
Guerra
Queria ser Nobel da Paz. Disse ter acabado com oito guerras. Analistas questionam. Sua prática também. Invadiu a Venezuela. Asfixia Cuba, inclusive com a falta criminosa de energia e de alimentos. A bola da vez é o Irã.
Irã de um regime fundamentalista teocrático. Irã que financia e se apoia em cruéis grupos terroristas. Irã do tratamento desumano às mulheres. Irã que, em seus documentos, explicita o objetivo de destruir Israel. Não dá para ignorar ou contemporizar: seu regime atual é uma ameaça real e perversa a um mundo que precisa ser menos belicoso, mais humano e fraterno. Mas a questão deste texto não é essa.
O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA renunciou ao cargo. Segundo a CBN, Kent critica a guerra com o Irã e afirma que o país não representava uma ameaça iminente, sendo a decisão assumida, principalmente, por pressões externas baseadas nos interesses de Israel.
Falso. Trump precisa da guerra. Defende seus próprios interesses, inclusive comprometendo a estabilidade social e econômica do mundo como um todo.
Evidentemente, Netanyahu agradece. Isso vem ao encontro de seus objetivos, inclusive postergando os julgamentos de crimes pelos quais pode ser condenado na Justiça de Israel e do mundo. Mas não se enganem: Trump não entrou nessa guerra sem ter muito claros os resultados que espera para si.
Construir uma narrativa é fundamental para o momento que se atravessa. Desviar o foco da crise interna americana e mostrar que a força é a arma dos poderosos faz parte de um processo planejado, no qual se busca apresentar os Estados Unidos como líder incontestável do mundo.
A promessa de campanha era de crescimento vertiginoso da economia americana — não a longo prazo, mas imediato. Com isso, empregos de qualidade retornariam e a massa salarial aumentaria. Não parece ser o que vem acontecendo neste início de ano.
O “tarifaço” teve um efeito perverso, e a inflação começou a crescer. O Produto Interno Bruto não parece reagir nas proporções esperadas. O custo de vida aumentou, e a classe trabalhadora começa a protestar.
Foi prometido estancar o processo de desindustrialização e repatriar investimentos industriais para melhorar as condições internas. Com o tarifaço, conseguiu-se pouco; e, com o Judiciário considerando-o ilegal, menos ainda se deve avançar — a não ser na deterioração das contas públicas do próprio governo americano.
A concorrência com a China seria contida, e medidas altamente protecionistas fariam com que os Estados Unidos ocupassem o primeiro lugar. Outro objetivo não alcançado e difícil de concretizar. A dependência americana de produtos asiáticos faz com que a situação pouco se modifique.
Apesar do crescimento do PIB de 2,2% em 2025, a economia perdeu força no final do ano, com temores persistentes de estagflação (inflação alta combinada com recessão). Analistas alertam para riscos de recessão diante da volatilidade do petróleo. O mercado imobiliário enfrentou, em 2025, seu pior ano de vendas em quase três décadas, com um alto número de hipotecas ativas.
Cabe lembrar, também, que nos EUA é ano de eleições de meio de mandato, e a maioria republicana nas duas Casas está ameaçada.
“Uma pesquisa conjunta do The Washington Post, ABC News e Ipsos revelou, em 25 de fevereiro de 2026, que o entusiasmo eleitoral entre apoiadores democratas supera em 14 pontos percentuais o dos eleitores republicanos — a maior diferença observada nos últimos anos.”
O uso do gasto público e da corrida tecnológica, associados aos gastos com defesa como motor de crescimento, pode ser uma alternativa para conter essas variáveis. Nisso Trump aposta e para isso se estrutura, buscando auferir resultados — inclusive financiamento para futuras campanhas. Nada melhor que uma guerra para justificá-los.
Também é importante ter em mente que as Big Techs foram grandes financiadoras da campanha do presidente americano. Os esforços de guerra aceleram significativamente os investimentos em Inteligência Artificial — e isso interessa diretamente a essas empresas.
O valor de mercado das empresas ligadas à IA cresceu de forma explosiva na última década, e hoje as maiores empresas do mundo estão diretamente associadas às expectativas de lucros futuros dessa tecnologia.
“Juntas, essas gigantes já representam um valor equivalente a mais da metade do PIB americano. Esse boom tem sido alimentado por investimentos colossais: estima-se que as empresas de tecnologia planejem gastar, nos próximos cinco anos, mais que o PIB americano em desenvolvimento de novas plataformas e produtos.”
O perigo, ressaltado pela maioria dos analistas do mercado financeiro, é o estouro de uma bolha, dada a valorização desproporcional desses ativos frente à demanda e aos novos investimentos. Se isso é uma possibilidade real, a aposta do governo americano é postergar esse evento e minimizar seus impactos por meio de recursos massivos destinados às empresas desenvolvedoras e implementadoras de novas plataformas e algoritmos.
Nesse cenário, criar um inimigo externo e deflagrar uma guerra torna-se uma forma desesperada de administrar a frustração social sem enfrentar suas causas profundas. Por um lado, a guerra mascara o fracasso econômico; por outro, permite esforços midiáticos para estimular o ufanismo e a falsa crença de que os Estados Unidos retomam a liderança do processo mundial.
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