Tragédia em Minas Gerais

Tragédia em Minas Gerais

De comoção em comoção, após cada tragédia provocada pela revolta da natureza, nós, brasileiros, vamos nos acostumando aos desastres como se fossem fatos banais, eventos normais que fazem parte da vida moderna nas cidades. Os desastres urbanos e sociais que nos atingem com frequência e intensidade crescentes geram discursos penalizados de governantes — que nada fizeram para evitá-los — e iniciativas espontâneas de solidariedade da população, que se esgotam na caridade imediata. Depois de alguns dias, quando os acontecimentos e seus sofrimentos saem do noticiário, caem no esquecimento. Tudo volta ao “normal”, e os governos não tomam decisões nem assumem responsabilidades para evitar novas tragédias.

Todo ano é a mesma coisa. Tragédias urbanas e sociais causadas por eventos climáticos extremos resultam em mortes, desabrigados e desalojados em diversas cidades do país, que não estão preparadas nem adaptadas às mudanças climáticas. Nesta semana, o desastre concentrou-se na Zona da Mata de Minas Gerais, com mais de 40 mortos, dezenas de desaparecidos e milhares de desalojados, além de ocorrências menos dramáticas em outras cidades do Sudeste. A expansão urbana desordenada continua agredindo a natureza; a população de baixa renda se espremendo onde resta algum pedaço de terra; e a precariedade das habitações nessas áreas forma bolsões altamente vulneráveis. Enquanto isso, os governantes seguem ignorando os impactos das mudanças climáticas e dos eventos extremos: não orientam o ordenamento urbano, não implementam projetos estruturais para reduzir a vulnerabilidade das áreas e de seus habitantes, deixando para agir apenas depois do próximo desastre.

Os governantes sabem que mais da metade das cidades brasileiras — cerca de 2.807 municípios — está em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade a impactos climáticos. Quase nove milhões de brasileiros vivem em áreas de risco, sujeitos a inundações, enxurradas e deslizamentos, com mortes e destruição que atingem sobretudo populações de baixa renda e bairros periféricos. Diante da leniência dos governantes, que se limitam a ações reativas após cada tragédia, esses brasileiros continuam, infelizmente, ameaçados por novos desastres urbanos e sociais decorrentes de eventos climáticos extremos. A menos que, numa improvável reação política, os governos federal, estaduais e municipais se articulem e se mobilizem em um projeto conjunto de reestruturação urbana das áreas de risco, prevenindo, em vez de apenas lamentar.