Terceira via

Terceira via

Realidade e ficção se confundem. Um político, em um ambiente altamente polarizado. Dois grupos se digladiam em busca da hegemonia. Sabendo não ter nenhuma densidade eleitoral, ele se lança em uma eleição de dois turnos e obtém menos de 4% dos votos. Havia se definido como Terceira Via e, assim, se cacifa para a barganha. Torna-se linha auxiliar da oposição ao governo e levanta uma série de acusações infundadas. Alimenta, com discurso virulento, ataques baseados em notícias falsas ou não verificáveis. Passará quatro anos exigindo e obtendo benesses e recompensas, afirmando que a eleição só foi ganha com seu apoio. Em nosso país, parece ser isso que define essa via.

O fato acima parece hipotético, mas tem elementos muito concretos de factibilidade. Com ele aprendi três coisas. Em primeiro lugar, que em nosso sistema eleitoral a Terceira Via pode se tornar moeda de barganha. Em segundo, que é um caminho fácil para desestabilizar candidaturas e criar desconfianças. Em terceiro lugar, que é instrumento de interesses não explícitos, muitas vezes utilizado por grupos economicamente poderosos que precisam de pretextos para não expor seus reais interesses, que evidentemente os beneficiam.

Na literatura política internacional, a Terceira Via tem uma definição mais clara e precisa — certamente diferente. Trata-se de uma corrente política que acredita no mercado livre, mas reconhece a necessidade de políticas sociais robustas para evitar as assimetrias características do processo concentrador do capitalismo. Opõe-se ao liberalismo clássico e às correntes mais à esquerda radical. Vai além da social-democracia convencional, com propostas integradoras e forte combate às disparidades de renda e regionais.

De certa maneira, Clinton — rompendo com lógicas tradicionais dos democratas nos Estados Unidos — ou Blair, com os trabalhistas no Reino Unido, mesmo estando em partidos tradicionais, podem ser considerados dentro desse perfil.

Definir-se como Terceira Via antes de ter consolidado propostas consistentes parece insensato e pouco produtivo. A educação, a saúde, o combate à miséria e a estabilidade dos aposentados e dos mais desfavorecidos deveriam estar no centro de um programa de ação. O Estado tem papel decisivo em garantir justiça social. É preciso ter claro que o mercado não se preocupa com isso. A modernização, inclusive tecnológica, das estruturas é um caminho obrigatório para reorientar o processo de desenvolvimento.

Responsabilidade tem um duplo sentido: econômico e social. Sem essas duas variáveis articuladas, trata-se apenas de mais uma aventura, sem consistência. De certa maneira, já tivemos — e temos — governos, inclusive no Brasil, que procuraram se estruturar fortemente alicerçados em muitas dessas características e visões.

Na eleição de 2022 fiz duras críticas ao que chamavam de Terceira Via. Disse que não havia lógica nem estrutura para romper paradigmas estabelecidos. Pior: não havia lideranças viáveis. Chamei aquele grupo de um “exército de Brancaleone”. Poderia ter me referido também a Dom Quixote, de Cervantes, e seus moinhos de vento. Um agrupamento que pode até ser bem-intencionado, mas sem propostas claras, sem representatividade política e que, esfarrapado, acreditava poder desestabilizar uma polarização extremamente patente na política brasileira.

Fui fortemente achincalhado e atacado pessoalmente. Nada que me abalasse. Mas a virulência mostrava o ego inflado de uma certa classe média intelectualizada que só via em si mesma — em seus grupos e em seus pensamentos — a possibilidade de reverter os graves problemas estruturais do país. Sem negociar, sem se dispor ao diálogo. Sem entender a realidade concreta de um país profundamente desigual. Sem tomar partido realmente possível em um momento decisivo para a democracia.

Noto que novamente essa corrente se organiza, repetindo, no meu entender, o mesmo erro, dando oportunidade para que volte a plutocracia excludente no Brasil. E os argumentos são os mesmos.

Dizem: se existem dois turnos, por que entregar de saída? Ledo engano. Não percebem que farão críticas mordazes, como sempre acontece nas campanhas eleitorais, levantarão suspeitas sem necessariamente comprová-las e acabarão oferecendo oportunidades e argumentos para desestabilizar um projeto político, sem ter um programa alternativo bem definido, sem liderança de peso consolidada e sem relevância político-eleitoral efetiva. Servirão, assim, como linha paralela para confrontar um projeto de longo prazo que pode ter raízes transformadoras. Por que não procuram ser coerentes e fazer proposições efetivas no sentido de corrigir possíveis rumos equivocados?

Um político intelectual, a quem muito respeito, afirmou:

“O erro dos que consideram a alternativa de uma Terceira Via é ver os independentes como um bloco, quando na verdade eles são divididos, não formam uma via. Para ser uma via, ela precisaria de um conjunto de propostas próprias e de uma liderança com a qual se identificassem. Enquanto isso não existir, não é alternativa… não se constitui uma via, apenas um grupo de esperneio.”

Concordando plenamente com essa visão, vale ressaltar que isso não se constrói de uma hora para outra. Uma liderança nacional precisa ser trabalhada ao longo do tempo. Um programa precisa ser estruturado pela mobilização de muitos pensadores. E isso não foi feito nos anos recentes.

Fica claro que essas aventuras que começam a se desenhar terão apenas o papel de ajudar a criar um clima de revanchismo, de ignorar os avanços significativos alcançados nos últimos três anos e de não colaborar com uma proposta para o país, de médio e longo prazo, que compatibilize visão social com avanços econômicos e ambientais, permitindo construir perspectivas de um Brasil mais inclusivo e mais justo.

Não parece ser essa a proposta de certos políticos e intelectuais autocentrados, convictos de que, para haver mudanças, seus geniais intelectos precisam ser consultados — mais do que isso, reverenciados. Não se dignam a pensar, em um mundo excludente, alternativas possíveis. Seus egos inflados parecem ser a razão maior que os move.

Ao que chamam de Terceira Via podemos denominar, na verdade, de glória vã — um movimento que pode servir apenas para ajudar a consolidar o avanço de forças reacionárias e conservadoras.