
Diego Rivera
A utopia socialista de Marx concebia uma sociedade de tempo livre – ninguém precisava mais trabalhar – e de abundância – a produção numa escala que poderia atender a todas as necessidades humanas. O progresso técnico substituiria completamente a necessidade do trabalho humano, máquinas com alta produtividade a ponto de dispensar o esforço para produção de uma quantidade tal de bens e serviços que acabaria com as necessidades. Segundo Marx, superando a relação de precariedade com a natureza, a humanidade sairia do reino da necessidade – esforço necessário para a sobrevivência – para o reino da liberdade – com completa disponibilidade de tempo para a convivência social, a arte, a cultura, a educação, o desenvolvimento humano (Marx, Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858 – Esboços da crítica da economia política).
Em meados do século XIX, Marx não poderia imaginar a velocidade e a extensão da revolução científica e tecnológica que, duzentos anos depois, quase pode dispensar o trabalho humano e produzir uma abundância inimaginável de bens e serviços. Mas ele não considerou o aumento também acelerado da população mundial (de um bilhão, na época, a oito bilhões atuais) e, menos ainda, a ampliação e diversificação do consumo médio desta população, sem falar dos níveis e sofisticações de consumo das classes abastadas. A este respeito, Hannah Arendt lembrava que o tempo poupado pelo progresso técnico não é gasto senão em mais consumo, “quanto maior é o tempo de que ele dispõe, mais ávidos e insaciáveis são os seus apetites” (Arendt, A condição humana). Ou seja, as necessidades que, no tempo de Marx eram muito limitadas (apesar do consumo conspícuo da burguesia e da aristocracia), se ampliaram pela incorporação de novos desejos e carências decorrentes das mudanças sociais e culturais.
Se estamos longe de utopia de Marx, é verdade que a história do capitalismo, nos últimos duzentos anos, tem registrado uma continuada redução da jornada de trabalho e, portanto, elevação do tempo livre dos trabalhadores. De 1860 a 1975, a jornada média de trabalho da Alemanha, caiu quase à metade (de 78 – 13 horas diárias em 6 dias da semana – para 40 horas semanais – 8 horas diárias em 5 dias) acompanhando os ciclos de expansão econômica e elevação da produtividade do trabalho. Portanto, em pouco mais de cem anos, o tempo livre médio dos trabalhadores alemães ganhou um adicional de 38 horas semanais, que são dedicadas ao repouso, à vida familiar, ao lazer, às atividades culturais e educacionais. Atualmente, o tempo médio de trabalho na Alemanha flutua em torno de 36 horas semanais, não chegando a 40 horas na maioria dos países desenvolvidos da Europa.
O aumento do tempo livre dos trabalhadores tem sido possível apenas por conta do crescimento significativo da produtividade do trabalho nestes séculos, viabilizando as lutas sindicais e a emergência da socialdemocracia na disputa pelos ganhos adicionais de produtividade, sem comprometer a acumulação de capital e ainda dinamizando a economia. Além da invenção e oferta de novos produtos, o tempo livre adicional da população trabalhadora cria grande demanda por bens e serviços (novas necessidades) que reanima atividades econômicas no entretenimento, no lazer, na educação e na cultura.
Marx achava que a sua utopia só poderia se realizar no socialismo que, evidentemente, precisaria de um mecanismo de distribuição de bens e serviços segundo as necessidades e independente da distribuição de salário. Como é amplamente sabido, o socialismo real do modelo soviético fracassou na construção de uma sociedade de tempo livre e de abundância, seja porque a distribuição dos bens e serviços continuou usando os salários e, assim mesmo, com concentração nas lideranças da burocracia e do partido, seja pela moderação da revolução científica e tecnológica que aumenta a produtividade do trabalho.
A sociedade do conhecimento, que emerge mesmo no sistema capitalista contemporâneo a partir da revolução tecnológica (inteligência artificial), convive e, em certa medida, reforça a desigualdade de renda e, portanto, do acesso à abundância da ampla oferta de bens e serviços. No entanto, viabiliza uma continua redução da jornada de trabalho e, como consequência, a elevação do tempo livre dos trabalhadores, principalmente nos países com mais alta produtividade de trabalho e com movimento sindical e social atuantes.
A jornada de trabalho legal no Brasil é de 44 horas semanais (nada de 6X1 como se tem falado) e cerca de 36% da mão de obra formal já trabalha apenas 40 horas semanais, sendo que o informal (quase metade de toda população ocupada) não tem jornada definida ou supera o limite. Vários projetos tramitam, atualmente, no Congresso, propondo a redução da jornada de trabalho, a começar pela proposta do deputado Paulo Paim, de 2015, que prevê a diminuição de 44 para 36 horas semanais no prazo de cinco anos. As propostas seguem uma tendência global diante dos enormes impactos previsíveis no mercado de trabalho pela intensificação da revolução tecnológica, cada vez mais ampla e intensa, com a robotização e a inteligência artificial. Recentemente, a ideia ganhou força depois que o presidente Lula da Silva passou a destacar esta redução da jornada como prioridade de governo e com proposta de urgência, para mostrar generosidade social antes das eleições de outubro.
O tema despertou um grande debate político e técnico sobre o efeito na economia – elevação do custo de produção – e na qualidade de vida do trabalhador, que passaria a usufruir de mais tempo livre. Entretanto, para que não tenha impacto negativo na economia, a jornada reduzida deve ser compensada por um aumento da produtividade do trabalho, o trabalhador produzindo o mesmo (ou até mais) com menos horas trabalhadas. Estudo do IPEA minimiza o impacto negativo na economia, enquanto análises de instituições empresariais advertem para as consequências de elevação do custo de produção e, portanto, de pressões inflacionárias, tanto maior quanto mais drástica a diminuição das horas dedicadas à produção.
