Saramago - Street art

Saramago – Street art

Não cheguei a O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago, como um leitor neutro. Cheguei com uma educação católica mal desmontada, com orações aprendidas por repetição e esquecidas por cansaço, com uma fé que nunca se foi por completo e uma desconfiança que nunca se instalou de vez. Talvez por isso o livro não me tenha escandalizado. Ele me incomodou. E essa incomodidade foi íntima, quase física, como se Saramago tivesse colocado em palavras uma suspeita que eu nunca ousei formular inteiramente.

Li o romance como quem encara um espelho torto. Não para buscar confirmações, mas para reconhecer fissuras. Desde o início, com o sonho de José — esse pressentimento do castigo que cairá sobre os inocentes — fica claro que não estamos diante de uma reescritura piedosa, mas de uma pergunta moral radical: que tipo de ordem precisa fundar-se sobre a culpa daqueles que não escolheram nada?

Este Jesus não nasce para salvar o mundo. Nasce, como todos nós, lançado numa história anterior, carregando uma culpa que não lhe pertence. Trabalha, deseja, erra, duvida. E ama. A relação com Maria Madalena é, para mim, um dos gestos mais reveladores do livro, porque desmonta uma das mentiras mais persistentes da tradição: a de que a pureza exige distância do corpo. Aqui, o corpo não é queda; é ancoragem. Madalena não é a mulher redimida, mas aquela que sustenta, que devolve Jesus à vida concreta quando a abstração do destino começa a devorá-lo.

Enquanto lia Saramago, pensava constantemente em Eduardo Galeano e em sua maneira de ler a história como uma longa pedagogia do sacrifício. Em As veias abertas da América Latina, Galeano escreveu que nosso continente foi educado para a obediência, convencido de que o sofrimento do presente é o preço inevitável de uma promessa futura. Essa mesma lógica estrutura o Deus de Saramago: um Deus que não ama, administra; que não cuida, planeja; que não hesita, calcula.

O diálogo entre Deus e o Diabo — uma das cenas mais perturbadoras do romance — confirma uma intuição central também em Galeano: o mal não é um erro do sistema, mas parte do seu funcionamento. Não há heresia mais perigosa do que essa. Sugerir que o sofrimento não é desvio, mas recurso. Que a história da salvação se parece demais com a história dos impérios.

Houve um momento em que deixei de ler Saramago apenas como romancista e passei a lê-lo como contemporâneo. Já não pensava apenas no cristianismo, mas em qualquer poder que justifica vítimas presentes em nome de um amanhã luminoso. Galeano chamou isso de progresso. Outros chamam de ordem, segurança, estabilidade. O nome muda; a lógica permanece.

Jesus é, neste livro, uma figura trágica não por causa da cruz, mas por causa da consciência. Ele entende tarde demais que sua morte não encerrará o ciclo da dor, mas o multiplicará. Que seu nome será usado para abençoar guerras, fogueiras, conquistas. Nesse instante, sua fé se rompe, e o que resta não é negação, mas acusação. Ele não diz a Deus que Ele não existe; pergunta-lhe sobre sua responsabilidade.

Essa pergunta me alcançou como leitor e como latino-americano. Não me perguntei se creio ou não creio. Perguntei-me o que aceitei sem questionar. Que dores justifiquei em nome de ideias abstratas. Galeano escreveu certa vez que a caridade humilha porque se exerce de cima para baixo, enquanto a solidariedade é horizontal. Talvez este evangelho apócrifo seja, no fundo, uma defesa radical da solidariedade contra a caridade teológica.

Ler O Evangelho segundo Jesus Cristo desde a América Latina torna tudo ainda mais incômodo. Aqui, a fé conviveu durante séculos com a pobreza como se fossem irmãs inevitáveis. Aqui, o céu serviu muitas vezes para explicar por que a justiça não chega à terra. Saramago não nega Deus; ele o coloca contra a parede. E nesse gesto há uma ética muito próxima da de Galeano: a desconfiança diante de qualquer narrativa que precise de mortos para se sustentar.

Ao fechar o livro, não me senti mais ateu nem mais crente. Senti-me mais responsável. Talvez seja disso que se trate: não de escolher entre Deus ou sua negação, mas de nos recusarmos a aceitar qualquer ordem — religiosa, política ou econômica — que transforme a dor humana em trâmite histórico.

Este evangelho segundo Saramago não oferece consolo. Oferece algo mais incômodo e mais necessário: a obrigação de pensar. E de assumir, como leitores e como cidadãos, que se continuamos a escolher verdugos é porque, em algum lugar, ainda acreditamos nas promessas que nos fazem em nome do futuro.