Medo

Medo

Joseph Joubert, o excepcional moralista francês, fez esta observação notável e que talvez valha por um tratado: “Os homens tomam o partido daqueles que eles temem a fim de se protegerem deles”). Maquiavel, muito antes, havia ponderado, em seu realismo implacável, que o governante deveria optar por ser temido em detrimento de ser amado, visto que os “homens têm menos receio de ofender a quem se faz amar do que a quem que se faça temer”.

A máxima de Joubert mostra um paradoxo. Afinal, como buscar proteção no que se teme?  Por que se ficaria sob as asas do que amedronta para, assim, se sentir protegido ou seguro? Logo se nota que essa adesão só se sustenta por sua radical utilidade prática: o temor cede a vez à segurança. O medo é de tal ordem que, lá no fundo de cada um, algo grita pela segurança, nela vendo um bem maior: sobreviver. É uma espécie de mecanismo de defesa e sobrevivência.

Por sua vez, Maquiavel vai ao ponto: o reino do amor não é o reino do príncipe e das coisas do Estado. O medo seria uma ferramenta mais apropriada e preferível a governar os homens, a despeito de uma  moralidade mais generosa. O governante afinado com Maquiavel, considerando as mencionadas palavras de Joubert, contaria com aqueles que, ao dele “se protegerem”, perfilam-se em suas hostes (dominados pelo medo, eles evidentemente não se declaram medrosos por óbvios motivos, ainda que manipulem a seu favor o próprio medo na esperança de sobreviverem e ficarem em paz). Ao governante cabe manipular politicamente o medo alheio.

Tanto para Maquiavel quanto para Joubert o que está em jogo é a consciência do medo como fator sociopolítico. Por mais que a democracia e o espírito republicano tenham afastado o medo, recorrendo ao Direito e à Justiça (Joubert dirá belamente que “A justiça é a verdade em ação”), isto é, instituindo regras claras e pactuadas que garantam segurança e equilíbrio à esfera pública, o medo, por mil estímulos, sempre retorna. Pode dizer-se que volta como um monstro que estivesse apenas temporariamente submerso. Talvez estejamos vivendo uma dessas eras em que o medo novamente está à flor das águas. E o medo, como bem sabem as crianças, é contagiante.

Quem quer que tenha estudado um pouco de História sabe como houve intensos momentos de grande medo. Agora, com o soprar global de ventos pouco ou nada democráticos, surgem anacronias (ou seriam constantes?), a exemplo das forças neofascistas que vêm desafiando especialistas de diversos campos das ciências humanas.

É sabido que o cenário atual propicia uma política fascista, vale dizer: uma política voltada para o medo, nutrida pelo medo, vitoriosa pelo medo. É consenso que o fascismo vive de um permanente estado belicoso, que se vale continuamente de ameaças, de agressões e de uma violência sem trégua. Mussolini, já no poder, fazia crer, na Itália de então, que a violência seria passageira, mas, nos bastidores, só fazia fomentá-la. É o que demonstram, por exemplo, um Emile Gentile e um Antonio Scurati. A propósito, em seu notável ensaio “A originalidade de Maquiavel”, Isaiah Berlin cita que Mussolini considerava “‘O príncipe’ como um ‘vade mecum’ para os estadistas”!

Observe-se que os grandes medos atuais induzem a volta do fascismo como escolha “democrática” da população; muitos desses medos tendo surgidos do avanço da globalização, como já apontado, entre outros, por Robert Bellah, Boaventura de Sousa Santos e Lawrence Grossberg. Este último, citado por Bauman em sua obra “Medo líquido”, deixa igualmente visível o medo dos neoliberais, pois estes “[…] são individualistas radicais. Qualquer apelo  a grupos maiores… ou à própria sociedade não é apenas sem sentido, mas também um passo na direção do socialismo e do totalitarismo”. O irônico fato é que os ultraliberais, hoje em parceria com as tecnologias mais avançadas, estão criando o seu próprio totalitarismo e, assim, desaguam num fascismo de um novo tipo.

Finalmente, atentemos que, embora seja importante, não basta, para erradicar o medo, só apresentar seus devastadores efeitos, mas ir em busca de sua complexa etiologia. Como quer que seja, defender a democracia da hostilidade fascista parece estar cada dia mais difícil, inclusive no Brasil e na América Latina. O ensaísta e estudioso político ítalo-suíço Giuliano Da Empoli, em seu recente “A hora dos predadores”, não esconde seu pessimismo e faz um alerta: “Uma era de violência sem limites se abre diante de nós, e os defensores da liberdade parecem notavelmente mal preparados para a tarefa que os aguarda”.

Em suma, é preciso preparo e resistência: o inimigo já está entre nós.