A realidade do Brasil é muito mais complexa porque padece de uma grande restrição para implantação de menor jornada legal de trabalho: o baixo nível da produtividade que está estagnada há décadas. Ao contrário do que ocorreu na maior parte dos países desenvolvidos, no Brasil os avanços tecnológicos continuam limitados e segmentados e a precária qualidade da mão de obra não facilita a inovação e a elevação da produtividade do trabalho. O trabalhador brasileiro produz, em média, um quarto do realizado por um alemão e metade do produzido por um coreano, sendo inferior à produtividade do Chile, da Argentina e do Uruguai (dados da OIT). Ao longo das últimas décadas, a produtividade do Brasil cresceu menos de 1% ao ano, o que, aliás, só foi possível pela contribuição da agropecuária, que tem apresentado um rápido crescimento da produção por pessoal ocupado. Pelo menos duas das propostas em discussão no Congresso brasileiro contemplam uma redução da jornada legal de 44 para 36 horas semanais, o nosso limite se igualando à média da Alemanha (não ao limite legal do país europeu).
Desta forma, embora seja desejável, para se aproximar das condições de trabalho da Alemanha (as 40 horas legais), o Brasil teria que multiplicar por quatro a produtividade do trabalho. O que demanda muito investimento em educação, qualificação profissional e inovação, a melhoria do ambiente de negócios, além de abertura externa para forçar a reestruturação produtiva da indústria brasileira. Um esforço extraordinário para um país com a produtividade praticamente estagnada, em alguns anos, até declinante na indústria de transformação. Lembrando que os resultados de uma estratégia nesta direção têm um ritmo lento de maturação na medida em que se lida com um passivo lamentável de baixo nível educacional, deficiente formação profissional e conservadorismo empresarial.
O aumento do tempo livre do trabalhador, elevando sua qualidade de vida e satisfação pessoal, é certo, também contribui para melhorar o seu desempenho na produção, considerando o descanso maior, a satisfação, as relações com a família e o lazer. Nada relevante, contudo, se não for acompanhado de educação, formação profissional e inovação, o que, de fato eleva a produtividade do trabalho. Por isto, em vez de uma lei limitada à jornada, como medida de choque, o Brasil deveria definir um cronograma flexível de redução do tempo de trabalho vinculado a um forte programa de promoção da produtividade do trabalho, com um monitoramento que, ao longo dos anos, possa ajustar a equação. Tudo mais não passa de uma generosidade descuidada ou, o que é pior, de puro populismo, principalmente quando ganha força em plena campanha eleitoral.
Uma explicação didática: um pais de produtividade estagnada e economia quase estagnada há décadas não pode ter como prioridade a redução da jornada de trabalho. Mesmo porque só afetaria o trabalhador formal, só metade da força de trabalho. A maioria dos analistas econômicos afirma que no momento a redução da jornada de trabalho é demagogia, levaria ao aumento dos custos de produção, já elevados na comparação intenacional, e prejudicaria a população em geral.
Pois é estou de pleno acordo quanto a redução da jornada de trabalho, a justificar à utopia considerada em Marx.
Entretanto, venho me batendo pala REVISÃO na teoria de valores e remoção fas patologias (historicas: “usura, cobiça, inveja e avareza), ligadas ao equívoco fundamental da humanidade: quando em priscas eras, essa mesma humanidade tocou seu verdadeiro valor dinâmico (moeda biológica), pelo falso valor estático (moeda mineral).
Eis na sequência os males econômicos, sociais e políticos causausados até hoje: miséria e violencia, guerras & disputas, corrupção & poder, ambeiente & predação.
Tudo, pasme-se, cegamente: sem numa crítica ou revisão (encontrada e encontável em continuação) nos alfarrábios da economia clássica, como coisa assentada em definitivo. Pois é.
Sérgio, querido amigo, continuo aprendendo com você, seu conhecimento e sua sensatez.
Grande abraço,
Luciano Oliveira.
O artigo de Sérgio sobre a Jornada de Trabalho e Tempo Livre, além de ter uma excelente base histórica que permite indicadores fortes de comparação internacional, tem principalmente o grande mérito de indicar questões outras para desdobrar novos artigos capazes de desnudarem as dúvidas que o tema traz. Hoje, 24/02/2026, a Folha de São Paulo traz um artigo de uma empresária com muitas dúvidas que também estão no artigo anterior de Sérgio. Particularmente, as minhas dúvidas são mais culturais e políticas, considerando o nível da classe empresarial brasileira. Tomando apenas a história industrial, desde o salário mínimo, as alegações de todas as medidas favoráveis a classe trabalhadora sempre foram vistas como portadoras do caos. Mesmo mitigadas, foram implantadas e o país avançou. Considero as dificuldades econômicas que a atual proposta seguramente trará, mas não deixo de olhar a história, que sempre é marcada pela resistência da nossa elite econômica as mudanças sociais. Todos reclamam dos gastos públicos que são de baixa qualidade; mas, não falam nos pesados subsídios que recebem e que, sem dúvida, contribuem para manter baixa a produtividade de nossa indústria. Não sei se o resultado é apenas a baixa produtividade ou a elevada taxa de lucro acima dos padrões da OCDE.
Muito efetivo e atual o artigo. Tenho um exemplo, vivido por uma pessoa próxima que trabalha numa pequena cidade de SC. O patrão pôs em funcionamento uma jornada de 36 hs/ semana. O teste durou poucas semanas. Um funcionário pediu demissão e a produtividade dos que ficaram não justificou a continuidade. Voltou a 40 hs/semana.