
Ortega y Gasset
Há livros que pertencem ao seu tempo. Outros pertencem ao tempo em si.
Reler La rebelión de las masas, de José Ortega y Gasset, é experimentar a estranha sensação de estar sendo observado por alguém que escreveu quase um século atrás. Publicado em 1930, quando a Europa ainda se iludia com a solidez de sua técnica e a inevitabilidade de seu progresso, o livro soa menos como um documento histórico e mais como uma advertência suspensa no ar, à espera de seu momento.
Talvez esse momento seja o nosso.
Ortega não descreve uma revolta ruidosa nem um colapso institucional. A sua “rebelião” é mais silenciosa e, por isso mesmo, mais profunda. Trata-se da ascensão de um tipo humano: o homem-massa. E é preciso insistir no ponto decisivo — massa, aqui, não é uma categoria sociológica nem uma maioria numérica. É uma disposição interior.
O homem-massa é aquele que vive instalado em sua própria suficiência. Não ignora necessariamente; antes, julga não precisar saber mais. Não é privado de informação; está saturado dela. Mas não reconhece instâncias superiores de exigência. Vive dos benefícios de uma civilização que não construiu e cuja complexidade não sente necessidade de compreender.
O homem-massa não é o inculto; é o satisfeito.
Nos anos 1920, Ortega percebia que a técnica havia produzido uma sociedade extraordinariamente eficaz — e, paradoxalmente, espiritualmente relaxada. O progresso material dispensava a tensão interior. Hoje, cercados por dispositivos inteligentes, plataformas onipresentes e fluxos incessantes de dados, talvez vivamos a mesma estrutura ampliada. Nunca houve tanto acesso ao conhecimento; raramente houve tanta impaciência com ele.
A massa já não ocupa praças; ocupa telas. Já não se organiza apenas em partidos ou sindicatos; organiza-se em tendências, hashtags, ondas de indignação. E o sistema — esse organismo algorítmico que regula nossa visibilidade — confirma, recompensa e amplifica o que é imediato. A notoriedade substitui a autoridade. A reação substitui a reflexão. A presença constante substitui a densidade.
Nesse contexto, um trecho do capítulo XIII do livro adquire uma força quase escandalosa. Escreve Ortega:
“Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é aquilo que não age por si mesma. Tal é sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influenciada, representada, organizada — até para deixar de ser massa, ou, ao menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Precisa referir sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes…”
A frase, lida hoje, parece tocar um nervo exposto. Dirigida? Influenciada? Representada por minorias excelentes? Em tempos que identificam qualquer distinção com privilégio e qualquer hierarquia com opressão, as palavras soam perigosas.
Mas talvez o perigo esteja menos no que Ortega afirma e mais naquilo que supomos ouvir.
Ele não defende um aristocratismo social, tampouco uma autoridade imposta de fora. O que reivindica é a necessidade de referências qualitativas. As “minorias excelentes” não são uma casta; são aqueles que se exigem mais do que o comum, que recusam a complacência, que assumem a responsabilidade de sustentar níveis de rigor — intelectual, moral, institucional — sem os quais a vida pública se dissolve em improviso.
O ponto crucial está na cláusula quase escondida: “até para deixar de ser massa, ou, ao menos, aspirar a isso”. A massa não é uma essência imutável. É uma condição provisória, marcada pela renúncia à autoexigência. E, sendo renúncia, pode ser revertida.
A verdadeira questão, então, não é se existem elites. Sempre existirão formas de distinção. A questão é se ainda reconhecemos a diferença entre excelência e exposição, entre mérito e popularidade. Um grande número de seguidores não constitui autoridade. A frequência de uma opinião não garante sua verdade.
O que acontece com uma sociedade complexa quando seus membros deixam de reconhecer qualquer instância superior de aprendizado? Quando a igualdade jurídica — conquista indispensável da modernidade — é interpretada como equivalência intelectual absoluta? Ortega temia precisamente essa mutação: uma cultura em que a massa, em vez de aspirar a superar-se, transforma sua própria medida em norma universal.
Talvez o traço mais inquietante de nosso tempo não seja a existência da massa, mas a naturalização de sua autossuficiência. O algoritmo não impõe; confirma. Não obriga; ecoa. Cada um encontra, com notável eficiência, aquilo que já pensa. E assim, pouco a pouco, a fricção com o diverso e o superior se atenua.
Convém, porém, suspender qualquer tentação de superioridade. A massa não são “os outros”. Somos nós quando preferimos a síntese fácil ao pensamento trabalhoso, quando trocamos o estudo pela opinião, quando escolhemos a segurança da reação coletiva em vez da solidão da reflexão. A rebelião de que fala Ortega não é um evento externo; é uma inclinação sempre disponível.
A civilização, ele sugere, não colapsa apenas por falhas técnicas ou crises econômicas. Ela se desgasta quando desaparece a tensão que a sustenta. Quando a exigência cede lugar à complacência. Quando ninguém aceita aprender porque todos já se julgam suficientes.
Um século depois, talvez devamos ler La rebelión de las masas não como um diagnóstico datado, mas como uma pergunta permanente. Não se trata de saber se vivemos na era da massa — em algum sentido, sempre vivemos. Trata-se de perguntar se ainda desejamos deixar de sê-la.
A técnica continuará a avançar. As plataformas se tornarão mais sofisticadas. As ferramentas, mais poderosas. Mas nenhuma inovação substitui a decisão interior de aspirar a algo superior a si mesmo.
E é nessa decisão silenciosa — na recusa de instalar-se confortavelmente na própria medida — que a rebelião pode, enfim, encontrar seu antídoto.
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