Marc Bloch

Marc Bloch

Desde 1791, o Panteão da França abriga alguns dos mais ilustres mortos do país. Este ano, em 23 de junho, em companhia de sua esposa, Simonne Vidal, o historiador Marc Bloch (1886–1944), herói da Resistência e fuzilado pelos nazistas, chegou ao Panteão. Teria 140 anos. Numa eloquência lacônica, seu epitáfio, por ele mesmo sugerido, declara: “Eu amei a verdade”.

Permitam-me recordar que Bloch, ao lado de Lucien Febvre, é o pai da famosa Escola dos Anais, cujas concepções mudariam para sempre a historiografia. Segundo o historiador inglês Peter Burke, a revista que deu origem à Escola, “Anais de história econômica e social”, “foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que uma outra revista histórica” (Cf. “A Escola dos Annales 1929–1989: a revolução francesa da historiografia”). Começava, assim, com esse “algo mais”, uma “abordagem nova e interdisciplinar da história”.

Mas o que de fato queremos trazer aqui são algumas sínteses e impressões da pioneira obra de Bloch “Os reis taumaturgos”, publicada em 1924. De antemão, sacando de um lugar-comum, devemos dizer: é livro que se lê como um romance. Um romance fantástico, repleto de fatos que, aos nossos olhos contemporâneos, formam um amplo painel que nos interpela sobre o sentido e a verdade, sobre o que imaginamos e o que sabemos.

Peter Burke, em seu citado livro, nos diz que Bloch lançava mão do que posteriormente foi conceituado como “longa duração” por Fernand Braudel, da segunda geração da Escola dos Anais. A “longa duração” estava no ar do tempo. Para o próprio Bloch, “Os reis taumaturgos”, além de “um ensaio de história política”, “era uma contribuição ao que denominava ‘psicologia religiosa’”. Embora seja ambas as coisas, qualquer leitor pode constatar que também é muito mais do que isso. A começar pelo “tour de force” de erudição medievalista. A continuar pelo ineditismo da abordagem. A continuar ainda pela curiosidade do tema, visto até então como subsidiário e que, para muitos, demonstrava da parte de Bloch “uma curiosidade bastante fútil”. Seu livro, diz ele, além de “preencher uma lacuna”, ambicionava “amplitude e caráter crítico”.

O subtítulo de “Os reis taumaturgos”, no original francês, declara que o ensaio é um “estudo sobre o caráter sobrenatural  atribuído ao poder real particularmente na França e na Inglaterra”. Logo nos chama a atenção esse “sobrenatural” e logo nos adverte o “atribuído”… Afinal, o que o historiador fora explorar ao longo da Idade Média? Um subestimado tema: a crença, nos reinos da França e da Inglaterra, de que os reis curavam uma condição então prevalente: a escrófula, ou Mal do Rei. Causada pelo bacilo da tuberculose, a doença deformava, sobretudo na região dos gânglios do pescoço, com tumores e inchaços que criavam monstros e, por vezes, podia matar. Insuflados por uma concepção sagrada da realeza e por um costume secular, os reis cumpriam publicamente o ritual do “toque”, impondo as mãos e dizendo: “O rei te toca, Deus te cura”. Muitos faziam o sinal da cruz. Isso desde o ano mil na França, e, na Inglaterra, desde um século mais tarde.

Excelente escritor e hábil narrador, Bloch, na imensa massa de informações que reuniu, vai como que acenando, aqui e ali, à curiosidade cética do leitor do nosso tempo. É o caso de quando faz registros como este: “Por certo, a escrófula é particularmente apropriada ao milagre, pois, como vimos, ela dá facilmente a ilusão de cura. Mas muitas outras afecções se encaixam na mesma situação”. Observação que também poderia constar, como veremos adiante, na parte final da obra. Em meio à bem coordenada erudição do autor, começamos a nos perguntar aonde nos levará tudo isso. Malgrado as evidências, ficamos num suspense. Como um escrupuloso e regente polvo, Bloch ora lança mão dos aspectos políticos, ora das “confusões de crença”, ora de dados econômicos, ora de comparações entre diversas visões, ora do comportamento dos clérigos em face de reis que pareciam usurpar atitudes de sacerdotes… Sim, “Os reis taumaturgos” é uma obra genuinamente polifônica.

Eis que o mar da história chega às céticas praias do século XVIII. Já estamos no tempo de Voltaire, de Saint-Simon, de Montesquieu, de David Hume. O toque milagroso vai entrando em declínio. O fim do livro chega como um encontro com o tempo presente. E com ele batem à porta algumas questões que nós próprios, ainda atônitos, fazemos a nós mesmos e ao próprio autor: “Os reis teriam curado: se sim, por quais procedimentos?”;  se não, “como então, durante tantos anos, as pessoas puderam persuadir-se de que eles curavam?”.

Muitos crentes, embora não duvidassem, não teriam “dificuldades em confessar que os reis não curavam todo mundo, mesmo tentando várias vezes”. As pessoas de então, pontua Bloch, eram menos exigentes do que nós em face dos milagres e, por isso, “não reclamavam dos taumaturgos, mortos ou vivos, santos ou reis, uma eficácia sempre constante”. Por sua vez, o historiador aponta que a medicina moderna mostraria facilmente como, por vezes, cessam as manifestações de uma doença, mas não o próprio mal.

Longa duração! Oito séculos se passaram, mas mal percebemos! Um tão seguro quanto fraterno Virgílio nos conduziu. O que é mesmo um milagre?