
José Álvaro Moisés
Não estou segura que Moisés gostasse de homenagens, mas não há como não reconhecer a sua contribuição para o campo de conhecimento ao qual uma vida de trabalho fora dedicada, e para a construção de novos entendimentos sobre os fenômenos da nossa vida política. Talvez essas palavras ajudem.
Nossos encontros se deram no debate acadêmico, e como todo debate acadêmico é também político, foi nesse campo travamos muitas conversas, muitas reflexões, muitas discordâncias e construímos uma convergênciafundamental: a preocupação em estudar a democracia, seu funcionamento, suas debilidades e transformações, mirando sobretudo entender o processo democrático brasileiro.
Nosso primeiro contato acadêmico ocorreu no início dos anos 1990, quando eu e colegas da UNICAMP decidimos constituir um centro de pesquisa interno à universidade que fortalecesse a área de cultura política e decomportamento político, e que agregasse a produção acumulada de surveys com dados de nível individual, produzindo e organizando fontes para a formação de alunos e pesquisadores nessa área _ o CESOP(Centro de Estudos de OpiniãoPública). Moisés, que já tinha papel central nessa área no país, foi convidado para fazer parte como membro externo do primeiro Conselho Orientador do centro, ele aceitou prontamente, e ele passou ali a acompanhar nossa jornada. Suas pesquisas sobre democracia realizadas no início da democratização foram algumas das primeiras a compor nosso Banco de Dados, e ele foi um dos primeiros colaboradores da Revista Opinião Pública.
Ele seguiu desdobrando atividades em outros campos, foi para Brasília trabalhar com Weffort no Ministério da Cultura, e quando ele então se desligou do ministério em 2003, voltamos a ter contato e iniciamos nossa primeiragrande colaboração de pesquisa. Assim, há pouco mais de 20 anos, elaboramos e iniciamos o projeto temáticoNuppes/CESOP sobre a Desconfiança nas Instituições Democráticas. Com apoio da FAPESP, realizamos um survey nacional em 2006 que permitiu dar passos importantes nessa área, sobre a avaliação da relação dos indivíduos com as instituições públicas e privadas, a percepção da construção democrática segundo a população e, sobretudo, a incorporação da agenda internacional no campo dos estudos sobre democracia em nosso contexto. Desse projeto emergiram dois livros: Democracia e Confiança. Por que os cidadãos desconfiam das Instituições Públicas?( Edusp, 2010) e A Desconfiança Política e os seus impactos na Qualidade da Democracia. (EDUSP, 2013). O projeto tambémrealizou em 2007 um importante seminário internacional em Oxford sobre a questão democrática
com intelectuais de vários países, dentre os quais Leonardo Morlino, com quem Moises tinha muito diálogo acadêmico.
Depois dessa iniciativa seguimos com nossos projetos individuais específicos, ele notavelmente militante, mobilizando colegas em seminários e reuniões, ou no site ‘Qualidade da Democracia’, de divulgação de opiniões e reflexões sobre o tema. Até que nos cruzamos novamente em conversas em 2017, com o país seguindo a sua jornada ultra-direitista, e unimos novamente esforços para um novo projeto para estudar o que ocorria com a democracia brasileira que então abria as portas para o bolsonarismo. Voltamos a unir esforços para um novo projeto temático FAPESP/ CESOP/Nuppes, ‘A Qualidade da Democracia’, no qual conduzimos duas pesquisas nacionais, em 2018 e 2022.
Avançamos sobre muitos pontos de análise, o impacto da onda populista no sistema representativo, oagravamento da desconfiança nas instituições, o enfraquecimento da adesão democrática e o impacto das percepçõespúblicas sobre a corrupção e seus efeitos sobre a legitimidade da democracia brasileira podem ser destacados como alguns de nossos achados. Um dado específico aguçou nossa preocupação quando encontramos em 2022, após de 4anos de governo Bolsonaro, alterações importantes do significado da democracia para a população. Antes, empesquisas realizadas em períodos anteriores, a começar por aquelas pesquisas pioneiras de 1989 e 1990, a democracia era entendida sobretudo como a conquista de direitos civis, sociais e políticos. Em 2022, o significado de democracia para a população passou a incorporar a ideia de liberdade sem controle, e os referencias básicos que víamos nas pesquisas do início da democratização perdiam fôlego. Nossas reflexões passaram a seguir no caminho do entendimento do impacto dessas mudanças.
Ao longo de nosso projeto Moises teve alguns sustos com a sua saúde. Mas ele era um pesquisador incansável e, portanto, sua presença era permanente. Foi responsável por um projeto de debates e seminários vigoroso no IEA da Usp, vários deles contando com a parceria do nosso grupo de pesquisadores da Unicamp.
Trabalhar com ele significava unir a elegância acadêmica com a reflexão profunda e cuidadosa com que embasava as suas conclusões. Tínhamos planos de dar sequência aos nossos estudos, mas ele agora em 2025, estava envolvido em realizar uma publicação em homenagem ao seu amigo Francisco Weffort, para a qual eu já estava convocada. Tudo foi um privilégio para mim.
Rachel Meneguello, Professora Titular de Ciência Política da UNICAMP, fundadora e ex-diretora do CESOP, Editora da Revista OPINIÃO PÚBLICA, Pesquisadora do CNPq e Pró-Reitora de Pós-Graduação da UNICAMP entre 2021-2025.
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