Orelha

Orelha

O infeliz caso do cão Orelha, de Santa Catarina, tomou as redes e comoveu o País. Era um “cão comunitário”. Em alguns estados brasileiros, há leis que se referem a esses cães, nas quais se diz que eles têm laços de dependência e manutenção com a comunidade em que vivem e não têm um responsável único e definido. Noutras palavras, um cão comunitário é um filho social da empatia humana. Pobre Orelha, mal sabia que depois da bonança viria a tempestade!

Contra seus carrascos, animais maltratados têm uma razão acusatória mais grave: são inocentes e inimputáveis. Mas pertencem a um mundo que, embora próximo, costuma nos escapar, como poeticamente registrou o historiador Jules Michelet: “O animal, sombrio mistério!… Mundo imenso de sonhos e dores mudas!…”. Registre-se, porém, um tanto antropologicamente, que há culturas que não apreciam certos animais. Basta pensarmos em povos e religiões que, por seus tabuísmos, caracterizam alguns bichos como “impuros”. Em suma, não obstante os avanços recentes, é problemática a relação humana com os animais sencientes. Michelet, tocado pela filosofia oriental, deixou também estas palavras atuais: “Toda a natureza protesta contra a barbárie do homem que ignora, avilta, tortura o seu irmão inferior”.

Orelha, enquanto espécie, não está só. Gatos, porcos, baleias, touros, elefantes e inúmeros animais continuam penando mundo afora nas mãos ásperas da infeliz raça humana. E isso é tanto mais grave quanto mais institucionalizada e naturalizada, em nome das tradições culturais, é a crueldade. Não faz muito tempo, muitas casas brasileiras ostentavam sabiás, canários, patativas, curiós e galos de campina “naturalmente” engaiolados… Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, num baião famoso, registraram uma dupla crueldade: um prisioneiro açum-preto que se tornou cego por mãos humanas… Orelha mal farejou a contradição atroz do verso famoso de Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja”. A mão carinhosa dos ditadores sobre seus animais de estimação é a mesma que leva os seus adversários políticos ao inferno da tortura.

Orelha tornou-se simbolicamente um olho, uma lente, para enxergarmos além de seu sofrimento. Esse olho penetrante e coletivo vai ligando pontos que pareciam desencontrados e pouco percebidos. Orelha perfila do lado dos vulneráveis da sociedade. Foi um sem teto, um migrante, um vulnerável, um “perdedor”. Na comoção causada por sua tortura e morte, emerge o embate de duros antagonismos políticos e sociais. Um caso como o seu desperta a sociedade de sua inércia e promove justiça, reparação e mudanças. O Brasil, em matéria de defesa dos animais, ainda tem um longo caminho a percorrer.

Um dos filósofos mais pessimistas, Arthur Schopenhauer, sugeriu que a bondade de caráter estaria virtualmente ligada à compaixão pelos animais, o que infelizmente só em parte é verdadeiro. Immanuel Kant, outro gigante, apesar do que  denominou de “madeira torta da humanidade” (quase digo: o osso duro da humanidade), advogou que cada ser humano deve ser “um fim em si mesmo”. Pois bem, as grandes filósofas americanas Martha Nussbaum e Christine Koorsgaard, ao defenderem justiça para os animais, foram buscar em Kant o fundamento de sua abordagem, que talvez possa ser sintetizada desta forma: também o animal senciente deve ser tratado como um fim em si mesmo. Assim seja.

Agora, do mesmo céu literário de Baleia, criado por Graciliano Ramos, Orelha nos espia, nos ouve e abana a cauda como um perdão.