborativas e restaurativas e nas arbitragens internacionais.

Impõe-se que nossas energias e nossas ciências se voltem para o que efetivamente importa. Porque, como diria Heidegger, só nos fazemos humanos numa relação dialética com os outros seres humanos, sofrendo e exercendo influências na formação daquilo que somos. É urgente. Não podemos perder tempo. Salvemo-nos.